Cultura

Bibliotecas particulares: o antes e o depois da morte de quem as criou

Gaspar Micolo

Amam os livros ou, antes, a leitura. Levam anos a acumulá-los, décadas a vê-los crescer em prateleiras cada vez maiores. E quando o fim lhes parece cada vez mais próximo, há que pensar na vida dos livros após a dos donos. “Como todas as coisas que vamos acumulando na vida, por muito que gostemos delas, não as podemos levar connosco”, diz o jurista e escritor Onofre dos Santos.

Os povos civilizados e desenvolvidos produzem livros
Fotografia: DR

A biblioteca ideal, construída em décadas, não tarda a clamar por um novo dono, exactamente por não a “podermos levar connosco”. Um novo proprietário que não a deixe morta, porque, para continuar viva, uma biblioteca tem que ser alimentada com livros novos. Por isso, há quem pense em doar à Biblioteca Nacional, a iniciativas particulares de espaços de leitura nas comunidades ou iniciar o seu próprio centro de investigação.

Quase todos se recusam a vender, evitando que o esforço de uma vida, como se a biblioteca se constituísse num corpo, se desfizesse com a partida, perdendo a alma.

A directora da Biblioteca Nacional, Diana Afonso, revela que há cada vez mais individualidades que fazem chegar à instituição as suas colecções privadas, antes mesmo da morte. “Temos recebido doações”, confirma, esclarecendo que quem tiver essa pretensão deve ter um inventário e garantir que os livros estejam em bom estado, além de facilitar a visita dos técnicos para uma vistoria.

Considerada como uma das mais ricas doações, Diana Afonso revela que a esposa de um falecido embaixador está a doar a biblioteca da família, desde 2019, restando até agora livros por avaliar e entregar à instituição pública.

O desejo de um filho do Namibe em Portugal

Nascido em Moçâmedes (que, entretanto, também já foi Namibe), em 5 de Outubro de 1952, o escritor e pesquisador Tomás Daniel Gavino Lima Coelho, a viver em Portugal desde 1975, já fez público o seu desejo que corre nas redes sociais: “Aproveito para fazer uma declaração de intenções, é meu desejo que a minha biblioteca, que até agora comporta mais de 4.000 títulos, chegue a Angola depois de eu partir”, diz o ex-funcionário do Banco de Angola, a viver actualmente na região de Lisboa, perto do Barreiro, e que, sobre as suas origens, naturais e afectivas, gosta de se definir com as palavras do poeta: “No Namibe vi a primeira luz do dia, mas foi em Malanje que nasci.”

Tomás Gavino Coelho, que, aos 50 anos, notando que sabia quase nada sobre o país onde nasceu, começou então a estudar bastante sobre a história de Angola e Publicou o seu primeiro livro, de ficção histórica, chamado o Chão de Kanâmbua”, diz que, ainda assim, os livros e a leitura sempre estiveram presentes em casa, desde que se lembra.

“Ainda criança que nem sabia ler, tenho memórias de folhear livros, já antigos nessa altura, que eram do meu avô. Infelizmente, esses livros, e aqueles que já tinham sido comprados pelo meu pai, acabariam destruídos, espalhados pelas ruas e pisados pelas viaturas militares durante a primeira guerra de Malanje, em 1975... Será que algum foi poupado? Ficaria muito feliz se soubesse que isso aconteceu”, diz.

Algum tempo depois, conta, e tão logo teve possibilidades, deu início à reconstrução daquela biblioteca que era de seu pai, pesquisando e rebuscando em alfarrabistas os títulos que a compunham e de que se recordava. “Tive que recarregar várias vezes as baterias da paciência, mas consegui reunir grande parte deles, sendo essa a primeira metade da minha colecção. Depois, dediquei as minhas pesquisas aos livros que falassem de Angola, que é a segunda metade da colecção. É nesta metade que estarei focado até chegar à altura de me despedir deles, dos meus livros”.

Por amor à terra que o viu nascer, Tomás Gavino Coelho dedicou-se, durante 10 anos, a reunir dados essenciais de quase dois mil autores nascidos em terras que hoje compõem Angola, e também alguns no estrangeiro, culminado com a obra “Autores e Escritores de Angola (1642-2015)”, um trabalho de reconhecido mérito que teve destaque nos principais jornais de vários países de expressão em Língua Portuguesa.

