Baterista ligado à fundação dos Afra Sound Stars

Jomo Fortunato |
3 de Novembro, 2014

Fotografia: Cedida pelo músico

Quando chegou a Luanda, em 1974, proveniente do Município da Kibala, Tubarão não alimentava o sonho de ser músico profissional. Tal facto veio a ocorrer dois anos mais tarde, num encontro com Pop-Show, que determinou a fundação do  Liberdade África, seu primeiro grupo, e depois a criação do emblemático,  Afra Sound Star.

Pioneiro do MPLA, desde a primeira hora, Tubarão recebeu instrução militar na Fazenda América da Kibala, tendo sido depois aquartelado, primeiro no Grafanil, depois na Ilha, no antigo Lar da Mocidade Portuguesa, em Luanda. O encontro do Tubarão com Manuel Miguel, Pop-Show, no  Lar Santa Isabel, em 1976, foi determinante para a fundação, primeiro do Liberdade de África, grupo inscrito no então  Conselho Nacional da Cultura, e  depois do Afra Sound Stars, em 1980.
A carreira do Tubarão, enquanto baterista e vocalista, está intimamente ligada à história do Afra Sound Star, formação musical que residiu e fez carreira musical, em três países distintos: São Tomé e Príncipe, de 1983 a 1987,  Brasil, de Março de 1988 a 1991 , e o exílio voluntário em Bruxelas,  de 1995 até a actualidade.
De notar que muitos membros do grupo ainda estão dispersos, e 1988 tornou-se um ano simbólico para o Afra Sound Star, porque marca a realização do  último concerto do grupo na Mutamba, centro da cidade de Luanda, organizado pela então Direcção Nacional da Massificação Cultural, instituição tutelada pelo Ministério da Cultura. 
Filho de Pedro Malebo e de Guilhermina Domingos, João Pedro Malebo, Tubarão, nasceu no dia 3 de Abril de 1961, em Kalulo - Libolo, Cuanza Sul.
Fez parte da primeira formação do Liberdade África, em 1976, formação anterior ao surgimento dos Afra Sound Star,  com Manuel Miguel, Pop-Show, (guitarra solo), Sebastião Malembe (guitarra ritmo), Monteiro António (voz), Zito Silva (viola baixo), Henrique Paulo Ramiro de Melo, Hagaha, (teclas), e Dinho (bateria).
Três anos depois surge aquele que veio a ser um dos grupos mais emblemáticos da história da Música Popular Angolana do pós-independência, o Afra Sound Star, cuja formação inicial incluía: Tubarão, que substitui o Dinho na bateria, Manuel Miguel, Pop-Show, Manuel Tomás (voz), Zito Ferraz (guitarra ritmo), Groove (percussão), Gato Bediseyel, (percussão), Raimundo Kituxe (viola baixo), substituído depois por José Sabino de Brito, Sheriff,  na viola baixo, em 1982.
Sobre a sua propensão para a música, Tubarão explica o seguinte: “o meu pai tocava concertina, em ambientes familiares, cerimónias de circuncisão, e festas populares. O meu avó, Luango Luxinga, irmão da minha mãe, fabricava e tocava batuques, e o meu avó paterno, o grande Malebo, tocava ‘Kakoxe’. Por estas razões é fácil depreender a minha inclinação para a  música. Recordo que a minha mãe chorou quando me viu na televisão, pela primeira vez,  num concerto. Lembrou o passado musical do meu pai, e  não queria que eu seguisse o destino musical da família”.

Formação

Sempre preocupado em melhorar  a sua prestação profissional, Tubarão estudou solfejo na Academia de Música de Luanda, em 1982, com os professores Paz Vitorino e João Oliveira. Possui formação em Solfejo Rítmico  certificada pela Paralax International School  de Artes Integradas da Bélgica, frequentou a “Musiarte” no Rio de Janeiro, com Lobão, onde aperfeiçou a leitura e interpretação. Tubarão é membro do Sindicado dos Músicos Belgas, da Liga de Improvisação de Jazz da Bélgica, e do Instituto Musical Europeu.

