Cultura

Carnaval tem maior força cultural em Luanda

Mário Cohen

Histórias do Carnaval são muitas. Umas foram transcritas em livro. As outras ainda são parte da oralidade. Porém, todas elas têm um ponto em comum: serem a representatividade da maior festa do povo em Angola. E, como é comum, é na capital do país, Luanda, onde esta manifestação tem o seu ápice.

Fotografia: Kindala Manuel | Edições Novembro

Entre os defensores desta tese estão Roldão Ferreira, autor do livro “Carnaval: A Maior Festa do Povo Angolano”, no qual explica que o Entrudo teve sempre a sua maior força em Luanda, sobretudo na faixa litoral, ou seja, entre os ilhéus. Esse facto, aclara, deveu-se em parte aos grupos Nzau e Nzetu (Cabinda e Selongos), que ensinaram aos axiluanda a dança muala e a acção rítmica do semba.
De Luanda, destaca no livro, saiu, a partir dos musseques Kamama, Kapiri e Mulenvu, a dança de recreação espírita, denominada kimuala, que levava, em dias de óbito, os naturais daquela zona a descerem até à zona litoral e exibirem-se, em gesto de solidariedade fraterna, junto dos axiluanda.
O livro de Roldão Ferreira também faz menção de algumas etapas decisivas para a afirmação do Carnaval, tal como o conhecemos hoje. “A proclamação da Independência de Angola, em 1975, veio dar maior identidade ao Carnaval, antes feito com base nos princípios dos tugas (portugueses)”.
A primeira edição, conta, aconteceu três anos depois da Independência, em Janeiro de 1978, na 5ª Avenida, município do Cazenga, numa altura em que o primeiro Presidente da República, António Agostinho Neto, pediu para os protagonistas da festa procurarem explorar mais das suas origens e da própria identidade nacional. “Ao nosso Carnaval havemos de voltar”.
“...Vamos começar dentro de pouco tempo a ter a nossa vida normal. Não vamos ficar sempre sem fazer nada, sem trabalho, somente nas bichas... para comprar frascos de “Shelltox” e vir vender depois. Talvez possamos fazer qualquer coisa para a diversão da juventude, como por exemplo: o Carnaval. Queremos o Carnaval ou não?. Então vamos organizar esse ano o Carnaval. Não o Carnaval dos “tugas” que eram só bailes. Vamos fazer o Carnaval de rua como fazíamos antigamente. É preciso estudar as canções, aquelas piadas que dizem do Golfe contra o Cazenga, o Cazenga contra o Sambizanga, do Sambizanga contra o Bairro Operário, este é o Carnaval que nós queremos. Não é só fazer bailaricos dentro das salas fechadas, mas Carnaval de rua e o Estado vai dar todo o apoio para este Carnaval ser bem feito”, disse Agostinho Neto.
A primeira edição do Carnaval em Luanda, realizada a 27 de Janeiro de 1978, teve como vencedor, ao contrário do que se esperava, o União Operário Kabocomeu, do Sambizanga, que dançou kazukuta. Na altura muitos acreditavam que o título iria para os grupos da faixa litoral, dominada pelos ilhéus, mais habituados a estas manifestações.
Na segunda edição, a expectativa dos ilhéus voltou a esmorecer. O vencedor da festa, realizada em 1979, foi o União Feijoeiros do Ngola Kimbanda, do município da Samba, hoje extinto. O grupo era formado por oriundos de kaluandas, pessoas que tinham como principal actividade a pesca.
Só na terceira edição é que os ilhéus conseguem se afirmar, através do União Mundo da Ilha, fundado em 1968, por João Ventura, em companhia de nomes como Maria Manuela, Valeira de Almeida (que começou a fazer os primeiros batuques do grupo), Marta da Conceição, Maria Custódio e Madalena Lourenço.
Nesta edição, realizada em 1980, na altura já sob a denominação Carnaval da Vitória, o União Mundo da Ilha conquistou o seu primeiro título, o que o inspirou e até hoje é um dos de maior referência do Carnaval de Luanda com 13 títulos.
Com base nestes dados, autores como Roldão Ferreira defendem que o Carnaval teve sempre a sua maior força em Luanda, principalmente na faixa litoral, entre os ilhéus. A principal prova disso são os títulos conquistados e a sua regular presença na festa do povo.
Actualmente, com o envelhecimento dos “kotas”, muitos dos especialistas acreditaram que o grupo perderia a sua força, mas os herdeiros do Mundo da Ilha, António Custódio (actual presidente do grupo) e António João (comandante que conseguiu cinco títulos), conseguiram, com outros jovens da nova geração, preservar a experiência dos seus antecessores e dar mais fôlego e modernismo a um dos grupos tradicionais do Carnaval.
Assim como Roldão Ferreira, muitos são os especialistas a defenderem que o Mundo da Ilha, assim como muitos outros “gigantes” do Carnaval, são parte fundamental da história da festa do povo, a ser preservado para as gerações vindouras.

Outros tempos

Pelos anos de experiência, especialistas como Roldão Ferreira e muitos outros chamam ainda a atenção dos fazedores do Carnaval para a diferença que existe entre a festa de hoje e a de antes, com destaque para a dos anos 80, feita sem grandes recursos financeiros e mais virada para o povo, num desfile que não incluía apenas a Marginal de Luanda, mas passava pelos bairros e tinha sempre a participação da população. Antes a festa começava nos bairros, onde os grupos angariavam alguns valores ou bens, para usarem na “Quarta-feira das Cinzas”, ou Dia das Mabangas. Era uma festa. A diversão vinha antes de tudo. Hoje a realidade é outra. Sem o apoio da Associação Provincial do Carnaval (Aprocal) muitos grupos não têm chances de desfilar, nem no bairro, nem na Marginal António Agostinho Neto, na Praia do Bispo, onde o desfile competitivo de Luanda acontece actualmente.

 

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