O amor pela terra, que lhe deu energia e entusiasmo para dedicar-se àquela empreitada é o mesmo que agora lhe motiva a ver os seus milhares de livros em Angola.

“É meu desejo que a minha biblioteca chegue a Angola depois de eu partir”, diz o escritor, casado com a malanjina Ilda Coelho, pintora nas horas vagas, com quem tem dois filhos, Daniel e Inês, e uma neta, Mariana. “Vender livros da minha biblioteca é assunto que não está nas minhas cogitações, pois é minha intenção deixá-la em testamento para quando eu partir na derradeira viagem. Já iniciei uma fase de auscultação a pessoas e a instituições para poder fazer uma opção. A minha oferta vai depender das garantias que me derem (e aos meus descendentes) de que a biblioteca se manterá intacta e indivisível, num espaço digno onde todos os que quiserem a possam consultar”.

Onofre dos Santos

Quem também pretende doar os livros é o juiz jubilado do Tribunal Constitucional Onofre dos Santos. E diz, sem dúvida, que “é agora uma boa altura para pensar que os livros que amamos durante a nossa vida vão continuar a ser estimados e cuidados e não vão morrer comigo”. O também antigo director-geral das primeiras eleições, em 1992, nasceu em Angola e viveu o período de transição de um país colonial para o país independente que é hoje. E não esquece a história dos seus livros que se confunde com a da sua vida.

Com uma biblioteca repartida entre Luanda e Cascais (Portugal), como, de resto, ficou a sua vida, depois de 1975, Onofre dos Santos diz que, depois de ter lido muitos livros de Direito na idade adulta, os códigos e tratados são os que mais enchem as suas prateleiras.

“Não era assim no tempo colonial, um período da minha vida em que fui advogado e juiz, ao longo do qual adquiri avidamente não só os livros que se iam publicando em Portugal, como também os que só apareciam à venda quando falecia algum grande causídico e os seus livros mais raros e antigos iam parar às mãos de alguns conhecidos livreiros dessa época”, lembra o juiz reformado.

Ele participou na fundação do Tribunal Constitucional, em 2008, lamentando que essa primeira e saudosa biblioteca não chegasse a doar, por ter ficado no seu escritório na Mutamba, onde nunca mais voltou a pôr os pés. “Foi uma doação involuntária. Infelizmente bastante prematura”.

O magistrado reformado, que se tem dedicado regularmente a escrever obras literárias e memorialistas, e acaba de lançar o romance “Vida e morte do comandante Raul Morales”, lembra que começou por gostar de histórias aos quadradinhos, com as aventuras dos índios e cowboys no faroeste americano, Kit Carson, Sitting Bull, Hopalong Cassidy e dos heróis que viviam no interior da África misteriosa, desde o Tarzan ao Fantasma da Selva, de modo que tem espalhados por várias prateleiras essas histórias e outras mais sofisticadas que foram surgindo, pois ainda gosta de um bom livro de banda desenhada.

“Esse imaginário foi importante na minha infância e adolescência, porque eu me transportava diariamente a esse mundo que só existia na minha cabeça e fabricava mesmo histórias em que eu me via como o protagonista dessas histórias. Aí comecei a formatar a minha mente para escrever histórias e fazer os meus próprios livros”.

Por isso, o autor de “Os Meus Dias da Independência” é categórico: “Uma biblioteca é sempre uma colecção que se vai formando e crescendo, consoante a inclinação e o gosto de cada coleccionador. Gosto e interesse que se vai alterando ao longo dos anos e, por isso, uma biblioteca pessoal pode contar a história da vida de cada coleccionador”.

Assim, esse acervo rico em obras de Direito, Literatura, História e Banda Desenhada, e que é igualmente parte da história de Onofre dos Santos, clama já por um “testamento”.

“Como todas as coisas que vamos acumulando na vida, por muito que gostemos delas, não as podemos levar connosco. Como tudo o que deixamos é a nossa herança, ela vai para os herdeiros, para os filhos e netos que deixamos, mas o que acontece - e é a razão da sua pergunta - é que hoje ninguém quer ler muito e ninguém quer ficar com um milhão de livros”, diz, prevendo já a saudade que terá das suas longas prateleiras.

“Não sei como será na outra vida sem os meus livros, mas pode ser que na outra vida haja também uma biblioteca onde possamos encontrar essa paz que os só os livros são capazes de nos dar. Isso porque é também um local onde nós entramos, um lugar silencioso com uma iluminação singular, um lugar que convida à descoberta de qualquer coisa de novo, como se fosse uma fronteira para um mundo diferente.

