Cultura

Casamento na cultura tradicional tchokwé promove o compromisso entre as famílias

Camuanga Júlia e Flávia Massua | Saurimo

A honra, a dignidade e o relacionamento entre as famílias facilitava a aproximação de pais ou tutores do pretendente à família da jovem amada, longe das brincadeiras de infância, terminadas de forma precoce, por altura da passagem pela circuncisão e transcorrido o primeiro ciclo menstrual.

A noiva, Milena Jorge Miguel, acompanhada de famíliares à chegada à casa do noivo
Fotografia: Pedro Fiawana

A honra, a dignidade e o relacionamento entre as famílias facilitava a aproximação de pais ou tutores do pretendente à família da jovem amada, longe das brincadeiras de infância, terminadas de forma precoce, por altura da passagem pela circuncisão e transcorrido o primeiro ciclo menstrual.
O sucesso do diálogo visava a efectivação do noivado, uma espécie de namoro com compromisso de casamento, que obrigava à parte solicitante a entrega de um tributo, o alembamento, traduzido num prato e uma enxada.
Marcada a data para o casamento, as duas famílias barravam as caras dos noivos com terra vermelha, húmida, em rituais separados, para proteger o casal de forças maléficas, selando a cerimónia do noivado.
Levada às costas por uma tia, para a casa do noivo, com a parte superior do corpo coberta por missangas e um pano na parte inferior, a noiva, com um rabo de boi numa das mãos, caminha protegida por um guarda-sol, rodeada por membros da sua família, levando uma enxada e um prato.
Um palhaço encabeçava a marcha, alternando a corrida com danças e gestos que atraíam a atenção dos transeuntes, além de anunciar a chegada da nubente e familiares à casa do noivo.
A recepção da delegação decorria num ambiente de festa, cuja duração dependia das possibilidades económicas dos organizadores.
 O cenário é dominado por música e dança, com garantia de alimentos e bebidas. A festa culmina na casa dos recém casados. Os familiares da jovem casada prepararam um enxoval representado por louça, recipientes para água e alimentos para suportar os primeiros sete dias do casal.
No fim dos sete dias é autorizado o regresso provisório da esposa à casa paterna antes de assumir as lides domésticas, efectivado o regresso definitivo à sua nova casa.
 
Expectativas de procriação

Durante dois anos as famílias aguardam por uma gravidez da     jovem casada. A ausência de qualquer indício obriga à procura de um curandeiro para analisar a situação e submeter a parte afectada (marido ou mulher) a tratamento.
Um toque manual à boca do útero para detectar anomalias do seu posicionamento marca o inicio de uma observação minuciosa do quimbanda à jovem, antes do tratamento efectivo, durante quatro dias, via de regra, à base de infusão de folhas de plantas medicinais.
 No caso de suspeita de anomalia no homem, o esperma resultante de uma masturbação forçada é colocado num pano preto, fazendo a vez de uma lâmina de laboratório. É então feito o teste de vitalidade, por pessoas de reconhecida experiência, por sucessos em vários tratamentos feitos a pessoas com problemas do género.
 O temor pelo provável insucesso no tratamento à jovem esposa, preocupa o seu irmão mais velho, porque pode ditar que seja devolvida aos pais, por familiares do marido, comprovada a sua esterilidade irreversível.
 De acordo com o historiador Américo Samutunga, a opção pela poligamia minimizava a situação. Nestas circunstâncias “o número de esposas assumidas dependia das possibilidades do marido que tinha a obrigação de efectivar a igualdade de tratamento entre ambas”.
O feitiço que cada uma possuía, longe de constituir ameaças a inocentes, visava a protecção dos lares. Américo Samutunga referiu que a esterilidade masculina tinha atenuantes. “A continuidade do casamento dependia da vontade e consideração da família da esposa, expectante num milagre” para inverter o quadro.
Tais princípios, segundo o historiador, modelaram a forma de ser e estar das comunidades.  As influências extra-regionais a partir de 1975, alteraram hábitos e costumes vigentes nos distintos domínios da vida social dos Lunda Tchokwé.
O rei Mwene Mwatxissengue Watembo, casado há mais de 50 anos no sistema tradicional, condena a perda de originalidade em várias famílias lundas, reféns da ganância em detrimento da honra e dignidade, convertendo os pedidos de casamento feitos às filhas como oportunidade para enriquecimento.
“A perda destes e outros valores da cultura na região, acentuou a ocorrência de mortes jamais notificadas no passado”, sublinhou, convicto o rei Mwene Mwatxissengue Watembo.
O soberano nota que após o casamento, os nubentes tinham quatro dias para a lua-de-mel. Uma bacia de fuba, galinha trazida pela família da noiva, para provar os seus dotes na cozinha, e autorizar da posse da casa, marcavam a última confraternização na etapa depois do casamento.

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