Cultura

Batucada em “orquestra” no palco do Palácio de Ferro

Jomo Fortunato |

Nove dos mais prestigiados percussionistas angolanos, juntaram-se ao histórico instrumentista, Joãozinho Morgado, num dos mais emblemáticos e singulares concertos de percussão, realizado, sexta-feira última.

Homenagem a Joãozinho Morgado reuniu nove dos mais prestigiados percussionistas angolanos em “Orquestra” no ritmo da “Massemba”
Fotografia: ClÁudio Tambue|trienal de luanda

No âmbito do ciclo de homenagens da III Trienal de Luanda, projecto cultural da Fundação Sindika Dokolo.
Na perspectiva de valorização da história da Música Popular Angolana e do enaltecimento do contributo dos seus principais protagonistas, a III Trienal de Luanda tem realizado um ciclo homenagens e já prestou tributo a Marito Arcanjo do conjunto “Kiezos”, José Keno, o mais emblemático guitarrista dos Jovens do Prenda, Xabanú, consagrado compositor, Matadidi Mário Bwana Kitoko, proeminente figura do “Período do retorno” e fundador do conjunto Inter-Palanca  e o ícone emblemático dos tambores, Joãozinho Morgado. 
A homenagem a Joãozinho Morgado foi o pretexto para reunir nove dos mais prestigiados percussionistas angolanos que, em “Orquestra”, realizaram uma autêntica celebração da “Massemba” em memória do Mestre Geraldo, pai do Joãozinho Morgado, proporcionando um diálogo singular de várias sensibilidades rítmicas, em torno do mais emblemático Maestro da percussão angolana.
Ímpar no seu estilo, Joãozinho Morgado começou a marcar, com apenas dez anos de idade, o compasso rítmico das tumbas. À época, 1957, seguia a turma do Santo Rosa, note-se que as turmas eram versões reduzidas que se emancipavam dos grandes grupos de carnaval,  e  o   carismático tamborista,  Lúpi Lumbi Yaya, palmilhando as ruas do Bairro Operário nos períodos de festa e de eufórica movimentação de carnaval.
Com catorze anos, Joãozinho Morgado ajudou a fundar uma pequena formação musical de bairro com Carlos Giovetti, chocalho, Franco, bate-bate, Domingos Infeliz, reco-reco, João da Sparta, caixa, embrião que evoluiu depois para os  “Negoleiros do Ritmo”, com Dionísio Rocha, na condição de principal vocalista e compositor. Filho de Geraldo Lourenço Morgado e Antónia João Martins, João Lourenço Morgado nasceu em Luanda, no Bairro Operário, no dia 7 de Fevereiro de 1947.

Negoleiros

Em 1964, convidados pelo promotor musical Luís Montez, os “Negoleiros do Ritmo” com Nando Cunha, dikanza, Jajão, viola, Dionísio Rocha, voz, e Joãozinho Morgado gravaram, em Portugal,  o single “Ai Compadre”, integrados numa caravana artística que incluía a cantora e dançarina Alba Clintgon, Mestre Geraldo, quatro bailarinas e uma selecção de marimbeiros de Malange. Mestre Geraldo, figura emblemática da “Massemba”, também designada Rebita, foi acordeonista, professor de dança, dinamizador cultural e compositor, estando na origem da formação dos “Novatos da Ilha” e “Feijoeiros do Ngola Kimbanda”, grupos referenciais do antigo carnaval luandense.

Metamorfose

Um mês depois da referida digressão em terras lusas,  ocorre uma das mais importantes metamorfoses do conjunto “Ngola Ritmos”,  juntam-se ao Joãozinho Morgado e Dionísio Rocha, os instrumentistas: Almerindo Cruz, viola ritmo, Carlitos Vieira Dias, guitarra ritmo, Massano Júnior, caixa e bongós, Mário Fernandes, guitarra solo, e Zé Fininho na dikanza. O percussionista  Massano Júnior acabou por ser substituído por Damião, uma mudança que ocorre em 1965, na sequência do surgimento do agrupamento África Show.

Genealogia


O avô materno de Joãozinho Morgado, João diá Nguma, tocava tambores, e a mãe, Antónia João Martins, Antonicadiá Geraldo, tocava igualmente tambores nas sessões de adivinhação e “calundus”, uma genealogia de percussionistas que terá exercido, em Joãozinho Morgado, uma forte influência na formação da sua personalidade cultural,  e o gosto pelas coisas musicais da terra. Joãozinho Morgado permaneceu nos “Negoleiros do Ritmo” até 1974, tendo  participado na gravação dos principais clássicos do grupo: “Mukondadiá Lemba”, “Riquita” e “Minha Cidade”, canções interpretados por Dionísio Rocha.