Festivais


No contexto internacional Tubarão participou em vários festivais internacionais de prestígio, dos quais destacamos os mais importantes: Festival Womad, do cantor e compositor, Peter Grabiel, realizados em Madrid, 2003, Singapura, 2005, e depois na Inglaterra, 2007.  Participou também no Colour Café da Bélgica, em 2001,  Festival de Jazz de Montreaux, 2002,  Festival Internacional de Montereal, 2010, World Music e Blues, e Bray Jazz Festival, na Irlanda, 2003. Dividiu o palco  com renomados artistas tais como: Toumany Diabaté, Afro Celt Sound Sistem, da Real World de Peter Gabriel, Nfaly , Nkoyaté, Laurant Campionaut, Caribean Conection de Jazz Latino, Orchestra Double Impact de Cuba, Abel Dueré, tendo gravado, e tocado ao vivo com Raúl Ouro Negro, Bill Cobham, Birelly Lagrene, Steeve Houben, Edie Palneer, e Ron Carter.

Bateria

Inexistente na história da Música Popular Angolana, a bateria de jazz sofreu uma transformação radical nos anos quarenta, pelas mãos dos norte americanos, Sidney Catlett, Kenny Clarke e Max Roach. No entanto, Tubarão, o baterista mais importante da história dos Afra Sound Star,  já privou com Bill Cobham, o emblemático baterista norte-americano da cantora soul, Aretta Franklim, e tem como  referência,  Stewart Armstrong Copeland, o lendário baterista dos Police, a banda do cantor e compositor britânico,  Sting. De papel secundário, com uma função de simples marcadora de tempos, como acontecia no jazz tradicional, e,  com raras excepções, no swing, a bateria passou a dialogar com os outros instrumentos. O fraseado também se alterou, passando a incorporar batidas no contratempo e figuras rítmicas irregulares inseridas dentro do ritmo básico. A partir do hard bop, com Max Roach e Art Blakey, a bateria se tornou solista e mesmo líder de conjuntos. Encontramos grandes bateristas da atualidade desempenhando esse papel, como o saudoso Tony Williams, Billly Cobham e Jack Dejohnette.

Quarteto


Em Luanda, proveniente da Bélgica,  desde Maio de 2013, Tubarão faz parte, actualmente, do  Loanda Quartet Jazz, grupo musical criado pelo cantor, Tony Jackson, que interpreta standars de Jazz e clássicos da Música Popular Angolana. O quarteto é formado por Tubarão (bateria), Sheriff (viola baixo), Perinho (piano), e o cubano, Júlio (saxofone alto). A ideia fundamental é privilegiar, pela estilização jazzística,  temas referenciais que fizeram época, ao longo da história da música angolana.

Depoimento


José Sabino de Brito, Sheriff, o carismático viola baixo dos Afra Sound Stars, conviveu com o Tubarão durante dezasseis anos, tendo feito o seguinte depoimento sobre o perfil do baterista: “Conheci o Tubarão em 1977, na Maianga, com o Pop-Show. Nessa altura o Dinho tocava bateria no Liberdade de África,  e, curiosamente o Tubarão era percussionista. Com a saída do Dinho, em 1979, o Tubarão assumiu definitivamente a bateria.  Partilhei com ele grandes palcos internacionais, é um colega de grande coração, bom conselheiro, e um militante antigo do MPLA, enquanto pioneiro e membro da JMPLA. Fomos juntos para as FAPLA. Trabalhámos juntos durante dezasseis anos, uma vida. Importa referir a sua dimensão humana, é educado, repito, grande amigo. Como intelectual tem formação musical, e  é um dos grandes poliglotas do grupo, ou seja,  homem de grande capacidade linguística”.

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