Cultura

Brincar ao cinema em “Huílawood”

Miguel Gomes

A cidade do Lubango é um anfiteatro natural. Naquelas montanhas onde o Cristo Rei está de braços abertos, a espreitar a vida lá em baixo, também caberia um letreiro tipo Hollywood, talvez aqui pudesse ser Huílawood. Foi neste cenário, em 2014, onde Nuno Barreto fundou a arriscada produtora Filmes sem Futuro. Já lá vão 11 curtas-metragens e seis vídeoclips.

Fotografia: DR

O conceito que deu origem à produtora foi inspirado na não-indústria de cinema angolano, ideia sustentada pelo facto de não haver estrutura profissional, nem financiamentos disponíveis por via oficial (Ministério da Cultura ou organismos similares) ou mesmo por via do mecenato. 

A produção cinematográfica em Angola está praticamente a zero. Zero longas-metragens (ou perto disso) e algumas curtas fazem o pecúlio dos últimos anos. O que é trágico - mas isto poderá ser motivo para uma próxima reportagem.
“Desde o início que a nossa filosofia foi brincar ao cinema”, explicou Nuno Barreto, fundador da Filmes sem Futuro, em conversa com o Jornal de Angola.
Além de fundador, Barreto é também realizador, produtor, guionista, técnico de som, financeiro e editor de imagem (e programador cultural enquanto profissão assalariada).
“A nossa intenção é trabalhar com a comunidade artística e com a prata da casa do Lubango, sempre com atitude positiva e despreocupada (daí a brincadeira com a ideia de Hollywood-Huílawood), algum improviso e capacidade de adaptação”, explicou o único responsável da produtora.
Fazer cinema de qualidade - mesmo com baixos orçamentos - implica sempre algum investimento em material de trabalho, na escolha dos actores, na elaboração do argumento, do guarda-roupa. Porque cinema de qualidade, com muitos ou poucos meios, será sempre uma questão de técnica, poesia, perspectiva e muita beleza.
“Quero que os artistas saiam daqui para o mundo sem passar por Luanda”, disse Nuno Barreto, em crítica dirigida ao centralismo e à forte concentração de poder político, económico e cultural na capital do país. Fora de Luanda quase nada acontece. Resiste apenas a cultura do marasmo monocórdico, das bebidas alcoólicas e outras farras.
“Quero também ajudar a viabilizar nacional e internacionalmente os grupos de teatro e os músicos do Lubango, ao mesmo tempo que democratizamos a produção cinematográfica. O meu estúdio cabe na mochila e os nossos cenários são a própria natureza. Somos orgulhosamente provincianos e podemos fazer coisas bonitas”, explicou Nuno Barreto.
A produção local está ainda mais exposta às tradições regionais e à oral, à arte de contar histórias e aos hábitos da comunidade. Em 2016, a Filmes sem Futuro produziu a curta-metragem “Etumpuluku”, que significa “susto”, em nyaneca-humbi. Pelo menos mais três filmes seguem a mesma lógica de pesquisa.
“Etumpuluku” é a história de um jovem casal de namorados que, de forma inocente, desemboca num local abandonado e proibido. Ali começam a sentir a presença estranha de uma entidade ameaçadora e misteriosa que lhes faz sentir indesejados, mal-vindos e com vontade de fugir do local.
É neste contexto que ganham importância os adjectivos descomplicar e adaptar. “Nós exploramos a liberdade criativa do formato da curta-metragem, mas, às vezes, tudo se transforma numa odisseia”, contou Nuno Barreto.
As atribulações podem começar logo na escolha dos actores, porque a maioria estuda e trabalha, o que complica tudo o que sejam encontros de preparação ou gravações. Na produtora que desdenha o futuro, praticamente não há ensaios. E ninguém se chateia.

