Associação ambiciona Carnaval de grande projecção

Adriano de Melo|
17 de Fevereiro, 2015

Fotografia: Paulino Damião

A defesa da cultura nacional numa perspectiva moderna, que acompanhe e mostre os avanços da dinâmica social, é o pedido que a Associação Provincial do Carnaval de Luanda (APROCAL) faz aos grupos da Classe A, que desfilam hoje, a partir das 16h00, na Nova Marginal de Luanda.

O objectivo da APROCAL - disse ontem ao Jornal de Angola António de Oliveira “Delon”, secretário-geral da associação - é realizar uma festa à altura dos 40 anos de independência que Angola celebra. Para alcançar essa meta, adiantou “Delon”, os grupos preparam há vários meses um espectáculo assente num enredo a favor da tradição.
A APROCAL quer que os grupos explorem hoje, durante o desfile na Praia do Bispo, o máximo possível, as manifestações culturais, a chave do sucesso para um grupo ser vencedor. “Não queremos que os grupos participantes fiquem amarrados à tradição, mas casem-na com o moderno na indumentária e na coreografia. O essencial é o respeito pelas raízes, ou pelo semba e outros ritmos, a kazucuta, dizanda, katutula ou a cabecinha.”
Para “Delon”, a escolha do júri desta edição e de qualquer outra é um dos assuntos polémicos, mas a APROCAL faz a selecção tendo em conta a idoneidade e o prestígio das personalidades no mercado angolano. “A decisão dos membros do júri é inapelável, portanto, eles têm de ter a noção do que é o Carnaval de Luanda. Convidamos as pessoas também pela responsabilidade artística, mas geralmente são pessoas conhecidas pela sociedade”, justifica o secretário-geral da APROCAL.
Apesar desta selecção e da preocupação com o júri, é comum por vezes, segundo “Delon”, um ou outro ser influenciado ou ter mais inclinação para um grupo. “Isso penaliza o trabalho de todos e para evitar constrangimentos, que podem ter grandes diferenças na pontuação, em cada categoria temos um elemento do júri para ajudar no equilíbrio dos pontos”, disse “Delon”.
O secretário-geral adiantou que todos os anos a APROCAL realiza um seminário para refrescamento dos membros do júri. “Eles têm uma grande responsabilidade. Algumas áreas, como a avaliação da roupa da corte, que tem muitos elementos e é a alma do Carnaval, requer uma pessoa conhecedora desta arte”, explicou.

Apoio financeiro

A APROCAL, que garantiu muito cedo o apoio financeiro e material cedido pelo Estado aos grupos, disponibilizou 700 mil kwanzas para a Classe A, 500 mil kwanzas para a Classe B e 300 mil kwanzas para a Classe Infantil. Para Delon, o valores ainda são insuficientes para incentivar os grupos a melhorarem o desempenho nas danças. A quantia ideal para os grupos - defendeu - não pode ser menos de 2,8 milhões de kwanzas.
“Os grupos têm razão em reclamar, devido a quantia entregue. Fazer Carnaval requer meios financeiros. Uma alegoria, por exemplo, pode custar 1,4 milhões ou 1,6 milhões de kwanzas. O painel ou a bandeira, feitas por profissionais, não ficam a menos de 312 mil kwanzas. A indumentária, apesar de receberem os tecidos da Comissão Preparatória Provincial, também custa caro e nem sempre é suficiente para vestir o total de membros, já que um grupo da Classe A tem, no mínimo, 300 pessoas. “Vesti-las requer muito dinheiro”, disse “Delon”. Uma solução para este problema é os grupos procurarem apoios de empresários ou de empresas, públicas ou privadas. Os gastos avultados dos grupos também podem ser colmatadas com o apoio dos munícipes. “Este é um dos problemas que muito preocupa a APROCAL, pois existem empresas dispostas a apoiar alguns dos grupos”, sublinhou.
Esta participação, ou a vontade de o fazer é, para “Delon”, um sinal claro do interesse que o Carnaval desperta, nos últimos anos, na classe empresarial nacional. “É uma forma de tornarmos o Carnaval uma actividade rentável para todos os envolvidos”, acentuou.

Espaço e projecção

O secretário-geral da APROCAL considerou ainda importante existir uma maior abertura e projecção do Carnaval a nível internacional, de maneira a criar mais espaço aos grupos de mostrarem o seu potencial e atraírem investidores. A criação de um “Sembódromo”, à semelhança do Sambódromo no Brasil seria uma das saídas ideais para esta projecção. “Com uma estrutura do género, com condições apropriadas para os grupos carnavalescos e jornalistas, sairíamos a ganhar muito com a rentabilidade económica, porque teríamos um espaço condigno”, disse o responsável.
A importância de um espaço do género - acrescentou - não retira valor à Nova Marginal, na Praia do Bispo, que pela sua dimensão tem ajudado a realizar desfiles em condições próprias. “O antigo local, na Avenida 4 de Fevereiro, ficou pequeno para o actual número de integrantes dos grupos”, fundamentou “Delon”.
A projecção limitada dos grupos é outra preocupação da APROCAL, porque a maior parte deles fica muito circunscrito às datas. Os grupos de Luanda precisam de aproveitar oportunidades ao longo do ano ou no Carnaval fora de época, para obterem rendimentos. “Os grupos precisam de começar a agigantar-se e ter iniciativa e uma maior capacidade de organização para gerir o próprio grupo, além dos dias dos desfiles.”
A APROCAL realiza todos os anos o “Assalto ao Carnaval” no dia 17 de Setembro, nas comemorações do mês do Herói Nacional e, depois, a Leguilha. “Nessa altura é fundamental estes começarem a criar condições para obterem financiamento.” Ao nível dos municípios, destacou, é preciso também haver movimentação ou iniciativas capazes de financiar os grupos.
“Os grupos têm um gasto muito grande, que os leva a não depender só do valor ou dos meios que recebem do Estado. Mas precisam de encontrar formas e outros parceiros para os custear”, argumentou “Delon”.

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