Benguela assume o papel de capital do teatro

António Gonçalves | Benguela
19 de Setembro, 2014

Fotografia: Dombele Bernardo

Benguela foi o Palco Nacional do Teatro, de 4 a 6 deste mês, no âmbito do Festival Nacional da Cultura (FENACULT 2014), transformando a província na capital das artes dramáticas angolanas.

O director provincial da Cultura em Benguela, Cristóvão Cagibanga, disse que foram tiradas, desta realização, lições sobre a preservação da cultura nacional. Peças como “O Batuque”, exibidas durante o Palco do Teatro em Benguela, devem ser tidas em conta por aqueles que menosprezam a cultura nacional, disse o responsável.
“Estou a falar daquelas pessoas que desprezam a voz do avô e dos mais velhos, quando, diante de certas situações, estes querem intervir ou dar conselhos e os jovens não se interessam”, referiu.
Cristóvão Cagibanga disse que a peça “O Batuque” procura mostrar o desprezo dos jovens pela sua própria identidade. “Num gesto impensado, o jovem pegou num elemento da nossa cultura e entregou-o a um estranho e a partir daí os desaires na sua vida começaram a surgir, até que o segredo lhe foi revelado”, explicou.
O responsável pela Cultura em Benguela afirmou que “o desenvolvimento deve ser feito na base da nossa idiossincrasia, para termos orgulho em assumir o processo como nosso e não deixarmos que alguém o faça por nós”.
Situações dessa natureza acontecem, sobretudo nas cidades, pois, no meio rural, os mais velhos continuam a ter o seu espaço e o processo de educação continua ainda na oralidade, apesar da escola formal marcar presença.
Para Cristóvão Cagibanga, o processo de educação deve ter em conta a forma de estar, para que cada um se sinta vinculado e não seja surpreendido com metodologias que não lhe digam respeito em função do que aprendeu dos ancestrais. A escolha de Benguela para a realização do Palco Nacional do Teatro e consequente eleição para a capital do teatro em Angola deveu-se à preservação das salas de espectáculo erguidas ainda no tempo colonial.
“Elegemos Benguela por ter condições para o efeito. Estamos a falar do Cine Teatro Monumental, na cidade de Benguela, o Cine Teatro Imperium, no Lobito, e uma sala de teatro na cidade da Catumbela, o que faz com que Benguela se constitua na capital do teatro em Angola, o Huambo a capital da Dança e Cabinda para as vozes femininas em Angola”, afirmou em Benguela, Carlos Vieira Lopes, o director da Acção Cultural do Ministério da Cultura.
O Palco do Teatro, realizado em simultâneo nas cidades de Benguela, Lobito e Catumbela, teve a participação de grupos teatrais de 15 das 18 províncias do país. Durante os três dias de actividade, foram realizados mesas redondas e seminários sobre a cultural nacional. “A importância da voz no trabalho do actor”, “O conceito da arte e do artista no contexto universal e do desenvolvimento”, “A dramaturgia e iluminotecnia”, constituíram momentos de aprendizado, que antecederam a exibição das peças teatrais, no que se designou “oficinas de formação em teatro”.

Ajudar Angola a crescer


A realização do Palco e, sobretudo as “oficinas” que tiveram lugar no seu âmbito, serviram de incentivo para os “indecisos” aderirem a esta disciplina artística, disse o director provincial da Cultura, que realça a pretensão de Benguela em se tornar a “capital do teatro” em Angola, face à existência de infra-estruturas adequadas e de público interessado. O teatro em Angola e em Benguela, em particular, está no bom caminho e precisa apenas de mais incentivos, defendeu o director artístico do grupo Tweya. Walale Manuel referiu que isso foi visível tanto na abertura do FENACULT, em Luanda, como durante a realização do Palco de Teatro, em Benguela.
Criado há cinco anos, o grupo representou Benguela no Palco com a peça teatral “Rosto de África”, que retrata alguns dos males que afectam o continente, como as guerras, a fome, a miséria e, no momento, a epidemia do vírus ébola. Professor de profissão, o também encenador considera o teatro uma forma de ajudar Angola a crescer.
O grupo teatral Nkondo Ikuta, de Cabinda, apresentou a peça “Tradição Estrangeira”, que fala da assimilação de hábito alheios à cultura angolana. Francisco Ncasso, director artístico do grupo, disse que, “apesar de lento, o desenvolvimento do teatro em Cabinda é positivo”.
Para Pascoal Nhanga, director artístico do grupo teatral Vozes de África do Huambo, o teatro em Angola está a crescer e o FENACULT é um verdadeiro portal de oportunidades.
O grupo Vozes de África levou para o Palco de Benguela o espectáculo “O Genro da Humanidade”, uma história de amor durante o reinado de Katyavala no Bailundo.
António Kituchi é o director artístico do grupo teatral Tunga Layé do Cuanza Sul, que levou para o Palco de Benguela a peça “O Alembamento”. Criado há seis anos, o grupo fez buscas no município do Ebo e combinou com casos particulares de cerimónias de alembamento.

capa do dia

Get Adobe Flash player




ARTIGOS

MULTIMÉDIA