Cultura

Celebrando a vida e a obra do grande Manu Dibango

Analtino Santos

Manu Dibango esteve tão ligado a Angola que musicou o poema “Havemos de Voltar”, do PresidenteAgostinho Neto. E é dos poucos artistas que cantou tanto para o Presidente José Eduardo dos Santos como para João Lourenço. Não foi por acaso que esteve na cerimónia de cumprimentos de fim-de-ano no primeiro ano do mandato do actual Presidente.

Fotografia: DR

Manu Dibango é um nome que sempre dispensará qualquer tipo de apresentação em Angola, África e no Mundo. Foi, para todos os efeitos, um cidadão do mundo, um músico que manteve operacional um único pulmão, que o levou a produzir sons agradabilíssimos no seu inseparável saxofone. Com uma gargalhada estridente, uma voz e postura em palco marcante, durante a sua carreira foi tratado como“Grand Marabú”,“Papa Groove” e “Lion of Africa”, título de um álbum onde o artista reuniu várias estrelas africanas, incluindo Bonga.
Gilberto Júnior,um dos pesos pesados do jornalismo cultural da RNA, agora reformado, expressou da seguinte forma o seu sentimento: “terrível doença levou-nos o Grande Marabu, o homem do ‘Bessoka na Bessoka’, figura erudita da música africana e mundial. Assisti aos dois primeiros concertos dele em Angola, no Karl Marx, em 1981. Na altura integravam a sua banda Douglas Mbinda (teclados), Jean Claude Nainro(teclados), Claude Vamour (baterista), dentre outros grandes instrumentistas radicados em Paris. Posteriormente, entrevistei-o em 1988, em Harare, Zimbabwe, no Festival Internacional deMúsica Contra o Apartheid, onde também participaram Harry Belafonte, Miriam Makeba, Dolar Brand, Johnny Clegg e Savuca, Hugh Masekela, e outros. Assisti a gravação do “Havemos de Voltar” na CT1,creio que o sonoplasta foi o Artur Arriscado e, na altura, eu acabava de entrar na RNA.Penso que Ferreira Marques e Ladislau Silva também acompanharam e podem falar com propriedade”.
Man Gibas, como também é tratado Gilberto Júnior, concluiu que “os da geração dos anos 40, 50, 60 e 70 têm bons motivos para durante alguns minutos ouvirem o tema de antologia ‘Bessoka na Bessoka’”.
Mesmo antes de Dibango pisar Angola, a sua música “Soma Loba” foi adaptada, para não dizer plagiada, pelo Agrupamento Kissanguela no célebre tema “1º de Agosto“.
E um exemplo da repercussão entre nós do músico camaronês é que a sua careca reluzente deu origem a que todo o cabelo rapado fosse sinónimo de Manu Dibango.
Dibango sempre destacou a sua relação com Bonga, um amigo seu desde os finais dos anos 70. Lulendo é outro músico angolano que trabalhou com o camaronês, tocando o libemke (kisanji).Estiveram juntos em Angola em 2010. Dibango chegou a citar Afrikkanita como “uma boa cantora” e participou num disco de Hélder Tavares “Derito” e noutro de Samangwana, no tema“Juventude de Agora”, uma letra de Adão Filipe interpretada pelo dueto Samangwana e Dodó Miranda.

Músico de grande influência

Manu Dibango foi um dos artistas mais influentes da música africana e mundial.O seu percurso profissional ajuda a conhecer as várias etapas da música do continente, a presença dos artistas africanos no showbiz global e na consolidação da rotulada “World Music”.
A sua história começou em Douala, Camarões, onde nasceu a 12 de Dezembro de 1933, filho de um casal do grupo étnico Yabassi.O pai era camponês e a mãecostureira e empreendedora.
O pequeno Emanuel NDjoké Dibango teve uma educação religiosa, frequentando a Igreja Protestante, mas sempre atento aos aspectos tradicionais da cultura Yabassi. Depois da primeira fase da sua instrução primária ter sido feita na sua aldeia, foi admitido numa escola da administração colonial em 1941, onde se destacou nos trabalhos de educação visual e plástica e desenho. Parece que a sua relação com a França nasceu bem cedo, pois em 1944, quando o General Charles de Gaulle visitou os Camarões, fez parte dos estudantes escolhidos para participar na cerimónia de boas-vindas.
Aos 15 anos, é enviado para estudar em França. Dibango muitas vezes recordou esta viagem de barco,que demorou três semanas, de Douala até Marselha. A venda dos três quilos de café que levou na bagagem permitiu-lhe sustentar-se nos primeiros meses em França, como escreveu na sua autobiografia. Lá encontrou outra realidade e foi aprimorando os seus dotes musicais. O banjo, e mais tarde o piano, passou a ser o seu instrumento predilecto. Gostava de referir que alguns brancos o encorajavam a tocar tambores, alegando que era um instrumento para a música africana. Penetrou nos ambientes de Jazz, com estrelas francesas como Deck Rivens e Nino Ferrer, que em 1960 eram referências. Foi neste meio que se juntou ao músico, jornalista e respeitado intelectual camaronês Francis Bebey, para apresentações conjuntas na França e na Bélgica.

