Artista brasileira vence BES Photo


5 de Julho, 2014

Fotografia: DR

A fotógrafa brasileira Letícia Ramos é a vencedora da décima edição do Prémio BESPhoto, a principal distinção de arte contemporânea em Portugal, que premeia artistas de países de língua portuguesa desde 2007.

A exploração de “outros imaginários possíveis” a partir da imagem fotográfica foi um dos argumentos do júri que distinguiu por unanimidade a artista pelos vários trabalhos apresentados tanto na exposição “Nós Sempre Teremos Marte", como por uma trajectória “consistente, centrada na investigação, e cujo processo de trabalho reflecte uma coerência da linguagem fotográfica”.
“É uma série de imagens onde não temos a noção de tempo. São imagens que potenciam dúvida”, descreveu a artista ao receber o prémio de 40 mil euros. Não é uma tendência nova, mas interrogação sobre o carácter de “verdade” implícito na fotografia tem mostrado um enorme fulgor na obra de inúmeros artistas nos últimos anos.
Letícia Ramos, informou o júri, tem concentrado a sua reflexão nas imagens produzidas pela ciência, tentando, por um lado, desconstruir aquilo que mostram supostamente como o documento “puro”, inquestionável, e, por outro, trazer para o campo da criação artística a poética presente em muitas das realizações científicas, “seja a voz metálica de uma voz a descrever a exploração de um espaço nunca visitado e longínquo, sejam as paisagens abstractas que se vão construindo (por causa do desgaste físico) numa película de microfilme, depois de visto e revisto milhares de vezes".
“O meu interesse por esta relação entre imagem e ciência é de desconhecimento. Não quero conhecer, não quero saber muito da história científica que está por trás de cada uma das experiências ou imagens, justamente para continuar a ter a ilusão e a poética das imagens com esta natureza”, disse a artista brasileira, que aborda ainda questões relacionadas com a efemeridade e a transformação dos suportes fotográficos. 
Viciada em noticiário sobre ciência, Letícia Ramos inspirou-se precisamente no título de uma notícia para dar nome à exposição que em Novembro vai para o Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.
Em meados de 2012, quando produzia alguns dos trabalhos que fazem parte desta mostra, e quando o robô Curiosity da NASA enviava para a Terra as primeiras imagens fotográficas de Marte, Letícia leu “Nós sempre teremos Marte". Juntou esse fascínio pelo planeta vermelho ao do cinema para construir uma série de trabalhos dedicados ao imaginário da fotografia de ciência, onde o cinema também desempenha um papel fundamental, através do filme "Vostok", que relata uma viagem de exploração científica à Antárctida. “Este filme também é um elogio ao cinema, por isso tem condições para essa experiência da ficção”, explicou Letícia Ramos no dia da inauguração da exposição em Lisboa, que partilhou com os outros finalistas do prémio, José Pedro Cortes e Délio Jasse. Muitos dos que viram este filme, feito apenas com maquetas, perguntaram se a artista tinha filmado mesmo no gelo. Esta dúvida provocada pelas imagens representa “uma vitória” para a artista, já que muitas vezes aproximamo-nos das imagens da ciência através do cinema. “Quando elas aparecem no cinema são mais verdadeiras que a própria imagem científica original”, realçou.
Os finalistas desta edição do prémio, organizado pelo Museu Colecção Berardo, em Lisboa, eram Délio Jasse (Angola), José Pedro Cortes (Portugal) e Letícia Ramos, todos com obras inéditas, expostas desde o final de Maio no referido museu.
O prémio, resultado da parceria entre o Banco Espírito Santo (BES) e o Museu Colecção Berardo, vai já na sua quarta edição e tem estatuto internacional, abrangendo não apenas artistas de nacionalidade portuguesa, mas também brasileira e dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.
A fotógrafa, nascida em 1976, em Santo António da Patrulha, vive e trabalha em São Paulo, tendo já sido distinguida com o Prémio Funarte Marc Ferrez de Fotografia (2010) e Prémio Brasil Fotografia - Pesquisas Contemporâneas (2012). No ano passado fez também parte do programa “Encontros na Ilha", da IX Bienal do Mercosul.

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