Cultura

Bonga arrasta multidão e revela dotes nas congas

Roque Silva

Bonga encerrou, domingo, no Centro Cultural e Recreativo Kilamba, em Luanda, a temporada anual do “Muzonguê da Tradição”, com um espectáculo em que demonstrou uma nova faceta, a de “bom” executante de percussão (batuque), algo que dificilmente se verifica nas suas actuações.

Embaixador da música angolana encerrou a temporada do projecto Muzonguê da Tradição
Fotografia: Lino Guimarães | Edições Novembro

Numa tarde quente por causa da temperatura, entre os 31 e os 24 graus centígrados, além de uma pequena chuva em diferentes localidades  da cidade, Bonga encantou as centenas de admiradores e fãs que lotaram o Centro Kilamba, considerado como a catedral da música popular urbana.
No seu jeito peculiar, interpretou dez êxitos da sua longa e prestigiosa carreira, entre os quais ”Kamokove”,  “Kaombo É Que Pica”, “Mulemba Xangola”, “Kisselenguenha” e “Kaviandongo”, e mereceu fortes aplausos.
Com a sua inseparável “dikanza” e harmónica, a novidade foram os batuques que o rodeavam. Desta vez, o embaixador da música angolana recorreu aos instrumentos de percussão,  a base da harmonia musical africana, o que lhe permitiu executar alguns ritmos tradicionais, conferindo-lhe a figura de percussionista do espectáculo.
Bonga deixou um forte re-cado aos jovens sobre a necessidade de se preservar e resgatar a matriz da música nacional. Essa nova faceta artística de Bonga foi digna de registo em vídeos e fotografias.
No decurso da sua actuação, o público formou uma roda em frente do palco, recordando as festas nos bairros e musseques luandenses, entre as décadas de 50 e 70, em que os salões eram de terra batida.
Bonga, que admitiu ter feito um esforço para criar o repertório apresentado, foi acompanhado pela sua banda: Betinho Feijó (guitarra), o moçambicano Herlander (bateria), o guineense Gipson (teclados) e o português Ciro (harmónica), que propagou um som característico das décadas acima referenciadas.
Passaram ainda por aquele palco Dina Santos, Dom Caetano, Calabeto, Lulas da Paixão e Cristo, acompanhados pela Banda Movimento.
O concerto foi marcado com a contemplação a Bonga de um diploma de mérito, outorgado pelo Centro Recreativo e Cultural Kilamba. O diploma foi entregue pelo director nacional da Cultura, Euclides da Lomba, que realçou o contributo do artista em prol do semba. />
Defensor de costumes
Enquanto esteve em palco, o artista de 76 anos foi muito interventivo. Bonga, defensor e executor de alguns ritmos característicos da canção tradicional, mostrou-se preocupado com a actual crise de valores.
Defendeu a preservação dos costumes que se perdem, “por culpa do advento da globalização e a falta de estratégias para se estancar certos comportamentos colhidos da cultura de outros países. “Hoje, os países estão mais próximos com as novas tecnologias, entre elas as redes sociais, mas é necessário separar e dosear o que é bom para ser adoptado”, disse.
O resgate de valores, usos, costumes, a aproximação entre os mais velhos e jovens de forma a manter intacta e contínua a educação característica dos angolanos foi defendida insistentemente pelo cantor, nos intervalos das canções. Na sua opinião, as conversas à volta da fogueira, em que eram transmitidos ensinamentos vários, como a preservação da amizade e respeito dos adultos deviam ser promovidos pelas instituições públicas, religiosas e famílias.
“Construi a minha personalidade de acordo com a vivência com os mais velhos nos bairros, e aprendi a respeitar valores como a amizade. Há coisas que me preocupam como ver homens a dançar com mulheres.”
Recordou alguns nomes e grupos que se destacaram na época da sua juventude no bairro Marçal, como o Fogo Negro e o Colectivo de Teatro Ngongo,

Livro
O livro “Bonga Marcas Na Oralidade Angolana” foi apresentado na ocasião pelo autor Filomeno Pascoal. Retrata a vida e a obra do cantor, os aspectos ligados aos géneros musicais angolanos, como resultado de um trabalho de monografia que apresentou em 2008. Disse que a ideia surgiu quando terminava o seu curso superior de Comunicação Social e viu-se “obrigado” a retratar o percurso de Bonga, artista que muito admira.

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