Brilhar pelos palcos do mundo como profissional

Adriano de Melo |
29 de Abril, 2016

Fotografia: Nuno Gonçalves |

A Companhia de Dança Contemporânea de Angola (CDCA) é a única organização profissional angolana, que tem apresentado a diversidade desta arte em espectáculos internacionais e no país.

A  directora da Ana Clara Guerra Marques, é considerada uma das vozes de referência da dança em Angola, dada a sua formação, experiência e trabalho desenvolvido nas áreas do ensino, da criação coreográfica e da investigação. A questão da formação profissional é uma das suas principais preocupações e também da maioria das pessoas que se têm dedicado à dança ao longo dos anos. Em entrevista ao Jornal de Angola, em alusão ao Dia Mundial da Dança, a coreógrafa fala um pouco da sua experiência.

Jornal de Angola - A questão da formação ainda é um problema?

Ana Clara Guerra Marques -
A questão da formação continua a ser um grande problema, apesar de ter sido identificado logo nos primeiros anos da independência pelo poeta António Jacinto, então Secretário de Estado da Cultura. Nessa altura, ainda no início de 1976, foram abertas as escolas de dança, música, teatro e artes plásticas. Eu própria, em prejuízo da minha carreira profissional e apesar dos obstáculos, tentei segurar o ensino profissional da dança, mantendo-me à frente da única escola existente, durante cerca de 20 anos.

Jornal de Angola - O que impediu o projecto de vincar?

Ana Clara Guerra Marques -
O ensino artístico nunca foi uma prioridade pois as pessoas nunca compreenderam realmente qual a sua essência e importância, pelo que só mais tarde se reconheceu, muito timidamente, é preciso dizer-se, a sua necessidade, embora ainda seja frequente ouvirmos falar em questões genéticas, como dança no sangue, música no sangue, que dispensam a formação.

Jornal de Angola - Qual a sua opinião sobre os novos institutos de arte?

Ana Clara Guerra Marques -
Recentemente foram desintegradas as Escolas Médias de Dança, de Música, de Teatro e de Artes Plásticas e formou-se uma espécie de Instituto Médio, com todas as áreas artísticas, o que representa um retrocesso enorme, cujas consequências não vão tardar a chegar. Por outro lado, existe um Instituto Superior de Artes que funciona de forma disfuncional e completamente alheio àquilo que deveria ser um plano estratégico de formação artística projectado a três níveis: elementar, médio e superior, numa acção conjunta entre os Ministérios da Cultura, da Educação e do Ensino Superior.

Jornal de Angola - Que pensa de todo este processo?

Ana Clara Guerra Marques -
Resumindo, com a ausência de um Subsistema para o Ensino Artístico na Lei de Bases da Educação, com a falta de quadros e estes embaraços que impedem o desenho do modelo certo, a questão da formação vai continuar a ser um problema. Infelizmente.

Jornal de Angola - Actualmente a profissionalização do bailarino contemporâneo já é algo real?

Ana Clara Guerra Marques -
Sim, é real, mas não em Angola onde o único caso no activo, a dançar profissionalmente e com exclusividade numa companhia e auferindo de um salário, são os bailarinos da CDC Angola. Fora de Angola, nos países que possuem um sistema de ensino da dança estruturado, essa formação é possível. No entanto, devo deixar claro que uma formação em dança pode dar acesso a qualquer género. Ou seja, existe uma base técnica e artística comum a qualquer bailarino, seja ele de clássico, de moderno ou de contemporâneo. Cuba é dos poucos países que,  além dos três géneros, possui formação profissional específica para bailarinos de folclore.

Jornal de Angola - O que é ser bailarino na sociedade angolana?

Ana Clara Guerra Marques -
Infelizmente a sociedade angolana continua bastante conservadora em relação a muitos aspectos, nomeadamente, em relação à dança cénica. Ainda existe um enorme preconceito sobre quem se dedica à dança como profissão e um não menos grande preconceito relativamente a quem faz dança fora do âmbito dito “tradicional”. Assim, dado o gritante desconhecimento que existe sobre o que é a dança enquanto património, popular e tradicional, enquanto arte e enquanto profissão, e tendo em conta o referido na questão anterior, ser bailarino na sociedade significa a persistência, o sacrifício, a diferença, a incompreensão, a solidão completa, a discriminação e a falta de apoio.

Jornal de Angola - Em Angola temos um público educado para assistir aos espectáculos de dança contemporânea?

Ana Clara Guerra Marques -
Um público só é educado se tem acesso a espectáculos de qualidade que apenas podem existir pelas mãos de profissionais ou de amadores dirigidos por profissionais. A CDC Angola tem no público um grande aliado pois  além de ter sempre as salas cheias, as pessoas vão  para ver e fruir. Claro que temos também alguns mecanismos, dentro das normas internacionais das salas de espectáculo e teatros, para prevenir ou solucionar um comportamento menos cívico, o que raramente acontece. Um público só se educa mostrando, com regularidade, como se faz com rigor e qualidade. Assim temos um público conhecedor e exigente.

Jornal de Angola - Os grupos angolanos têm respeitado as distinções entre a dança contemporânea e os outros géneros?

Ana Clara Guerra Marques -
Não, justamente porque são grupos, e não companhias, amadores de entretenimento, sem formação e, principalmente, pouco ou não habituados a ver espectáculos de dança profissional e se tivessem um conhecimento alargado sobre os diferentes géneros em dança, clássico, moderno, contemporâneo e tradicional, e as suas várias abrangências nunca cometeriam a imprudência ou o atrevimento de chamarem contemporâneo aos seus esquemas.

Jornal de Angola - Que dificuldades existem para criar actualmente um espectáculo de dança contemporânea?

Ana Clara Guerra Marques -
Todas. Quem nos está a ler desde o início fica com uma ideia clara do pobre panorama da dança cénica angolana: uma oferta de formação profissional frágil, um movimento predominantemente amador e um desconhecimento generalizado das várias possibilidades da dança e daquilo que é a dança enquanto arte, ou seja, produto de uma acção criativa intelectual. Neste contexto, onde a lógica predominante é a da maioria, independentemente do facto de estar certo ou errado, a única companhia existente aparece como o lado errado.

Jornal de Angola - E a questão do apoio financeiro?

Ana Clara Guerra Marques -
Porque se insiste na ideia insólita de que o trabalho do bailarino não é representativo da cultura angolana, existem dificuldades inúmeras em conseguirmos os apoios necessários para realizar uma produção. De um modo geral, os chamados patrocínios são direccionados para actividades de “maior visibilidade”, mas nem sempre de maior qualidade artística. Um outro entrave é a escandalosa falta de teatros em todo o país. É preciso esclarecer que um palco com cadeiras à frente não é um teatro e nem sequer o lugar ideal para a actividade artística que necessita de condições técnicas e cénicas muito específicas.

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