Cultura

As canções de Zecax na história da música de intervenção

Jomo Fortunato

Numa altura em que a colonização portuguesa dava os derradeiros suspiros, Zecax compôs com apenas quinze anos, uma canção que lembrava o luto deixado pela violência da presença colonial e denunciava a deportação dos seus amigos mais próximos, para o campo de concentração de São Nicolau, no deserto do Namibe.

Músico e compositor, Zecax fez parte do histórico agrupamento “Kissanguela”, formação musical ligada à organização juvenil do MPLA
Fotografia: Eduardo Pedro | Edições Novembro

Esta atitude, considerada muito ousada na época, determinou a primeira fase da carreira do compositor e a sua entrada, precoce, no universo simbólico e interventivo da canção política.
Porta-voz da sociologia cultural dos musseques, Zecax cantou as contradições e alegrias do seu meio, enformando uma personalidade artística, tipicamente luandense, facilmente identificável no conteúdo textual das suas canções. O cantor e compositor, distinguiu-se, em palco, pela forma, muito peculiar, de interpretar as suas canções, aliada ao impressionante impacto da dança, caracterizada por passos coreográficos artisticamente calculados.
A forma como se movimentava em palco, fazia lembrar os artifícios dos grandes nomes do carnaval luandense, sobretudo de figuras que se notabilizaram na “Kazucuta”, estilo de dança característica do “Kabocomeu”, histórico grupo de Carnaval do Bairro Sambizanga.
Escolhido por uma criteriosa selecção, entre os amigos do seu bairro, Zecax integrou, em 1970, como cantor, o agrupamento infantil “Mini-Bossa 70”, com Dulce Trindade (percussão), Brando Cunha (viola solo), Carlos Timóteo (viola baixo), Celino Bonzela Franco (tumbas), Filipe (viola ritmo) e Juca Morgado (voz). O “Mini- Bossa 70”, formação apadrinhada pelo empresário Pedro Franco, embora fosse constituída por músicos muito jovens, teve a oportunidade de se apresentar no Clube Maxinde, Bom Jesus, Desportivo União de São Paulo, Ginásio e Centro Social de São Paulo, importantes espaços, luandenses, de recreação e entretenimento cultural da época colonial.
A aprendizagem e solidez criativa, adquirida no interior do “Mini-Bossa 70”, levaram Zecax a integrar, três anos depois, o agrupamento “Surpresa 73”, com Xaxado (viola solo), Naterço (viola baixo), e Nzo Yami (dikanza e voz). Estávamos numa época de intensa rebeldia e contestação estudantil, e o produtor e técnico de gravação, Jofre Neto, solicitou, ao Zecax, uma canção de teor revolucionário. É assim que surge o tema “Colono”, uma canção que ficou famosa e que marcou a introdução de Zecax, no universo da canção revolucionária: “Tundénga giba panguejetu/ Angola tua xala ni luto ué/ kambadiami Meirim/ uaum tumissakuá São Nicolau/ kambadiami Inocêncio éé/ Colono ué, uámujiba/ kambadiami, São Pedro/ colono ué uámujiba/ Colono palanhiku tu jiba/ mukonda dya ngolaietu ué..., cantava Zecax.
Filho de José António Janota Júnior e de Luzia Bento Anita, José António Janota nasceu em Luanda, Bairro Marçal, no dia 2 de Junho de 1959, e assistiu os melhores momentos dos grupos de carnaval do seu bairro.

Militância
Relacionada, directamente, com a sua aproximação ao associativismo cultural estudantil, surgiu a militância política de Zecax, na JMPLA, numa altura em que os jovens assumiam de forma progressiva, a contestação política, como principal arma de mudança social. Em consequência, Zecax fez parte do histórico agrupamento “Kissanguela”, em 1976, formação musical ligada à JMPLA, como cantor, gravando o seu nome nesta importante banda musical, que representa o ponto mais alto da canção revolucionária. Zecax passou depois pelos “Angolenses”, um grupo engajado politicamente, que defendia, nos textos das suas canções, a libertação total de África.

Conjuntos
Zecax passou pelos “Merengues”, como viola ritmo e vocal, em substituição de Zeca Tirylene, tendo feito uma importante digressão pela França e União Soviética, com importantes nomes da Música Popular Angolana, incluindo, Tonito e Belita Palma. Na condição de funcionário do Ministério da Cultura, Zecax integrou os “Diamantes Negros” com o António Imperial, Baião (guitarra solo), Betinho Feijó (guitarra ritmo), Nelinho Airosa (baixo), Jesus (bateria), Hilário (congas), Massikoka (teclas), Batukas (saxofone tenor), Jesus (saxofone alto), Fausto (trompete), Mamukueno (falecido), Dina Santos e Santocas, nas vozes. Da época dos “Diamantes Negros”, ficou na memória a canção, “Caminhar é difícil”, interpretada por Zecax. Nos Jovens do Prenda, onde passou de 1981 a 1988, ficaram os su-cessos, “Undengueuami”, uma belíssima canção em que o cantor exalta a memória da sua infância nos becos do Capolo Boxino Bairro Marçal, “Makotamami”, e “
Fim- de-semana”.
Zecax interpretou ainda os sucessos: “Maximbombo”, “Boleia” e “Donzela”, nos Kiezos, onde passou de 1984 a 1988, Zecax fez parte ainda do agrupamento “Semba África”, com o qual gravou os sucessos, “Mana Tita” e “Caçador”.

