Avignon encerra com balanço razoável


13 de Agosto, 2014

Fotografia: Reuters

O director do Festival de Avignon, Olivier Py, disse na segunda-feira, na universidade Louis Pasteur, que esta edição foi tudo menos fácil e esteve dividida entre um modo de tornar os violentos debates em “modos de defesa da democracia e da república” e a necessidade de justificar a queda de vendas de bilhetes e de ocupação de salas.

“Queria um festival político e acho que o tive, mas talvez não como o imaginei. Às vezes é preciso sair da política, que é algo mais vasto, e aproximarmo-nos da poética. Não foi algo simples, mas ainda assim belo”, disse Py, destacando a importância do Festival de Avignon, considerado uma das grandes manifestações culturais contemporâneas.
A organização avançou uma ocupação de 90 por cento para os 57 espectáculos programados, “o que é francamente impressionante para uma edição tão caótica”, mas representa uma queda de 5 por cento relativamente a 2013, que corresponde a 120 mil bilhetes vendidos em relação aos 128 mil no ano passado.
Para Olivier Py as razões são externas: três dias de greve (4, 12 e 24 de Julho) e dois dias de temporal (7 e 13 de Julho), que levaram à anulação de vários espectáculos, assim como às perdas acumuladas, que é “um problema para o próximo ano”.
Nas redes sociais, nos fóruns de espectadores, nas páginas da imprensa internacional, disse, podem encontrar-se outras razões que justificam um festival que demorou a arrancar, que não apresentou consensos, que não se relevou dinâmico e, sobretudo, que falhou, como um grande movimento que tira o pulso à importância da criação contemporânea, sobretudo numa cidade como a de Paris.
Sobre as críticas, Olivier Py disse que não se aborreceu um único minuto, “apesar de não ter sido tudo divertido”. “Aconteceram muitas coisas profundas, muitas dificuldades e alguns diálogos duros, mas, no fim, o festival continuou em frente”, afirmou.
“O Estado tem de escolher se quer salvar este festival. Vivemos hoje num paradoxo cultural. Enquanto as salas de espectáculos e os museus estão cheios, os discursos políticos têm cada vez menos referências à cultura. E Avignon é um lugar de cultura no mundo, de debate e encontro, e não um supermercado da cultura. É o lugar para a utopia. Portanto, compete ao Estado essa responsabilidade”, defendeu.
Os efeitos da fraca aposta na Cultura nas políticas do Estado, disse, vão começar a sentir-se já no próximo ano e vão ser feitos de escolhas. “Se o Estado não se responsabilizar vamos ser obrigados a escolher entre a produção, a criação, a acção social ou a programação. Ou, então, fazer um festival mais curto”, lamentou.  Quanto ao impacto das perdas, que podiam pôr em causa a sua própria direcção, Olivier Py disse que “é a margem de risco artística que está em perigo”. “Avignon pode escolher ser apenas um festival que compra espectáculos, mas não tenho vocação para ser dono de garagem”, rematou.

A festa francesa

Fundado em 1947 por Jean Vilar, o Festival de Avignon é uma das grande manifestações internacionais do espectáculo vivo contemporâneo, que acolhe anualmente, no mês de Julho, um vasto público de todas as gerações (geralmente com mais de 130.000 entradas) para assistir a estreia de 40 de obras de teatro, dança, bem como de artes plásticas ou música.
Realizado a céu aberto, os espectáculos acontecem no Corredor de Honra do Palácio dos Papas, onde já esteve em cena “A Tragédia do Rei Ricardo II”, de William Shakespeare, na altura escrita por Jean Vilar, para a 1ª edição do Festival. Actualmente, para os críticos, Avignon transformou-se numa vila-teatro, que faz uma metamorfose do seu rico património arquitectónico para dar lugar a representações majestosas e inebriantes.
Os artistas associados ao festival procuram dar lugar à criação contemporânea, que permanece cada vez mais como o centro das prioridades da actividade. Antes de apresentar o programa, os organizadores comunicam com os “artistas associados”, para conferir ao festival , em cada ano, uma sensibilidade e um olhar diferente sobre a arte do palco.

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