Cantor e compositor emblemático

Jomo Fortunato|
16 de Fevereiro, 2015

Fotografia: Eduardo Pedro

Cantor e compositor emblemático do período da canção política, Tanga, um nome que poderá ressoar a desconhecido pelos compositores e intérpretes da nova geração, deixou uma obra musical nostálgica e referencial, que retrata uma época de esperança, luta heróica e entrega desinteressada, à nobreza dos ideais da causa revolucionária.

Até a sua adolescência, Tanga viajou por várias cidades de Angola, por exigências profissionais dos seus pais. “Eram normais, lembrou o cantor, as transferências em determinados sectores do funcionalismo público, na época colonial”. Nesta itinerância, o compositor e sua família, passaram pelo Bié, Lunda-sul, Lubango e Lobito. Contudo, foi na Lunda-sul, cidade de Saurimo, onde Tanga teve a sua primeira, e “pouco expressiva”, experiência musical, em 1968, integrado, como baterista, na banda “Calhas seis”, uma formação pop-rock, dos denominados  conjuntos de música moderna.
Quando chegou a Luanda, em 1974, proveniente do Lobito, Tanga encontrou a efervescência da canção política, trazia consigo a memória do famoso Carnaval do Lobito, e o imaginário de dez anos  de concertos dos “Negoleiros do ritmo”, grupo musical do seu primo, Dionísio Rocha, cantor e compositor que o leva a assistir um concerto emocionante dos “Kiezos”, realizado no Desportivo União de São Paulo, facto marcante na sua vida que o motivou a seguir uma carreira musical.
Filho de Manuel Patrocínio Nogueira da Rocha, enfermeiro, e de Maria Florinda Tadeu Bastos da Rocha, enfermeira parteira, Victor Manuel Bastos da Rocha nasceu no dia 13 de Dezembro de 1954, em Benguela.
Tanga recordou a forma como, de forma gradual, foi aprendendo os primeiros acordes de violão: “Por mais estranho que possa parecer, aprendi os primeiros acordes de violão por um processo de  auto-aprendizagem. A observação directa e o exercício repetido da posição  das notas,  foi o meu método principal que levou, a acompanhar as minhas composições musicais”. Na “Canção do homem novo”, por exemplo, tema que perspectivava um tipo de angolano, que, pressupõe-se, surgiria com o dealbar da independência de Angola, Tanga escreveu, deste modo, sobre o  país sonhado na época revolucionária: É preciso que ninguém chore / sempre que tomba um camarada / que não haja mais tristezas nem lamentos / aiué, aiué, aiué... / Que isto sirva no nosso peito / para aumentar a coragem e o amor/ nossa foça e também nossa vontade / de lutar, de lutar e transformar / Que nessa luta se destrua o monopólio, o alcoolismo, as traições e a miséria. / Que se acabe para sempre o privilégio, a analfabetismo e a prostituição. Que nessa luta se construa o futuro / nossos campos, nossas fábricas e escolas. / Que nasça agora para sempre, hino e bandeira / o novo homem e a reconstrução...

Kambuta

O cuidado na construção textual, consubstanciado na simplicidade do processo de selecção das palavras, muitas vezes difícil de conseguir na generalidade da criação literária, a beleza nostálgica das melodias e a pertinência na escolha dos temas, julgamos terem sido a chave que tem reforçado a intemporalidade das canções de Tanga. Vejamos então o texto integral de “Kambuta”, um dos seus temas mais conhecidos: Me lembro que ainda garoto/ contigo brincava / e quando por tudo e nada/ eu te maltratava / mas agora, que eu cresci / e que tu cresceste/ já não há mais tempo / para saltar a corda/ nem pró canhé / histórias, brinquedos e rodas / tudo isso já se passou/ importa que saibas agora / que o mundo para nós mudou / dois caminhos tão diferentes, tão diferentes / pois hoje na vida a história é outra / kambuta / kambuta / Kambuta / vive para lutar / kambuta / kambuta / Kambuta / luta para vencer / luta para vencer...