Por isso, as pessoas, mesmo as que não lêem assim tanto, gostam de ter as paredes das suas salas forradas de livros, prateleiras cheias de saber petrificado, porque eles mesmo sossegados uns ao lado dos outros, com as suas lombadas e cores diferentes, transmitem uma tranquilidade que nenhum outro objecto consegue”.

Considerando que uma colecção é sempre um pequeno tesouro, independentemente do seu valor monetário, o autor, que já publicou “O astrónomo de Herodes”, “O conto da Sereia”, “O gosto amargo do quinino”, “Memórias de um Dark horse e o “Romance histórico descompasso Angola 1963”, recusa-se a estimar o valor da sua biblioteca.

“Os meus livros são muito valiosos, mas só para mim. Há algum tempo, tive de me desfazer de muitos livros por falta de espaço e andei a bater a várias portas. Ninguém, absolutamente ninguém, os aceitou, fosse por falta de espaço ou porque hoje em dia os livros encontram-se na Internet, muitos deles com acesso gratuito, pelo que, é uma questão de tempo, os livros vão ser apenas um papel de parede, uma decoração que lembrará o tempo em que o toque dos dedos no papel a percorrer ou a virar uma página trazia alguma volúpia ao leitor”, lamenta.

Ainda assim, o destino dos seus livros já está traçado: vai doar todos os que tem em Luanda a uma biblioteca que os queira, pois nem todos são da área do Direito.

“E para esses, há a biblioteca da Ordem dos Advogados, de qualquer das Faculdades de Direito ou mesmo do Tribunal Constitucional, sendo que esta já tem certamente todos os livros que eu poderei deixar”. Os outros, diz, podem interessar a alguns centros de leitura que vão sendo criados em associações que eu conheço. E vou começar a pensar qual o destino que vou dar a esses meus livros para continuarem a ser “estimados e cuidados”.

“Espero que os meus livros possam ser entregues a uma biblioteca pública”

Considerada uma das maiores investigadoras e historiadoras de Angola, Maria da Conceição Neto, que lecciona na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, desde 1989, possui igualmente um dos mais ricos acervos bibliográficos do país, embora não saiba exactamente quantos livros tem. Aliás, algo que não seria fácil, já que não os tem todos em casa, por absoluta falta de espaço.

“São uns milhares, mas sei que, felizmente, há em Angola bibliotecas pessoais bem maiores do que a minha. Aliás, não tenho uma “biblioteca” no sentido de livros bem arrumados e organizados… Também não sei, nem me interessa, o seu “valor pecuniário”, não foi por isso que os comprei, nem espero deles tirar rendimento”, diz.

Maria da Conceição Neto conta que foi ensinada a ler ainda antes de ir para a escola. “Portanto, devo ter começado a ‘acumular’ livros muito cedo”, diz, lembrando que também passou por situações em que perdeu quase todos os livros que já tinha, como tantas outras pessoas em tempos de guerra. “Por outro lado, também ‘herdei’, voluntária ou involuntariamente, livros de pessoas que morreram ou que saíram de Angola. Entre perdas e ganhos, nunca fiquei sem livros, nem me imagino sem os ter”.

Contudo, a antiga investigadora no Arquivo Nacional de Angola, que traduziu para o português a obra “Poder político e parentesco: Os antigos estados Mbundu em Angola”, do historiador norte-americano Joseph Miller, falecido em Março de 2019, revela ao Jornal de Angola que já tem estado a entregar livros a bibliotecas públicas, académicas ou não, e deseja continuar a fazê-lo.

“Depois de eu morrer, espero que tudo possa ser entregue a uma biblioteca de interesse público, onde os livros sejam mais úteis e que não desapareçam, como sabemos que às vezes acontece aos livros doados”, diz, referindo-se à colecção, que embora haja alguma literatura, tem sido enriquecida nas últimas décadas de obras das Ciências Sociais, com relevo para a História. “Como seria de esperar, considerando a minha profissão de historiadora e professora de História de Angola. Mas tenho o vício de ler, compro livros (para mim e para os outros) sempre que posso e a minha biblioteca reflecte esse ‘vício’. Portanto, é muito variada ou, pode dizer-se, inclassificável…”.

