Auto-retrato de Da Vinci é exposto ao público


3 de Novembro, 2014

Fotografia: Divulgação

O auto-retrato de Leonardo Da Vinci, uma das obras mais famosas do mundo, está exposto novamente em Turim, Itália, até ao dia 15 de Janeiro, numa rara mostra de arte, depois de ter ficado anos escondido num cofre subterrâneo.

A Biblioteca Real de Turim, que é a detentora do desenho a sanguínea - uma espécie de giz vermelho - em que Leonardo Da Vinci passou para o papel os traços do seu rosto, teve o quadro fechado a sete chaves numa sala subterrânea para poder evitar danos maiores, causados pela inexorável passagem do tempo.
O auto-retrato, actualmente com 500 anos, cuja história é tão antiga como surpreendente, está exposto numa mostra que a Biblioteca Real de Turim denominou de “Leonardo e os Tesouros do Rei”.
A exposição inclui uma centena de obras-primas da colecção do mestre das belas artes que pertencem à instituição, assim como cartas náuticas, manuscritos ou desenhos de Raffaello, Carracci, Perugino, Van Dyck e Rembrandt.
Todas as obras são autênticas preciosidades e deixaram os cofres a que normalmente estão confinadas e estão acessíveis ao público nas salas abertas da biblioteca durante pouco mais de dois meses.
O auto-retrato de Leonardo Da Vinci tem um estatuto especial e é tão valioso que só pode ser deslocado com a autorização do Governo italiano e o seu transporte exige uma “caixa especial”, com a capacidade de manter as mesmas condições de temperatura e humidade da sala subterrânea onde está guardado.
Esta caixa, informou a direcção da Biblioteca Real de Turim, é depois acondicionada dentro de várias outras caixas, com o objectivo de evitar qualquer vibração. O veículo é monitorizado remotamente e acompanhado por uma escolta armada.
O processo de protecção é extremamente complexo e, segundo a BBC, é pouco provável que se repita mais vezes: a última ocasião em que o auto-retrato de Leonardo saiu da Biblioteca Real de Turim foi em 2011 para uma exposição no palácio de Venaria Reale, que marcava os 150 anos da reunificação italiana.
Só nestes casos especiais a instituição equaciona mostrar o desenho de Da Vinci, pelo que a exposição agora inaugurada é uma excelente oportunidade para observar a obra datada de 1515, ainda que alguns peritos considerem que o estilo e a técnica do desenho se identificam mais com os trabalhos de Leonardo na década de 1490.
Entre os especialistas há mesmo quem se recuse a acreditar que tenha sido Leonardo o autor do retrato, em consequência das convicções do próprio, porque Da Vinci acreditava que a arte devia representar um ideal e não a face do artista.
Na realidade, sabe-se ainda muito pouco sobre este retrato com cinco séculos. O que domina são sobretudo os mitos construídos em volta do homem que surge no desenho: seja ou não Leonardo Da Vinci, tem um olhar tão intenso e penetrante, mesmo do papel, que os próprios especialistas que se dedicaram à sua restauração admitiram ter arrepios enquanto trabalhavam na obra.
Em Itália, acredita-se que o desenho tem poderes ocultos e na própria cidade de Turim existe o mito de que aqueles que observam o auto-retrato de Leonardo são imbuídos de força e poder. Ao ponto de, durante a Segunda Guerra Mundial, a obra ter sido retirada de Turim e levada para Roma sob sigilo: o objectivo era evitar que caísse nas mãos de Hitler, dando-lhe ainda mais poder. Da colecção de manuscritos e desenhos da Biblioteca Real de Turim, foi o único a ser deslocado. O actual director da instituição, Giovanni Saccani, disse à BBC que, ainda hoje, ninguém sabe o local onde foi mantido fora do alcance dos nazis.
Na altura, não danificar a obra de Leonardo Da Vinci foi a última das preocupações na operação de transporte, pelo que o desenho está hoje muito deteriorado e é conservado em condições absolutamente excepcionais, numa sala subterrânea da Biblioteca à qual só é possível aceder através de portas blindadas e que foi construída em 1998 especificamente para guardar o desenho e outros manuscritos valiosos.
A luz natural não pode entrar neste compartimento e a iluminação faz-se unicamente através de fibra óptica. A temperatura é mantida a uns constantes 20 graus e a humidade a 55 por cento. A caixa de protecção do desenho é feita de um tipo de vidro “anti-tudo”, ironiza o director da Biblioteca, e a área é permanentemente vigiada com câmaras de segurança e tem alarmes de todo o tipo.
A Biblioteca Real de Turim garantiu, através do seu director, que a obra-prima não sofreu danos nas catacumbas do edifício. “Este facto conforta-nos”, disse à BBC o director da Biblioteca. “Temos de recordar que este é um desenho com 500 anos. Os desenhos que fizemos na escola já nem sequer existem e este foi feito em papel comum, por isso é extraordinário que hoje consigamos expor esta obra-prima.”
A forma como o desenho foi parar a cidade de Turim também é curiosa: foi comprado em 1839 pelo rei Carlos Alberto de Sabóia, por um valor exorbitante para a época: 70.000 liras, quando na altura o salário de um médico, por exemplo, não ultrapassava as mil liras.
O vendedor, Giovanni Volpato, também era curador e nunca revelou como conseguiu o auto-retrato de Leonardo. E, além do preço, apresentou ao rei outra contrapartida: queria ser o curador dos desenhos da Biblioteca Real de Turim.
O monarca acedeu e Volpato, que já tinha o que queria, até lhe fez um desconto: vendeu-lhe o desenho por 50.000 liras e dispensou pagamento pelos seus serviços de curador. Ainda assim, o rei levou oito anos a pagar-lhe em prestações o auto-retrato.

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