Participações
Embora tenha deixado em preparação, antes da sua morte, o seu primeiro CD de originais, que inclui os principais sucessos da sua longa e notável carreira, Zecax participou em várias colectâneas, uma das quais, “Memórias do Marçal”, com vários cantores oriundos do Marçal, bairro histórico da cidade de Luanda. No entanto, o palco foi nos últimos momentos da sua vida , um dos seus mais frequentes espaços , onde revelou o seu dinâmico talento. Para além de digressões, e participações em festivais internacionais, Zecax foi uma presença ordinária nas sessões do “Caldo do Poeira” da Rádio Nacional da Angola (RNA), e no “Muzonguê da Tradição, onde foi um dos convidados da sua primeira edição, em Fevereiro de 2006, realizado pelo Centro Cultural e Recreativo Kilamba, espaços onde tem revisitado canções da sua imponente carreira tais como, “Tita”, “Parte o braço”, entre outros temas. O cantor foi um dos convidados principais, em Outubro de 2010, no concerto de homenagem ao cantor e compositor Alberto Teta Lando com, Carlos Lamartine, Lina Alexandre e Augusto Chacaia, uma voz da história dos “Jovens do Prenda”.

Angolenses
Depois de vinte e sete anos, após a sua extinção, Zecax foi um dos artistas convidados, no concerto de homenagem ao agrupamento “Angolenses”, formação em que pertenceu, no Centro Cultural e Recreativo Kilamba, em Luanda, no âmbito da 61ª edição do programa Caldo do Poeira, realizado no dia 24 de Junho de 2007. Para além de Zecax, participaram na homenagem, Dulce Trindade, Alfredo Henriques, Avozinho, Robertinho e as coristas Zezé, Gigi e Cármen. Na ocasião, os “Angolenses” acompanharam os artistas, Nelito Bangão, Carlos Lamartine, António Paulino, Nito Nunes, e Prado Paim, num claro reconhecimento dos feitos e importância do grupo, formado na antiga Escola Industrial Oliveira Salazar.

Guitarrista Baião fala sobre Zecax

António Imperial (Baião), um dos principais conselheiros do Zecax, e conhecido guitarrista dos “Jovens do Prenda”, fez o seguinte depoimento sobre o cantor: “Conheci o Zecax no Bairro Marçal, nos idos anos setenta, altura em que fez parte do agrupamento ‘Mini-Bossa 70’. Estávamos na época dos pequenos agrupamentos, que irradiavam das grandes bandas musicais. Anos depois, ele passou pelo ‘Ndimba Ngola’, e, mais tarde, pelo ‘Surpresa 73’, onde interpretou o tema “Colono”, um dos seus grandes sucessos da época do início do fervor revolucionário. Na sequência, levei-o, por mérito próprio e reconhecido valor artístico, para os ‘Diamantes Negros’, um conjunto ligado ao Ministério da Cultura.
Zecax trabalhou no então registo civil, como funcionário público, e foi nesta altura que lhe formulei um convite para os ‘Jovens do Prenda’, na época do ressurgimento do grupo, patrocinado pelo empresário José Kandango, onde teve uma passagem retumbante, que marcou a história gloriosa dos ‘Jovens do Prenda’. Depois passou pelos ‘Kiezos’, e ‘Semba África’. Lembro que do ponto de vista musical, pouca gente sabe que o Zecax foi um excelente guitarra ritmo, um facto que facilitou o processo de composição das suas canções. Enquanto cantor e compositor, não sei se estou a ser exagerado, mas o Zecax tem o seu nome gravado com letras de ouro na história da Música Popular Angolana, com um lugar merecido na linha da frente dos consagrados. Esta sua dimensão artística, cujo alcance reconheço, desde os primórdios da sua carreira, fez-me tê-lo sempre em conta, quando o assunto era convidar um cantor, nos grupos por onde passei. A dimensão rítmica da música de Zecax, relaciona-se com a pulsação das gentes de Luanda, concretizada, fundamentalmente, no culto do semba, e pela música proveniente dos carnavais. Zecax era possuído pela arte dos mais velhos, na forma de cantar, e merece, por mérito próprio, uma digna e prestigiada homenagem”.

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