A também investigadora associada do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, e que foi consultora do projecto da Associação Tchiweka de Documentação “Angola - nos Trilhos da Independência” (2010-2015), do qual resultou um vasto arquivo audiovisual e o documentário “Independência”, explica que não consegue dizer o livro de que mais gosta na sua colecção, nem estimar o exemplar mais caro que já adquiriu.

“Não tenho respostas”, adianta uma das mais citadas historiadoras em obras publicadas no país e no estrangeiro. “São coisas subjectivas, ligadas a momentos diferentes da vida. Um livro fascinante numa fase da nossa existência pode ser totalmente sem interesse noutra. Um livro que hoje não temos dinheiro para comprar pode ser acessível amanhã. Livros raríssimos há uns anos estão hoje disponíveis na Internet, podemos guardá-los em pdf… Reflectindo sobre os mais de sessenta anos de leituras que já vivi, não sei mesmo responder a essas questões. Nem o prazer, nem a utilidade da leitura dependem disso”.

Pepetela

Aos 78 anos, Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, ou simplesmente Pepetela, não tem dúvidas: doação da sua biblioteca quando já não estiver entre nós. Com uma colecção repartida por duas casas, ocupando uma grande estante ao longo da parede, alguns armários e ainda caixas de livros no chão, o escritor, que conta com dezenas de obras publicadas e traduzidas em 15 línguas, estima o seu acervo em “alguns milhares de livros”. Porém, amigos seus ouvidos pelo Jornal de Angola garantem que é uma das maiores e mais ricas de Angola.

“Nunca os contei, não estão catalogados. Por isso, é difícil fazer uma estimativa da quantidade: cinco mil, talvez?”. Deixa no ar o nacionalista, que nasceu em Benguela, licenciou-se em Sociologia, em Argel, durante o exílio, e dedicou-se à docência a partir de 1984, na Universidade Agostinho Neto.

“Posso adiccionar a eles algumas centenas em formato digital, no computador, nem todos lidos”, diz, revelando possuir obras de várias especialidades, como Sociologia, História, Psicologia, Política, Estratégia e Economia, Arte, Ciência e Cultura Geral e além de, obviamente, a sua “dama”: a Literatura.

O escritor, que foi este ano galardoado com o prémio literário Casino da Póvoa 2020, do Festival Correntes d’Escritas, a mais antiga distinção do género em Portugal, lembra que começou a acumular livros de facto quando se fixou em Luanda, depois da Independência, e teve uma casa onde os poderia guardar.

“Antes da Independência, não tinha casa fixa. Arranjava um livro, lia e acabava por ir para outra pessoa. Fossem livros de estudo ou de cultura geral. Até hoje, acho que os livros devem circular, sempre que se justifique.” E é pensando na necessidade de os mesmos circularem que o ex-vice ministro da Educação garante “certamente” que os seus livros acumulados ao longo de mais de 40 anos serão doados.

“Certamente, serão doados a escolas que tenham biblioteca (o que infelizmente é raro no nosso país), às bibliotecas ou mediatecas que existirem. Nunca serão vendidos”.

Virgílio Coelho

Antigo vice-ministro da Cultura (2002 a 2008), onde entrou em 1975, Virgílio Coelho, um dos mais destacados antropólogos angolanos, já sabe como os seus quase 15 mil livros e milhares de jornais e revistas continuarão a ser estimados e cuidados: a sua vasta biblioteca, no Nova Vida, dará lugar a um centro de estudo e investigação na área das ciências sociais e humanas.

Leitor compulsivo de livros e jornais, o professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, que já foi vencedor do Prémio Nacional de Cultura e Artes/2010, na categoria de Investigação em Ciências Humanas e Sociais, com as obras “Em busca de Kábásá: Estudos e reflexão sobre o reino do Ndongo” e os “Túmúndógós, os génios da Natureza e o Kilamba”, garante que
já deixou bem claro o fim que se deve dar ao seu acervo, quando já não estiver entre nós.

“Os meus filhos já sabem. Os meus livros não devem ser vendidos. A biblioteca deve dar lugar a um centro de estudo e pesquisa”, revela Virgílio Coelho, para quem facilmente se chega à conclusão de que a sua colecção deve estar estimada em mais de 500 mil euros, tendo em conta os exemplares raros e únicos que possui sobre a História de Angola, assim como de áreas tão diversas como Política, Linguística, Sociologia, Direito e Memórias.

 

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