Na fase das independências africanas

Na época em que tocava em bares de Bruxelas,Dibango foi convidado pelo músico congolês Kabasalé a juntar-se aos músicos do seu país que acompanhavam a delegação de políticos na discussão dos detalhes para a independência do então Congo Belga.
Das músicas gravadas e produzidas então, várias contaram com os arranjos de Manu Dibango, dentre as quais “Independence Tcha Tcha”, conhecida na voz de Kabasalé. Segundo Pascoal Massaka, conhecedor da relação de Manu Dibango com a música congolesa, depois deste encontro, o camaronês foi convidado a partir para o Congo e tornar-se membro do African Jazz, importante formação musical do continente. Trabalhou com Franklin Boukaka, Roucheraux e outras estrelas congolesas e de outras latitudes que foram para a atractiva cena musical de Kinshasa e arredores. O talento de Manu Dibango levou o homem de negócios, e mais tarde banqueiro, Dokolo, a contratá-lo para tocar numa das suas boîtes, a Tam Tam. Depois da fase com o African Jazz, tocou com outras formações em bares de Kinshasa, Lumbubashi e de outros pontos, executando um reportório da música mais popular, para uma plateia selectiva.
Manu Dibango foi um dos muitos artistas africanos da fase da consolidação da música moderna e da Rumba Congolesa. Importa realçar que, na época, nomes que no futuro viriam a ser grandes referências da música africana passaram pelo Congo, como o nigeriano Fela Kuti e artistas das duas Rodésias, Ghana, RepúblicaCentro-Africana e dos vizinhos Congo e Angola.
Com o surgimento das independências em África, ainda tentou regressar para o seu país, mas o clima de guerra que existia nos Camarões não o prendeu por muito tempo. Manu Dibango esteve sempre envolvido nas zonas onde os músicos estavam a ser valorizados, como a Guiné Conackri, com Sekou Touré a apostar fortemente na protecção dos artistas do país, e não só, como aconteceu com a sul-africana Miriam Makeba. Na Nigéria, na fase do Afrobeat,esteve com o seu amigo Fela Kuti e depois, na Costa do Marfim do mais-velho Félix Houphoet-Boigny,protagonizou momentos bem marcantes, como, dentre outros, no memorável Africavision, onde Bonga representou Angola e teve como seu percussionista Carlos Nascimento.

 

