Celebração da leitura no novo livro de Rita Soares

Jomo Fortunato |
17 de Agosto, 2015

Fotografia: Arquivo da escritora

Dotada de uma visão literária precoce, Rita Soares publicou, aos dezassete anos de idade, “Uma versão diferente da vida”, o seu primeiro livro, e retorna ao universo literário com “Metamorfose”, obra que denota maturação ao nível estrutural, coerência textual e finalização estética,

três estâncias que prenunciam a notabilidade de uma autora que inscreveu, de forma inequívoca, o seu nome na história mais recente da literatura angolana.
Rita Saores defendeu, nos seguintes termos,  a génese e as motivações do seu processo de criação literária: “Elaboro os meus escritos de maneira sensível, fazendo uso de muita imaginação. Procuro inspirar-me em tudo o que me rodeia, desde as coisas mais banais até às mais complexas. Escrevo para compreender algumas coisas e simplificá-las também para os outros. Gosto de abordar questões sociais de uma maneira subtil, fazendo uso de metáforas, com foco no íntimo, explorando as emoções e motivações do ser humano”.
De facto a profundidade na abordagem dos temas, as interrrogações sobre questões clássicas da existência humana, a simplicidade, nível de criatividade  e uso da linguagem, levam-nos a concluir que a  literatura de Rita Soares, encontra-se numa fase de transição entre o género infanto-juvenil, entendida como vertente dedicada a crianças e jovens adolescentes, e o estado de maturidade literária. 
O espectro comunicacional dos livros de Rita Sores, que começa com a novela “Uma versão diferente da vida”, edição da autora de 2013,  focaliza questões clássicas da existência humana tais como: abandono, morte, muito comun nesta época de “coisificação” da vida humana, crença, cujo pendor pode ser positivo ou negativo, se estiver associado aos fundamentalismos, esperança, que nos deve guiar para um mundo melhor,  solidão, por vezes incontornável, a paixão e o amor, “em todas as suas formas”, segundo as palavras da autora.
Parece-nos que, a contar com o seu histórico de leituras, Rita Soares aprendeu as técnicas de construção narrativa, e facilmente distinguimos que houve uma evolução em relação ao plano da história, que se refere ao tema, e ao plano do discurso, que diz respeito à forma como a história é contada.

Metamorfose

“Metamorfose” de Rita Sores, para além de propor várias orientações pedagógicas, é uma autêntica celebração do livro e da promoção da leitura pública, numa época em que alguns profetas da necrologia do livro, advogam o fim do livro, com o advento das novas tecnologias da esfera comunicacional, onde a escrita alfabética seria substituída por uma cultura de sinais.
Neste sentido, percebemos com Vissolela Euterpe, a principal personagem do itinerário narrativo de Rita Soares em “Metamorfose”, que o livro ainda é a nossa melhor ferramenta de trabalho, de acesso à cultura e o companheiro ideal em todos os momentos.
A literatura de Rita Sores não está distante dos que sofrem, e dos desprovidos de amor. É uma escrita que acena com compaixão os que  somente sobrevivem, apelando o ser mais do que o ter, valorizando a essência e desconfiando da aparência. Do surgimento da Vissolela ao encontro, e partida de João Weza, deparamo-nos com uma sequência da acção narrativa, própria de quem percebeu o conceito de coerência textual no processo de criação literária, fenómeno que consideramos precoce em relação à uma autora no início de carreira.

Estreia

Rosa Soares lembrou o itinerário dos percalços da sua trajectória literária,  até à publicação do seu primeiro livro: “Escrevi o meu primeiro livro aos dezasseis anos, tendo recorrido a algumas editoras para publicação, contudo não obtive resposta positiva. Na sequência, vi na publicação independente uma solução pragmática. Com o apoio da minha família, consegui publicar o meu primeiro livro, "Uma Versão Diferente da Vida", no dia 29 de Novembro de 2013. A verdade é que os exemplares do meu primeiro livro esgotaram em três meses e vejo agora com enorme satisfação,  a publicação de “Metamorfose”, a minha  segunda obra”.

Percurso

Filha de Salvador Soares e de Bernardeth Lígia, Rosa Maria Andrade Soares nasceu no Bié, no dia  1 de Setembro de 1996. Mudou-se para Luanda com tenra idade, cidade onde mora actualmente com a sua família. Estudou nos colégios: Turma da Mónica, Jany Helga, Pitruca e Elizângela Filomena, onde concluiu o ensino médio em ciências sociais. Rosa Soares adquiriu o gosto pela leitura influenciada pela família, e, desde muito cedo, mergulhou primeiro em livros de banda desenhada e aos 10 anos, conheceu grandes nomes da literatura mundial como Jostein Gaarden. O gosto e prazer da escrita foram consequências da leitura, e o livro que marcou a sua iniciação como escritora foi “O Diário de Anne Frank”, um dos mais importantes relatos históricos de uma adolescente vitima do holocausto nazista.
Rosa Soares viu nas novas tecnologias, uma forma de dar mais visibilidade aos seus textos, e por esta razão criou o seu primeiro blog aos 12 anos, mas não teve sucesso e acabou por desistir do espaço, tendo continuado a escrever  e guardando os seus escritos para si mesma, parentes e amigos próximos. No dia 3 de Agosto de 2011, com 15 anos, investiu noutro espaço online: “Só entre nós mulheres”, espaço virtual onde escrevia regularmente sobre assuntos femininos relacionados com a escola, família, comportamento, moda e relacionamentos. “Só entre nós mulheres” teve 57.042 visitas do Brasil, Angola, Estados Unidos, Portugal, Alemanha, Rússia, Reino Unido, França, Coreia do Sul, e  Moçambique.

Distinções

Em 2011 conquistou três prémios: Óscar Blog , Inspirando Ideias , “Crazy in HTML”, e esteve entre os finalistas do concurso, “O Primeiro Passo” para a concretização de um conho. Em 2014 foi premiada na primeira gala de “Valorização de Capital Humano Africano” em Angola na Categoria de “Criança Visionária”. Em Março de 2015 um dos seus poemas foi publicado no livro “Entre o sono e o sonho”, a maior antologia de poesia contemporânea portuguesa, pela Chiado Editora, em Portugal. Participou ainda na antologia digital, Fénix, e trabalhou como redactora e contista para algumas plataformas.

Depoimento

A obra recebeu boas críticas e a autora chegou até a ser considerada um prodígio, como afirma o leitor Duval Cabral no seu artigo de opinião, publicado no site da escritora:  “Não apenas pelo conteúdo ou pela consistência da história, mas sim pela grande capacidade que Rosa Soares teve para produzir cada momento, cada emoção e cada sentimento das personagens. E o mais incrível é que o livro foi escrito na primeira pessoa, o que é muito difícil para um iniciante, e até para alguns escritores de renome, que vivem criticando os livros escritos nessa forma, e essa escolha permitiu a Rosa Soares transmitir com claridade aos leitores os sentimentos das personagens. E quero lembrar que Rosa Soares tem 17 anos, e por ter a coragem e a imaginação, que lhe deu a capacidade para escrever este livro, e por acarretar um potencial que lhe concede uma tendência de progressão enorme, considero-a num prodígio da literatura nacional.”

Lançamento

“Metamorfose” foi lançado no dia 13 de Agosto de 2015 no Museu das Forças Armadas, em acto que contou com a apresentação pública da “Rabugentos”, editora que publicou o livro, na presença dos editores, Jaqueline Saluvo e José Vemba. O momento musical esteve a  cargo dos cantores Wilmar Nakeni e Enoque Soares.

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