Cultura

Carnaval ao ritmo do semba

Manuel Albano

Alegria, cor e folia foi o que se constatou, ontem, na Marginal da Praia do Bispo, quando os 13 grupos carnavalescos da classe A, de adultos, desfilaram em mais uma edição do Carnaval de Luanda, a maior manifestação do país, numa competição bastante equilibrada este ano.

Fotografia: DR

O dia felizmente contrariou as previsões de chuva na capital do país, com base nas informações do site do INAMET. O casal presidencial, João Lourenço e Ana Dias Lourenço, decidiu juntar-se à “festa do povo” e assistiu ao desfile dos melhores do Carnaval de Luanda. O presidente da Assembleia Nacional, Fernando da Piedade Dias dos Santos, também marcou presença na “festa”.
Com sol brando e um clima ameno, o grupo União Kiela do Sambizanga foi o primeiro a desfilar, com um tema de incentivo ao combate à corrupção, nepotismo e à impunidade. O brilho das cores do Kiela, marcadas pelo azul, amarelo e vermelho, deram outro colorido aos integrantes do grupo, combinado com a beleza do gingar da rainha e do rei num semba ritimado.
A cantora Patrícia Faria deu voz à canção do grupo “Combatamos a corrupção”. À Marginal, o Kiela levou mais de 1.300 foliões. O grupo, composto maioritariamente por jovens, escolheu o tema, de acordo com o secretário-geral, Madaleno Mota, intencionalmente, para incentivar o combate a uma prática inibidora do desenvolvimento do país. “Superar o terceiro lugar da edição passada é a meta do grupo”, revelou.
De seguida, o União 10 de Dezembro, com pouco mais de 450 pessoas, desde os integrantes a falange de apoio, apresentou como dança o semba-varina. Calabeto “Kota Bué” emprestou a voz para a canção do grupo, cujo tema de painel é “Não à caça furtiva”. Quinto classificado na edição passada, o grupo proveniente do Prenda procurou abordar o problema da caça indiscriminada de animais, alguns deles em vias de extinção. A necessidade de leis que punam, severamente, os prevaricadores é o tema levado pelo 10 de Dezembro à Marginal.
As conquistas do kuduro não passaram despercebidas pelo União Jovens da Cacimba, que apresentou como proposta o tema “Kuduro nossa identidade”, numa homenagem a todos os fazedores deste estilo musical, cujo sucesso ultrapassou barreiras e conquistou espaço no mercado nacional e internacional.
Bastante ovacionado e com mais de 300 pessoas, o grupo escolheu este tema, como defendeu o presidente dos Jovens da Cacimba, José Andrade, como “forma de mostrar ao mundo que o kuduro é um estilo nacional, antes muito descriminado, que hoje precisa ser mais valorizado, por ter ajudado a elevar bem alto o nome de Angola na diáspora”.
As figuras ligadas a história, política, cultura, sociedade, assim como os locais e sítios históricos do Distrito Urbano do Rangel, foram homenageados este ano pelo União Recreativo do Ki-lamba, o vencedor da edição passada do Carnaval de Luanda, que decidiu render um singelo tributo aos “filhos do Rangel”.
O tema da canção deste ano “Marçal ancestral”, interpretado por Dom Caetano, faz uma ligação directa ao tema de painel “Marçal uma vida, Marçal uma história” e serve para simbolizar a riqueza cultural daquele distrito da capital do país.
“Fazer mais e reclamar menos” tem sido o lema central e estratégico do grupo liderado pelo comandante Poly Rocha, que contínua a apostar na criatividade e singularidade para vencer no Carnaval de Luanda.

Os concorrentes
Este ano, o desfile competitivo da classe A, de adultos, levou à pista da Marginal da Praia do Bispo muitos dos “grandes”, assim como um estreante desta categoria, “veterano experiente” da classe B, que é o União Domant. Entre os favoritos despontam vários nomes, como o União Mundo da Ilha, com mais títulos, Njinga a Mbande, em busca de outro trófeu, bem como o União Operário Kabocomeu, Kazukuta do Sambizanga, 17 de Setembro, Amazonas do Prenda, Café de Angola e 54, que procuram velhas glórias.
Este ano, o júri, presidido por Santocas, tem a “espinhosa” missão de eleger os melhores do Carnaval de Luanda, numa competição muito equilibrada em quase todas as categorias. O júri, constituído por Domingos Nguizani e Virgílio Santos (dança), Santocas e Quintino (canção), Nadir Tati e Dina Simão (corte), Guilherme Mampuya e António Gonga (painel), Adérito Rodrigues e Carla Rodrigues (comandante), Etona e Josefina Manzaila (alegoria) e Armando Rosa e Tucayana Costa (falange de apoio) anunciam amanhã, Dia das Mabangas, na Liga Africana, os vencedores da classe A. Hoje o programa está reservado para o carnaval de Rua.

Semba em grande na pista da Marginal da Praia do Bispo

O estilo de dança semba foi destaque, ontem, no desfile central do Carnaval de Luanda, no qual 10, dos 13 grupos carnavalescos a disputarem, apresentaram, na Marginal da Praia do Bispo, este género contra dois de kazucuta e uma cabecinha.
No desfile central, o semba voltou a estar em evidência e provou ser um estilo de eleição no Entrudo luandense.
Género de música e dança tradicional de Angola, o semba tornou-se muito popular nos anos 1950. A palavra semba significa umbigada em kimbundo. Numa tradução livre, a palavra semba representa “o corpo do homem que entra em contacto com o corpo da mulher ao nível da barriga”.
De acordo com o músico Carlos Burity, a estrutura mais antiga do semba está na massemba (umbigada), uma dança angolana do interior caracterizada por movimentos que implicam o encontro do corpo do homem com o da mulher: o cavalheiro segura a senhora pela cintura e puxa-a para si provocando um choque entre os dois (semba).
O semba, como género musical, actual é resultado de um processo complexo de fusão e transposição, sobretudo da guitarra, de segmentos rítmicos diversos, assentes fundamentalmente na percussão, o elemento base das culturas africanas.
Vários intérpretes do semba dão voz a canções de alguns grupos carnavalescos como foram os casos de Patrícia Faria, na canção “Combatamos a corrupção”, do grupo União Kiela, que abriu o desfile central do Carnaval de Luanda, Calabeto, em “Não à caça furtiva” do grupo 10 de Dezembro, Dom Caetano, em “Marçal ancestral”, do União Recreativo do Kilamba, e Acácio Bambes, em “Luanda nossa tradição”, do União 54.
O União Mundo da Ilha recorreu, uma vez mais, aos préstimos de Tonicha Miranda para dar voz ao tema “Kibandulu ya Jitabulu”, enquanto o União Amazonas do Prenda a Zeca Bangão e Tony do Fumo Filho, na canção “Comandante Vidal”.
Baló Januário interpretou o tema “Mamã Quitandeira”, no estilo cabecinha, do União Njinga a Mbande, enquanto a kazucuta esteve representada por dois grupos do Sambizanga: União Operário Kabocomeu e União Kazucuta do Sambizanga.

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