“Golaço” no CAN de 1972

A Europa sempre esteve na agenda profissional de Dibango, pois a música híbrida, que juntava sonoridades do Makossa camaronês e do Jazz, Funk, Reggae, Soul e outros estilos conquistava,cada vez mais, o mundo. Dibango passou a ser uma presença regular nos principais festivais de Jazz e não passou despercebido aos americanos, tendo sido um dos pioneiros da “World Music”.
O grande golo para esta revolução, marcado por si, é seguramente “Soul Makossa”, composição feita em 1972, ano em que os Camarões organizaram o CAN - Campeonato Africano das Nações, tendo o tema servido como hino desta edição,e anos mais tarde,se transformado no seu principal sucesso. “Soul Makossa” foi nomeado para a 16ª Edição Anual dos Grammy, que aconteceu em 1976. Um outro sucesso seu, “Africa Boogie”, não passou despercebido aos Kool And Gang,que, inspirados nele, compuseram o tema “Jungle Boogie”. Anos depois, Eddy Murphy seguiu a levada de “Africa Boogie”. Deriva da sua forma inovadora e surpreendente de fundir e esculpir sons e harmonias a razão deste “feiticeiro” da música africana e global ser chamado “Grande Marabú”.
Depois de ter deixado os Jackson 5,Michael Jackson, com “Wanna be startin something”, traduzindo à letra“Quero começar alguma coisa”, do álbum “Thriller”, protagonizou uma das maiores batalhas por plágio musical. “Soul Makossa” foi apropriado indevidamente pelo Rei da Pop, que, anos mais tarde, perdeu a batalha em favor do legítimo dono, Manu Dibango. “Soul Makossa” passou a ser bastante usado como sample para temas americanos e quem não quis fazer parar esta corrente foi a estrela das Bahamas, Rihanna, no seu “Dont Stop the Music”.
Numa entrevista concedida a Sebastião Lino, da RNA, Manu Dibango expressou uma frase que ilustra o que pensava sobre apropriação de ritmos e músicas africanas pelos artistas da terra do Tio Sam: “os nossos irmãos americanos gostam do que é nosso, mas não de nós”.
Dentre o espólio discográfico de Manu Dibango, onde o Afrofunk, Afrobeat, Jazz, Soukouss, Makossa, Rumba e outros estilos estão patentes, podemos encontrar sucessos como o sempre citado e solicitado “Soul Makossa”, “Bessoka na Bessoka”, “Serenata a Douala”, “Juju”, “Soma Loba”, “Mboa”, “Makossa Man”, “Rasta Souvenir” e outros. Dasuadiscografiadestacam-se, entre outros, “Saxy Party”, “Soul Makossa”, “O Boso”, “Super Kamba”, “The World of Manu Dibango”, “Afrovision”, “Sun Explosion”, “Ambassador” e“Waka Juju”.
A sua versatilidade e a maneira descomplexada de encarar a música permitiram que Dibango trabalhasse com diversas gerações de músicos e estilos diferentes. Partilhou o Reggae com Alpha Blondy e o Dombolo com Koffi Olomidé, a Rumba com Pappa Wemba, o Semba com Bonga, o Afropop com Angélique Kidjo,os coros com Ladysmith Black Mambazo, o Mbalax com Youssor Ndoure os Touré Kunda e o rap com Passy. Ele não se coibia a entrar no Koppe de Kallé e nas novas tendências como a nova música urbana feita pelos jovens da África Ocidental, nem regressar ao Jazz standard, como muito bem o fez no recomendável“Ballad Emotion”, sem esquecer a aventura nos ritmos latinos com a cubana Elaide Ochoa.
Foram muitos os feitos do grande Manu Dibango. Sendo enorme a dimensão da sua música, distinguiu-se também pela sua postura cívica e humana. A filantropia de Dibango deve ser realçada aqui.O mundo continua a falar do “USAfor Africa”, mas quase todos se esqueceram-sedo movimento semelhante feito por artistas do continente africano, liderados por Manu Dibango. Papa Groove também esteve inserido noutras actividades, tendo sido reconhecido em 2004 pela UNESCO como o artista da Paz; no seu país, durante uma época, dirigiu a associação dos músicos e nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016 foi o representante da Francofonia. A sua música faz parte da trilha sonora de vários filmes e o seu “Reggae Makossa” foi levado para o jogo de vídeo “Scarface the Works Yours”.

“Soul Makossa é de todo o mundo”

Numa conversa descontraída que tivemos em Setembro de 2014,o Grande Marabu começou por realçar o facto de, mais uma vez,estar em Angola. Lembrou que há cerca de dois anos estivera num festival bem produtivo, o Luanda Internacional Jazz Festival, com grandes estrelas como Maceo Parker, Marcus Miller, Abdullah Ibrahim e vários outros.
Reforçou que estiveram também cá dois músicos que passaram pela sua banda, a nigeriana Asa e Etienne Mbappé, baixista do seu país. O artista reconheceu que era uma presença regular em Angola e que orgulhava-se de ter visto as mudanças da cidade de Luanda e mesmo a nível político. Uma das mudanças que realçava era do tráfego rodoviário, que aumentava sempre. Mencionou que esteve pela primeira vez em Angola em 1981e que não esteve apenas em Luanda.Citou Malanje como outra província onde também actuou. Falou de actuações suas em espaços como o Cine Atlântico, Karl Marx, Miami Beach e Cine Tropical, quando veio com o angolano Lulendo.
Reconheceu que no continente existem artistas engajados politicamente, como o seu amigo Fela Kuti, mas que têm sido pouco divulgados, já que não interessa à grande mídia apresentar estrelas africanas politicamente comprometidas. Falou da importância da sua banda Soul Makossa Gang, considerada por muitos como uma autêntica escola. Deu exemplos de artistas como Lokua Kanza,Etienne Mbappé e Richard Bona, os dois últimos dos maiores baixistas do mundo, que passaram pela sua banda. Lokua Kanza então como percussionista.Outros bons instrumentistas das Antilhas e do Caribe também passaram pela sua banda.“É gratificante saber que ajudei artistas que depois passaram a ser das principais referências da música do meu continente”, disse.
Garantiu a intemporalidade de Soul Makossa e que o tema já não o pertencia mas sim a todo o mundo. Justificou que gostava de trabalhar, preferencialmente, com jovens, porque “trazem sangue novo, a forma como eles tocam e cantam é diferente”.
Acrescentou que tocando apenas com gente da sua geração não seria tão bom, porque“tocam sempre as mesmas coisas e deviam mudar”. Deu o exemplo da execução do “Soul Makossa”, com os jovens a tocarem todas as vezes diferente, “pois trazem energias novas e isto faz com que se aguardem sempre novas emoções, novas pontes”.
Reconheceu a necessidade de ajudar os jovens e de dar-lhes conselhos, porque o show-business é “difícil e nem todos os artistas têm a sorte de encontrar oportunidades”.

 

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