Cultura

Artesãos de Luanda querem maior dignidade

Manuel Albano

A criação de um Prémio Nacional do Artesanato ou a sua inclusão como disciplina no Prémio Nacional de Cultura e Artes é uma reivindicação manifestada há anos pelos artesãos da capital do país, de acordo com o secretário-geral da Associação Provincial dos Artesãos de Luanda (APAL).

Devido à redução de clientes no Museu da Escravatura, a artesã Imaculada Miguenji vende os seus produtos em outras zonas da capital
Fotografia: Dombele Bernardo | Edições Novembro

Em declarações, hoje, ao Jornal de Angola, Nlandu Job explicou que nos últimos tempos os associados sentiram-se “de certa forma excluídos”, embora a sua arte sirva de “cartão postal” na divulgação do acervo cultural, através da produção de peças que retratam o modo de vida dos povos, fauna e flora no país.
O secretário-geral da APAL disse que periodicamente têm sido realizadas reuniões com os associados para fazer levantamentos dos artesãos de Luanda e informá-los sobre as prioridades da instituição.
De acordo com Nlandu Job, a realização anual de uma Feira Nacional das Indústrias Artesanais podia fomentar o artesanato no país, através de exposições, oficinas demonstrativas, vendas e troca de experiências com outras realidades socioculturais.
Os artesãos, reforçou, estão preocupados com a falta de políticas concretas e eficazes que permitam promover os trabalhos e criar um maior intercâmbio entre todos os fabricantes de artesanato. “Queremos trabalhar com as administrações municipais para em conjunto encontrarmos as melhores vias de expansão e dinamizar o artesanato nas localidades”.
As dificuldades financeiras e a falta de patrocinadores, lamentou, têm criado vários constrangimentos na implementação do programa da associação dos artesãos, que há anos não consegue realizar uma feira com a expansão territorial que se pretende em Luanda. “Antigamente realizávamos várias feiras. Agora, só participamos nas actividades realizadas pelo Ministério da Cultura e instituições privadas.”

Protecção dos artesãos
O programa do Ministério da Cultura que visa relançar as feiras nacionais de artesanato é para o responsável uma forma de ajudar a promover o sector e sobretudo os artesãos organizados em associações ou cooperativas. “Precisamos de legislação fortes e com impactos imediatos para a protecção do artesão, criação e comercialização das suas obras”.
Para o também artesão, é importante existir um maior investimento do Executivo na construção de escolas e oficinas de cerâmica, escultura e metalúrgicas para garantir a formação das novas gerações, como forma de deixar-lhes um legado positivo.
Referiu que em Luanda existe a necessidade do alargamento das zonas de realização das feiras permanentes, como a feira de Benfica, transferida como Centro de Artes para um espaço situado junto da zona de protecção do Museu da Escravatura, e a da Ilha de Luanda. “Temos projectos para o alargamento dos espaços, mas tudo passa pelos apoios que conseguirmos junto das administrações locais”, disse.

Vendas baixas
As vendas de peças no Mercado de Artes, localizado nas imediações do Museu da Escravatura, em Luanda, baixaram, em comparação com o movimento comercial que havia na antiga praça do Artesanato de Benfica, reconheceu o artesão Oliveira Manuel.
Em declarações ao Jornal de Angola, via telefone, o artesão, de 49 anos, que chegou a Luanda em 1982, proveniente do Nzeto, província do Zaire, para estudar na capital do país, aprendeu a profissão com o seu falecido pai. Segundo Oliveira Manuel, o rendimento dos artesãos baixou consideravelmente, para menos da metade. />Actualmente a viver no Sambizanga, o artesão explicou que no antigo espaço tinham um lucro diário de dez a 20 mil kwanzas, comparados com os actuais quatro ou cinco mil. Os preços das peças variavam entre 20 e 100 mil kwanzas. “Agora para vendermos uma peça pode levar dias, porque os principais compradores reclamam da longa distância. Isso obriga-nos a vender as peças de artesanato a preços baixos só para levarmos alguns valores para casa”.
Acrescentou que a realidade actual no Museu da Escravatura é contrária à do antigo espaço na Praça do Artesanato de Benfica, cuja localização facilitava o acesso dos clientes na sua maioria estrangeiros, com destaque para portugueses, brasileiros e chineses. “A marca de um povo reflecte-se na sua cultura. Os artistas têm a missão de contar a história através da arte, por este motivo deve existir uma maior protecção desta classe artística”.
Oliveira Manuel disse que actualmente, muitos colegas estão a abandonar o Centro de Artes do Museu da Escravatura. “Queremos regressar à antiga instalação de Benfica por causa da distância. O local continua encerrado e ninguém sabe dizer, até hoje, a finalidade daquele espaço. Porque não voltamos para lá se continua desocupado?”, questiona o artesão.

Abandono do local
Pouco mais de 100 dos 400 artesãos que ocupavam o espaço ainda resistem no tempo, disse Oliveira Manuel. “A maioria já desistiu e vai procurando outros espaços pela cidade para comercializar as suas obras, porque estão a perder muitos clientes”.
Sem clientes, muitos outros pensam em desistir, como é o caso da artesã Imaculada Miguenji, de 31 anos. O mesmo passa-se com as suas colegas de profissão. “Não há clientes, às vezes ficamos semanas e não conseguimos vender nada. Estou a pensar em abandonar o local”, lamentou a artesã.
Imaculada Miguenji reconhece que o local é bonito, mas peca por falta de cobertura nos espaços de comercialização, contrariamente ao Mercado de Artesanato de Benfica. “Estamos a sentir-nos abandonados e os clientes reclamam da distância e preferem procurar outros locais no centro da cidade”, explicou.
Para não deixar o espaço em total abandono, a artesã que é pai e mãe no sustento da família, decidiu colocar a irmã mais nova no seu lugar, enquanto procura outro local que possa garantir mais clientes. Dentre os vários constrangimentos apontou a distância e a falta de transportes públicos, assim como o elevado custo dos táxis.
Estes factores, realçou, contribuem para a queda das vendas e, consequentemente, para a redução dos lucros. “A subida do material nos mercados, bem como o fraco poder de compra dos clientes, também afectam consideravelmente o negócio”, frisou.
Imaculada Miguenji referiu que devido à redução de clientes no Museu da Escravatura, tem optado por vender os seus produtos de cestarias com alcofas, vasos decorativos, porta-moedas, pastas, cestos, quindas, bases, balaios e fruteiras em zonas como o Patriota, Ilha de Luanda, Talatona e Morro Bento, quando são realizadas periodicamente feiras de arte.
“Antigamente ganhava entre oito e 20 mil por dia. Hoje, se conseguir fazer dez mil kwanzas por semana é muita sorte”, concluiu a vendedora, que reclama o regresso às antigas instalações do mercado de artesanato do Benfica.

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