Merengues


Convidado por Carlitos Vieira Dias, Joãozinho Morgado integrou a primeira formação do conjunto “Merengues”, grupo afecto à CDA, Companhia de Discos de Angola, de Sebastião Coelho e Fernando Morais, com Carlitos Vieira Dias, baixo, também accionista da CDA, José Keno, viola ritmo, Gregório Mulato, Bongós, Vate Costa, dikanza e Zeca Tiryrene, viola ritmo. Na fase de maior produtividade do conjunto “Merengues”, 1975-1977, Joãozinho Morgado participou no acompanhamento dos discos de José Agostinho, Avôzinho, Teta Lando, Carlos Lamartine, Carlos Burity, Urbano de Castro, Artur Nunes, Jacinto Lima, Dilangue, irmão do David Zé, Tino diáKumuezo, Prado Paím, Sabú Guimarães, David Zé, Santocas, Jaburú, Buarque, Maró Ribas, Joy Artur, Dina Santos, Tanga e Candinho, entre outros cantores registados no selo da CDA.

Madizeza

Em 1982, ainda  a convite de Carlitos Vieira Dias , Joãozinho Morgado junta-se ao conjunto Semba Tropical, formação institucionalmente ligada à Secretaria de Estado da Cultura, com Massikoka, teclas, Dina Santos, voz, Joy Artur, voz, Candinho, caixa, Sanguito, saxofone, João Sabalo, trombone, Mick, trompete, Zé Fininho, Dikanza, Rui Furtado, bateria, Botto Trindade, viola solo, Caetano, viola baixo, Mamukueno, voz, e Rogério, viola ritmo. Joãozinho Morgado abandonou o Semba Tropical, em 1984, e juntou-se ao cantor e compositor Filipe Mukenga, no início da formação da Banda Madizeza, com Kinito Trindade, baixo, Mário Furtado, bateria, e Rui César, teclas. Com a Banda Madizeza Joãozinho Morgado participou na gravação do primeiro CD, a solo, de Filipe Mukenga, “Novo Som”, 1989, e no álbum “Eme Ngó”, 1991,  de Sabú Guimarães.
Finda a existência da Banda Madizeza, Joãozinho Morgado, Kinito Trindade, baixo, Botto Trindade, guitarra solo, Carlos Burity, voz, Rui Furtado, bateria, Massikoka, teclas e Nelson Santos, viola ritmo,  fundaram a Banda Welwitchia, uma formação residente no Hotel Presidente, juntando-se depois o baixista Mog, com a saída de Kinito Trindade. Joãozinho Morgado deslocou-se aos Estados Unidos, em 1995,aconvite do cabo-verdiano Ramiro Mendes, onde gravou o semba, “Angola Kuia” e recebeu um certificado de participação no “Festival of AmericanFolklife”, em Washington.

História


A mística e o simbolismo dos tambores, também designados “bumbos”, entraram na história da Música Popular Angolana pelas mãos hábeis de  Xodó e  Amadeu Amorim, Ngola Ritmos, Julinho, Águias-reais, os lendários Petengué e Mangololo, Ngoma Jazz, Massano Júnior, África Show, Vieira João, Bongos de Benguela, Candinho, Kissanguela, Kangongo, Jovens do Prenda, e Joãozinho Morgado, Negoleiros do Ritmo e Merengues. Incluímos na nossa classificação  a versão mais reduzida do tambor, a tradicional “caixa”, instrumentos de madeira e pele percutida, de importância fundamental na execução e estruturação rítmica do semba.

Homenagens

Para além da homenagem da III Trienal de Luanda,Joãozinho Morgado foi  homenageado no dia 20 de Julho de 2007, em cerimónia realizada no Centro Recreativo e Cultural Kilamba, pelo “contributo dado ao desenvolvimento da música angolana”,  ao longo dos 45 anos de carreira, numa iniciativa da Brás Som, do empresário angolano Ilídio Brás.  Participaram na homenagem os cantores André Mingas, Lulas da Paixão, Carlos Lamartine, Dionísio Rocha, Carlitos Vieira Dias, Dina Santos, Sabú Guimarães, Carlos Burity, Voto Gonçalves, Sanguito, Zecax, Nanutu, Yuri da Cunha, Matias Damásio e Nelo Paim,  acompanhados pela Banda Maravilha. 

 Concerto


No concerto, dividido em dois momentos, Joãozinho Morgado teve o acompanhamento de Correia Miguel, percussão, Chico Santos, percussão, Yasmane Santos, percussão, Raúl Tolingas, congas, Xavito Rodrigues, percussão, Enio Martins “Bucho”, percussão, João Paulo “JP”, congas, Chalana Dantas, percussão, e Mário Jorge “Bebé”, percussão. No segundo momento, Fernando Alvim, conceptor da III Trienal de Luanda, subiu ao palco e recitou o poema “Sábado nos musseques”, de Agostinho Neto,  acompanhado pela percussão,  suave,  dos dez instrumentistas.

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