Genealogia

Curiosamente, embora não explique, de forma directa, a propensão genealógica do cantor e compositor, pelas artes, Tanga é neto materno do autodidata Augusto Tadeu Bastos, que, segundo Júlio Castro Lopo, foi pianista e compositor, nascido em Benguela no dia 16 de Agosto de 1872. Filho de Manuel Tadeu Pereira Bastos, português, e de Laurinda Rosa, angolana, Augusto Tadeu Bastos fez os estudos em Portugal, tendo regressado a Benguela depois da morte do seu pai. Das várias  funções que exerceu, destacam-se as de guarda- livros, escrivão da Administração do Concelho da Catumbela, conferencista, jornalista, advogado provisionário,  presidente da Câmara Municipal de Benguela e secretário da Associação Comercial de Benguela. Faleceu na sexta-feira do dia 10 de Abril de 1936, em Benguela.

Homenagem

Tanga foi um dos convidados do concerto em  homenagem ao Duo Tchisosi, de Manuel Victória Pereira e Lino Vieira, o último já falecido, realizado no dia 15 de Janeiro de 2014, no Elinga Teatro, ocasião em que  interpretou, “Eme ngondo iame” e “Kambuta”, tendo dividido o palco com: Manuel Vargues, vulgarmente conhecido por Cuca, Avelino Sande, Toti Samed, Anabela Aya, Duo Canhoto, Mauro do Nascimento, Coral Nzinga Brothers, e Carlos Lopes.

Depoimento

Prestigiado cantor e compositor, Carlos Lamartine, nome incontornável da canção política, em entrevista ao Jornal Nova Gazeta, na sua edição de 12 de Fevereiro de 2015, respondendo a pergunta, “Que significado teve os anos de 1974 a 1977?”, citou Tanga, enaltecendo a importância de um conjunto de artistas, do período da canção política: “Foi o período da definição. Depois do 25 de Abril, em Portugal, a maior parte dos artistas angolanos identificou-se com os pressupostos da luta de libertação de Angola. A tendência foi de todos nós fazermos canções políticas. Há belíssimas, desde as minhas, do Artur Adriano, Santos Júnior, Tanga, Mayuca, Prado Paim, Urbano de Castro, Artur Nunes, Teta Lando, David Zé e tantos outros. É um período áureo de elevação da música angolana e sinto-me orgulhoso por fazer parte deste período. De 1974 a 1977, todo esse movimento foi integrado por conteúdos políticos, o que não significa que sejam só canções de guerra, também havia de amor”...

Discografia

Tanga gravou dois singles pela CDA, Companhia de Discos  de Angola, o primeiro em 1974, que inclui as canções,  “Eme ngondo iame” e “Irmão de 11 anos”, com Carlitos Vieira Dias (viola baixo, solo e suprevisão musical), José Joaquim Júnior (viola ritmo), João Lourenço Morgado (percussão), Vate Costa (dikanza), São Coelho e Gina Benge (coros), e o segundo pela mesma etiqueta, um ano depois, que inclui os temas “Canção de um homem novo”,  e  “Kambuta”, acompanhado pelos mesmos instrumentistas, incluindo, Belita Palma, Tonito e Nino (vozes), Carlos Sanches (viola acústica).  As canções  “Menina do beliscão” e “São Filipe”, incluídas nos CD’s “Semba Luanda” (2001),  e  “Angola Maravilha” (1997), respectivamente, gravadas pela Banda Maravilha, são da autoria de Tanga. As canções de Tanga figuram ainda em duas colectâneas, “Soul of Angola”, com o tema,  “Eme ngondo iami”, e “Angola, trinta anos de canções”, do INALD, com a canção, “kambuta”.  Embora esteja somente registado em vídeo, Coréon Dú interpretou  "Kambuta" de Tanga, acompanhado pela Orquestra Clássica da Madeira, regida pelo Maestro Rui Massena, no Concerto Sinfónico Clássicos da Música Angolana, realizado no dia 11 de Novembro de 2011, data da independência de Angola, no Centro de Conferências de Belas, em Luanda.

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