Centro Cultural Brasil-Angola cancela espectáculos de teatro


20 de Fevereiro, 2016

Fotografia: JAImagem

O Núcleo Experimental de Teatro (NET), uma parceria entre o grupo Elinga-Teatro e a Fundação Sindika Dokolo, estreou na semana passada, no âmbito da III Trienal de Luanda, a obra “Laços de Sangue”, do dramaturgo sul-africano Athol Fugard.

A estreia realizou-se no Centro Cultural Brasil-Angola, propriedade da Fundação Eduardo dos Santos (FESA), com reposição no dia seguinte, em ambas as vezes com grande afluência de público.
Lamentavelmente os seis espectáculos previstos no mesmo local foram unilateralmente cancelados pela directora do centro, a brasileira Nídia Klein, invocando falta de cumprimento das normas do centro. O público interessado em ver a obra deverá, pois, esperar até que sejam criadas noutro local com menos exigências burocráticas as condições técnicas para a sua realização.
A peça tem no seu elenco os actores Raul do Rosário e Meirinho Mendes e foi adaptada e dirigida pelo director do Elinga, José Mena Abrantes. Tem desenho de luzes de Jorge Ribeiro, sonoplastia de Sebastião Delgado e guarda-roupa de Alex Kangala.
De acordo com o programa da peça, esta conta a história de dois meio-irmãos, Morris e Zacarias, que partilham um modesto quarto num subúrbio pobre de uma cidade sul-africana no tempo do apartheid. Zacarias é negro e Morris mestiço. Essa simples diferença epidérmica fez com que a mãe lhes desse uma educação diferente. Zacarias é analfabeto e Morris sabe ler e escrever e tem alguns estudos.
Com a morte da mãe, Morris abandona o lar e, aproveitando a sua pele mais clara, tenta durante dez anos iludir os rígidos critérios racistas vigentes no país e ser aceite como branco, comportando-se como tal. Durante esse período, tem uma paixão por uma branca.
Arrependido, e com remorsos por ter deixado o irmão sozinho e sem recursos, regressa a casa.Estabelece então com ele um pacto: juntar dinheiro para comprarem uma pequena quinta para os dois e terem um futuro tranquilo. Enquanto Zacarias trabalha como guarda de um parque, Morris apenas se ocupa dos trabalhos domésticos. Farto dessa rotina, Zacarias exaspera-se, pretendendo retomar os tempos em que, com um amigo, saía à noite para beber e se divertir com mulheres.
Para não afectar os seus planos de vida, Morris propõe ao irmão, como alternativa ao regresso à vida boémia, corresponder-se pelo correio com uma mulher. Depois de estudarem várias hipóteses num jornal acabam por se decidir por uma correspondente que parece reunir as condições desejadas. No entanto, e sem se darem conta, escolhem uma mulher branca.
Zacarias fica eufórico quando descobre que está a receber cartas de uma mulher branca, que obviamente ignora que ele é negro. Morris, no entanto, tem consciência de que isso lhes pode vir a causar graves problemas, se a situação for descoberta. O conflito estala entre os dois irmãos quando a mulher anuncia que vai visitar quem lhe escreve. Depois de um doloroso processo, Zacarias compreende e assume que, naquela sociedade, nunca se poderá relacionar com uma mulher branca. Propõe, por isso, com um misto de inveja e resignação, que seja o irmão a encontrar-se com ela.

Autor anti-apartheid

A peça “Laços de Sangue”, de Athol Fugard, teve estreia mundial em 1961, dirigida por Barney Simon, tendo no elenco um negro (Zakes Mokae) e um branco (o próprio Fugard). Dois anos depois, Fugard criou o “Serpent Players” com amadores de um bairro negro de Port Elisabeth, com o qual apresentou obras de Maquiavel, Buchner, Brecht e Sófocles. Apenas para o público local, uma vez que o grupo estava proibido de representar para brancos (os poucos que apareciam eram amigos de Fugard).
A situação piorou em 1965, quando o governo racista proibiu formalmente os elencos mistos e alargou a segregação racial ao público do teatro. A alternativa passou a ser entre cumprir essa lei ou não fazer nada. Fugard optou por respeitar a proibição e por apresentar as suas peças para públicos segregados. O importante, para ele, era que as duas comunidades as vissem.
Em 1967, sem apresentar qualquer justificação, o governo retirou-lhe o passaporte, alguns dias depois da apresentação pela BBC londrina da produção televisiva “Laços de Sangue”. Fugard sentiu, na altura, que essa era uma forma de o intimidar e de o levar a solicitar o famoso “bilhete só-de-ida” (o chamado “Exit Permit”), concedido de bom grado às pessoas tidas como indesejáveis.
Na decisão das autoridades terá pesado, igualmente, não só o conteúdo político das peças de Fugard, mas também o facto de ele ter apoiado desde muito cedo o Movimento Anti-Apartheid, sobretudo depois de se ter mudado, no início dos anos 60, para Joanesburgo, onde, trabalhando num Tribunal para Nativos, começou a tomar “profunda consciência das injustiças do apartheid”.
Em 1971, na sequência de uma petição organizada por amigos seus, Fugard voltou a ser autorizado a viajar, para ir dirigir uma peça sua no Theatre Upstairs, em Londres. A autorização era apenas de um ano e excluía a hipótese de viajar para qualquer outro país. Só anos depois da interdição de saída deixar de vigorar, Fugard pôde visitar muitos outros países (na sua juventude fora à boleia até ao Norte de África e trabalhara durante três anos num navio no Extremo Oriente), fixando-se mesmo durante alguns anos nos EUA, onde adquiriu nacionalidade norte-americana.
Nesse país foi professor assistente de dramaturgia, actuação e direcção no Departamento de Teatro e Dança da Universidade da Califórnia, em San Diego. Em 2012, já com oitenta anos, regressou à África do Sul, onde vive actualmente. Dois anos antes tinha sidofundado um teatro com o seu nome na Cidade do Cabo.
Nascido em Middellburg, uma pequena aldeia na região semi-desértica de Karroo, Fugard cresceu e estudou em Port Elisabeth, porto industrial no Oceano Índico, com uma população mista de negros, brancos, indianos, chineses e mestiços de vários cruzamentos, circunstância da qual, como ele admite, nunca se conseguiu dissociar e que conformou o seu carácter e as suas posições políticas.
Autor de mais de trinta peças de teatro e de vários romances e filmes, Athol Fugard recebeu muitos prémios e títulos honoríficos internacionais e também a Ordem de Ikhamanga em Prata, do governo sul-africano pós-apartheid, “pela sua excelente contribuição e realizações em teatro”. Muitas das suas obras foram adaptadas para o cinema. A adaptação do seu romance “Totsi”, dirigida por Gavin Hood, ganhou em 2006 o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.

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