Cultura sem direcção
“Estamos a fazer filmes sem futuro, com grupos de teatro com futuro”, brincou Nuno Barreto. Apesar de ser uma cidade integrada numa das zonas mais dinâmicas do país, em termos económicos, o Lubango sofre dos mesmos problemas que afectam a interioridade: para cerca de 12 grupos de teatro em actividade, não há qualquer sala em perfeitas condições. E as poucas alternativas disponíveis são caras, o que dificulta a montagem de espectáculos.
Os grupos locais de teatro são ainda obrigados a subsidiar as actividades, desde a logística (sala, som e cadeiras), passando pela divulgação até à produção artística propriamente dita.
Nuno Barreto discorda profundamente desta forma de fazer cultura. A produtora também surge da necessidade de mostrar que há alternativas a um contexto pobre em termos de oferta e altamente elitizado ao nível das decisões e preferências das instituições públicas. Nem que seja recorrendo à velha teoria punk e contrapoder: não tem dinheiro, não tem apoios? Faça-você-mesmo.
“Os gestores culturais são burocratas. Têm outra perspectiva. Eu olho para a cultura enquanto factor aglutinador. Porque é importante mostrar que o espaço público é de todos, só que entre nós não existe este conceito. Os grupos de teatro têm de pagar o aluguer da sala e eu não concordo com esta decisão. Estamos a falar de uma sala pública, que cobra cerca de 10 a 12 mil kwanzas por espectáculo. Os grupos de teatro ainda têm de alugar as cadeiras, colar cartazes, tratar do som. Digamos que é um pouco indigno tratar de tanta logística, além da criação. Eles querem ser actores, não querem ser logísticos”, defende o realizador.
O primeiro filme angolano totalmente filmado com smartphone, “Tchikeno” (2014), já rodou em mais de 10 festivais internacionais em diferentes continentes.
Dos 11 filmes produzidos entre 2014 e 2019, cinco foram realizados com uma máquina não-profissional e sem microfone incorporado. Só mais tarde é que a Filmes sem Futuro investiu numa máquina nova já com microfone. O investimento foi todo pessoal. Os orçamentos dos filmes podem rondar os 10 mil kwanzas e muitas vezes dizem respeito apenas aos custos de transporte dos actores.
“Depois de algumas experiências mal sucedidas, passei a rejeitar a ideia de procurar patrocínios. É por isso que filmamos na rua: para não depender de salas oficiais e das instituições. 90 por cento dos nossos trabalhos são executados na rua, o que resulta numa cena muito urbana. Quando necessitamos de alguma alternativa, recorremos aos amigos. Gasto mais dinheiro a imprimir os DVD's do que a fazer um filme”, explica Nuno Barreto.
Também a participação em festivais internacionais, onde já recolheu três prémios, é feita sem custos associados. Nuno Barreto está inscrito numa plataforma online para realizadores (Film Free Way), onde publica os trabalhos da produtora. E apenas participa em festivais que não cobram pela inscrição.

No Lubango por amor

Sem qualquer formação específica em cinema ou produção audiovisual, o fundador da produtora Filmes sem Futuro tem aproveitado a experiência para aprender a editar imagens e para desenvolver as capacidades enquanto realizador.
Professor primário de origem e com passagem diária pela universidade auto-didacta do Youtube, onde recorre sempre que se depara com uma dúvida inultrapassável, o português Nuno Barreto imigrou em 2001 para Angola, depois de trabalhar em organizações da sociedade civil de Moçambique e Dinamarca, entre outros países.
Veio como voluntário da Ajuda de Desenvolvimento de Povo para Povo (ADPP), trabalhou em Caxito, em 2003, e depois acabou por se casar e procriar. O casal tem uma filha. Por volta de 2009, fixou-se no Lubango, terra natal da mulher.
“Apaixonei-me aqui e não quis sair, estamos juntos há 12 anos, construímos uma casa na zona do Cristo Rei - o Lubango tem problemas, mas eu amo esta cidade”, conta.
Assumidamente cinéfilo, há anos que cumpre uma rotina diária: deita-se sempre a ver um filme.
Em cinco anos de actividade, a produtora já participou em cerca de 30 festivais de cinema de vários países (Indonésia, África do Sul, Espanha, Brasil, Portugal, Nigéria, entre outros) e gravou vídeoclips de reggae e rock nacional.
Tem vindo ainda a produzir os episódios humorísticos “Mbuanjaria”, que são publicados no Youtube e nas redes sociais - sem “estigas”, sem abusos, sem disparates e sem violência.
Apesar da recente escuridão cinematográfica no país, o cinema angolano tem alguma história: no pós-independência, nomes como António Ole, Nguxi dos Santos, os irmãos Henriques (TPA) e o eclético Ruy Duarte de Carvalho começaram por registar as guerras e as primeiras narrativas da nação pós-colonial.
Após 2002 e com o recurso a financiamentos e apoios públicos, surgiram prometedoras longas-metragens, como “O Herói” (Zezé Gamboa), “Comboio da Canhoca” (Orlando Fortunato), “Na Cidade Vazia” (Maria João Ganga), entre outros exemplos também a nível do documentário (pela mão de Jorge António ou Kiluanji Liberdade).
Como o investimento público foi difuso e de curta duração, os últimos dez anos foram marcados pelos filmes de produção amadora (documentários, curtas e longas metragens) e baixíssimo orçamento, com o realizador Henrique Narciso “Dito” e o seu “Assaltos em Luanda” a garantirem muitos espectadores.
Mawete Paciência aparece também na mesma linha de acção. A nova geração inclui nomes como Mário Bastos “Fradique” ou Ery Claver, que têm desenvolvido a actividade a partir da produtora Geração 80.

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