Auto didactismo e expressão artística internacional

Jomo Fortunato| Lisboa
22 de Setembro, 2014

Fotografia: Cedida pelo artista

Fotógrafo e artista plástico Kiluanji Kia Henda inaugurou a 18 de Setembro a exposição “A city called Mirage”, mostra que vai até o dia 29 de Novembro, patente na Galeria Filomena Soares, em Lisboa.

A génese e dimensão ficcional da sua obra, tem revelado a problematização e questionamento da herança colonial, num processo em que o artista reconverte os ícones da arte tradicional, transformando-os em criações contemporâneas, valorizando símbolos e lugares de memória.
Julgamos de suma importância registar o impacto do movimento artístico criado à volta da I Trienal de Luanda, em Dezembro de 2007, certame que vai ter contribuído para afirmação e divulgação de muitos artistas angolanos da nova geração. Sobre o facto, Fernando Alvim, conceptor da Trienal de Luanda, presente na inauguração da exposição, afirmou o seguinte: “Nós criámos uma plataforma para que muitos artistas da nova geração pudessem desenvolver e divulgar o seu trabalho, facto que culminou com a participação de alguns deles no primeiro Pavilhão Africano da 52ª Bienal de Veneza, em 2007. Em relação à nova exposição de Kiluanji Kia Henda sentimos que há um impacto das viagens do artista pelo mundo, e julguei interessante a preocupação do artista em propor o tema das cidades virtuais, e as ‘receitas’, de certa forma humorística, de criação do Dubai em casa”.
De facto, a ousadia na observação crítica do quotidiano político e social, e a visão crítica do passado histórico colonial, e a “desconstrução” de verdades julgadas conclusivas, têm sido os motes inspiradores de um importante movimento da nova geração de artistas plásticos angolanos que, embora seguindo percursos diferentes, inclui nomes como: Benilde Hyrcan Semedo, Lino Damião, Paulo Kussy, Benjamim Sabby, Marco Cabenda, Edson Chagas, Nástio Mosquito, Ndilo Mutima,Paulo Kapela, Yonamine, e, obviamente,  Kiluanji Kia Henda.
A “A city called Mirage” inclui fotografias, esculturas, performance, vídeo, textos de ficção e registo documental. Segundo o editor e realizador brasileiro, Lucas Parente, que escreve o texto do catálogo: “A City Called Mirage é uma exposição complexa que traça vias originais sobre um tema recorrente nos últimos tempos: o das cidades entre a virtualidade e a desertificação. Kiluanji aposta na ficção científica e mitológica e na ironia como formas de transcender o pessimismo da hipercrítica e a estética da ruína. Através do humor adquire-se consciência do quão são efémeras as maiores construções humanas: todas as cidades voltarão a ser matéria-prima, tal como os metais retirados do subsolo voltarão a fundir-se na terra”.
Deste modo torna-se difícil ficarmos indiferentes à “poeticidade” e dimensão  ficcional dos textos de Kiluanji Kia Henda, que acompanham a exposição: ”A cidade foi concebida sem a localização exacta na qual as suas fundações seriam sedimentadas. A preocupação primordial era o sonho de edificar uma linha do horizonte colossal que arranhasse o manto invisível do céu. Assim, era indiferente a decisão de assentar os seus pilares na terra ou nos mares. Concebida para ser um talismã, a cidade provocava delírios devido ao brilho artificial no vídeo tridimensional do seu esboço. Mesmo com o topo dos seus edifícios envoltos em nuvens, a materialização desta metrópole é uma das maiores representações do vazio nos subsolos. A sua imagem invertida seria uma infindável cratera no hemisfério sul, o seu avesso um litoral sem praias. A matéria extraída para construção da cidade, encobriu a terra com as suas próprias vísceras, e o protótipo de um paraíso terrestre foi parido numa cesariana que jamais cicatrizou”, escreve Kiluanji Kia Henda.

Percurso


Filho de Adriano Pereira dos Santos Júnior e de Rosa Maria da Costa Brito dos Santos, Kiluanji  Henda Brito dos Santos nasceu em Luanda, no dia 16 de Julho de 1979. Autodidacta, pertence à nova geração de artistas angolanos que possuem uma representativa carreira internacional. Para além de projetos em artes visuais, também trabalhou em teatro, música e cinema. Em 2005 participou no programa de residência artística da I Trienal de Luanda viajando por várias províncias de Angola, de onde resultou o projecto “Ngola bar”, apresentado em 2007 na I Trienal de Luanda, SD Observatório no Instituto Valenciano de Arte Moderna (IVAM), e na 52ª Bienal de Veneza, para a mostra Check List- Luanda Pop.
Kiluanji Kia Henda viveu em Lisboa em 2007, tendo participado no programa de residência artística da ZDB, onde realizou o projecto “Blood Business Corporation”, uma invasão do Iraque simulada na zona de oleodutos em Sines. Em 2008 criou, na cidade do Cabo, projecto Expired Trading Produts relacionado com a crise de xenofobia que se vivia e sobre a única estação nuclear em África. Numa residência artística de três meses com a ProHelvetia - Swiss Art Council, e o colectivo do qual é co-fundador, International Assossiantion for a Happy Artist.
Participou ainda na III Trienal de Guangzhou intitulada Farewell to Post-Colonialism, onde ficou por dois meses, a convite da Fundação Sindika Dokolo para produção de Icarus13, um projeto utópico que retrata a estória da primeira missão espacial em África em direcção ao Sol.
Regressou em Angola em 2009, e apresentou a sua primeira exposição individual em Luanda, intitulada “Estórias e diligências”, depois nas mostras coletivas em São Paulo, na Galeria SOSO e na exposição, “Luanda: Smooth and Rave I”, Museu Solar do Ferrão, Bahia, Brasil. No mesmo ano realiza o projecto “Trans It” que foi apresentado numa exposição individual em São Paulo e em várias mostras colectivas em cidades como Lisboa, Bordéus, Bahia, Luanda e Lumumbashi.
Em 2010 reside quatro meses em Veneza no âmbito do programa de residência artística com a Fondazione di Venezia e Fondazione Bevilacqua La Masa, onde realizou o projecto Self Portrait As A White Man, que aborda  a diáspora, imigração e identidade, apresentado também na galeria Fonti, Nápoles e na II Trienal de Luanda.
Em 2011 foi  finalista do BES Photo, e participou nas exposições: “Tomorrow was already here”, Museo Tamayo, Mexico City, ‘Les Ateliers de Rennes - Biennale of Contemporary Art’, Les Praires, Rennes, França; ‘SuperPower: Africa in Science Fiction’, Arnolfini, Bristol, UK; ‘You Are Now Entering’, Derry-Londonderry, UK; ‘Doublebound Economies’, Halle 14, Leipzig, Germany; e ‘Experimental Station’, Centro de Arte y Creación Industrial LABoral, Gijón, Spain. Em 2013, o seu trabalho foi incluído na Fundação Gulbenkian e Centro Cultural de Belém, Lisboa, em Paris, Sharjah Art Museum, UAE. Esteve ainda em residências artísticas nos EUA, Índia e Dakar.

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