Cultura

Carlos Burity: Fim de um ciclo incontornável do novo semba

Jomo Fortunato

Um dos grandes méritos de Carlos Burity foi de ter resistido às mais recentes convulsões da história da Música Popular Angolana. Em 1991, ressurgiu com o LP “Angolaritmo”, com produção do empresário guineense, João de Barros, depois do silêncio discográfico ocasionado pelo enceramento dos mais importantes estúdios de gravação em Angola e pela dispersão de alguns dos mais referenciados instrumentistas do semba.

Carlos Burity foi considerado um dos maiores percursores da música de raiz angolana, com destaque para o estilo semba
Fotografia: DR

A ousadia e o virtuosismo de Carlos Burity, embora acusassem laivos de modernidade e inéditas propostas instrumentais, assentavam na expressividade artística e vivência, directa, da cultura dos musseques luandenses. Os últimos álbuns de Carlos Burity acusam a intenção de aprimorar a tradição sonora do semba, cantado nas principais línguas nacionais, dialogando com instrumentos característicos da música clássica, violino no tema “ Makamba”, do CD “Uanga”, 1998, incluindo segmentos rítmicos da estética contemporânea e universal da música pop, funk e inéditas intromissões de hip-hop.

Na busca de novas sonoridades, Carlos Burity experimentou vários processos de inclusão e fusão, introduzindo, sobretudo no semba, as transformações estéticas mais importantes da história da Música Popular Angolana, ao longo de mais de um século de existência.Sabe-se que a continuidade natural das práticas artísticas valorizam e reformulam os feitos, e, inversamente, as rupturas abandonam os fraseados musicais repetidos ou considerados, do ponto de vista estético, menos funcionais.Um verso cantado por Carlos Burity, como “ Ué vizinhé”, trazia consigo a localização geográfica e a expressão de uma cultura musical, singular e única nos seus contornos estéticos, com características expressivas localizadas e identificadas no espaço cultural luandense.

Principais momentos discográficos de Carlos Burity

Carlos Burity gravou o seu primeiro single em 1974, que inclui os temas “Ixi Iami” e “Recado” acompanhado pelo “Grupo Semba”, uma selecção de instrumentistas angolanos que ficou na história da Música Popular Angolana. Neste mesmo ano divide o palco com David Zé e Artur Nunes, num grande espectáculo realizado na Cidadela Desportiva de Luanda, promovido pelos empresários Palma Fernandes e Ambrósio de Lemos, também conhecido por Alpega. O single “Inveja” e “Memória de Nelito” surgiu no mercado em 1975, enquanto o disco “Especulador”, um tema de pendor satírico que marca a entrada de Carlos Burity no universo da música de intervenção, e a canção “Desaparecimento de Moreno”, gravada com o agrupamento os Kiezos, surgiram em 1976. Em 1983, Carlos Burity juntou-se ao “Canto Livre de Angola”, um projecto do cantor brasileiro Martinho da Vila e do empresário Fernando Faro, que levou ao Brasil nomes como, Filipe Mukenga, André Mingas, Dina Santos, Pedrito, Elias dya Kimuezo, Rebita do Mestre Geraldo, Mamukueno e Joy Artur, acompanhados pelo agrupamento Semba Tropical, e participou, integrado no mesmo projecto, na gravação do LP, Semba Tropical in London, interpretando, com assinalável sucesso, os temas “Monami” e “Tona kaxi”. O álbum “Carolina” surgiu em 1991, com os temas “Uabite Boba”, “Maria alukaze”, “Narciso”, de Mamukueno, “Carolina”, “Monami”, “Adeus”, Filipe Zau, e “Kilundo” de Filipe Mukenga. O empresário guineense João de Barros está na origem da produção do álbum “Angolaritmo “, que apareceu sob a forma de CD em 1994, pela editora Vidisco, com o título “Ilha de Luanda”. Em “Angolaritmo” Carlos Burity começou a esboçar, de forma incipiente, as linhas estéticas do “Novo Semba” acompanhado pelo grupo Welwichia com Botto Trindade, guitarra solo, Massikoka, teclas, Mogue, baixo, Rui Furtado, bateria, Joãozinho Morgado, tumbas, com participação especial do cabo-verdiano Paulino Vieira, nos arranjos do órgão. Em 2010, surgiu o CD “Malalanza”, tendo regravado os temas, "Ngana", “Inveja" e "Alucase", com novos arranjos, e seis canções inéditas, “Dominguinha”, “Tia Joaquina, “Nguma”,“Akwa Ngongo”, “Malalanza” e “Julieta”. O cantor preparava novo disco.

Novo semba

Embora a passagem da fase acústica do semba à fase da introdução de instrumentos eléctricos ou electrificados tenha contribuído, de forma positiva, para a modernização da Música Popular Angolana, três vectores de análise ajudam-nos à reformulação teórica do surgimento daquilo que designamos por “Novo Semba”. Primeiro, a aparição da Banda Maravilha, com Carlitos Viera Dias, segundo, a dimensão internacional da banda Semba Masters, com Bonga, incluindo as produções e arranjos do guitarrista Betinho Feijó, e o terceiro vector, o ressurgimento, apoteótico, de Carlos Burity com os discos “Angolaritmo”, 1991, “Massemba”, 1996, “Uanga”, 1998, “Zuela ó kidi”, 2002, “Paxi iami”, 2006, e, mais recentemente, o álbum “Malalanza”, 2010, que analisaremos, mais adiante, de forma pormenorizada.

Percurso artístico

Filho de Fernando Gaspar Martins e de Maria Carolina Nunes Burity, Carlos Fernandes Burity Gaspar nasceu em Luanda, no dia 14 de Novembro de 1952, e viveu parte da adolescência no Moxico onde integrou, em 1968, a formação pop-rock “Cinco mais um”, com Catarino Bárber e José Agostinho, o último do Duo “Missosso”, com Filipe Mukenga. À época era frequente ouvi-lo cantar, em bailes e bares conhecidos da cidade do Moxico, sucessos da época, sobretudo, a música italiana do cantor Giani Morandi, canções do brasileiro Teixeirinha e clássicos da canção francesa, experiência que em muito contribuiu para a sua disciplina vocal e arranjo, continuado, do timbre. Catarino Bárber foi funcionário da Aeronáutica Civil e dava aulas de canto em casa. “Reconheço ter sido uma experiência muito útil para a minha formação como cantor “, recordou, nostálgico, Carlos Burity. Próximo das turmas e da movimentação dos grupos de carnaval luandenses, Carlos Burity já era, no princípio dos anos 70, figura de cartaz na Sede Social de São Paulo, importante centro cultural e de recreação da cidade de Luanda, alinhando, como vocal, em agrupamentos musicais consagrados, com destaque para os Kiezos, Negoleiros do ritmo, África Show e Águias-reais.

Compositores

Cantor de uma voz densa e cristalina, Carlos Burity construiu a sua obra, como compositor e intérprete de múltiplos recursos vocais, socorrendo-se de vários compositores angolanos. De Lulas da Paixão, Carlos Burity interpretou os temas, “Mukajami”, “Menina uemita” e “Lolito”, de Xabanú, “Santo António Kamba Diami” e”Kimbangula”, José Oliveira de Fontes Pereira, “Zumbi dyá papá”, de Filipe Mukenga, “Kilundo”, Filipe Zau, “Velho Andjolo”, Paulino Pinheiro, “Luzingo luami”, e Ana Maria de Mascarenhas, “Canção nostalgia” são alguns dos compositores com os quais Carlos Burity recriou importantes parcerias, invertendo uma prática, muito comum desde a época colonial, na Música Popular Angolana de concentrar, numa só figura, a autoria e a interpretação.

 

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