Cultura

Chico Buarque vence Camões

Osvaldo Gonçalves

A atribuição, na última terça-feira, do Prémio Camões 2019 ao brasileiro Chico Buarque de Holanda levantou o véu sobre alguma ignorância tanto do público em geral, como de intelectuais e estudantes dos países de língua oficial portuguesa em relação aos escritores lusófonos.

Em Angola, Chico Buarque é pouco conhecido como escritor
Fotografia: DR

Numa breve busca por reacções à premiação, ocorrida após a reunião do júri, na sede da Biblioteca Nacional, no Rio de Jeneiro (Brasil), o Jornal de Angola constatou, da parte da maioria dos contactados, o desconhecimento de Chico Buarque como escritor e dramaturgo.
Muito querido entre os angolanos, de forma geral, Chico Buarque é, para a grande maioria uma figura limitada à música e, tal como aconteceu com parte dos depoimentos recolhidos por alguns canais de televisão portugueses no dia da atribuição do prémio, o mais importante dos países de língua portuguesa, criado em 1988, alguns dos contactados falaram da capacidade poética revelada nas suas letras, não faltando, nesse aspecto, referências a Bob Dylan, vencedor do Prémio Nobel de Literatura em 2016.
O certo é que Chico Buarque recebeu a unanimidade dos votos do júri desta 31ª edição: os brasileiros Antonio Cícero e Antônio Carlos Hohlfeldt, os portugueses Clara Rowland e Manuel Frias, a angolana Ana Paula Tavares e o moçambicano Nataniel Ngomane.
O anúncio da entrega do maior prémio de literatura em língua portuguesa, instituído por Portugal e pelo Brasil em 1988, foi feito ontem ao início da noite. Para além de Antonio Cícero, o júri incluía também Clara Rowland e Manuel Frias (Portugal), Antônio Carlos Hohlfeldt (Brasil), Ana Paula Tavares (Angola) e Nataniel Ngomane (Moçambique).
Pelo prémio, Chico Buarque, 74 anos de idade, o 13º escritor brasileiro a ser galardoado com o Camões, vai rebecer cem mil euros.
O júri do Prémio Camões 2019 realçou ter escolhido Chico Buarque tanto pela qualidade da sua obra, quanto pela sua “contribuição para a formação cultural de diferentes gerações em todos os países onde se fala a língua portuguesa”. Destacou ainda o “caráter multifacetado” do seu trabalho, que passa pela poesia, o teatro e o romance.
“O seu trabalho atravessou fronteiras e mantém-se como uma referência fundamental da cultura do mundo contemporâneo”, afirmaram os jurados. Apesar de ser mais conhecido como músico, Chico Buarque foi distinguido por três vezes com o Jabuti, o mais tradicional prémio brasileiro: em 1992 por “Estorvo”, em 2006 por “Budapeste” e em 2010 por “Leite Derramado”. “O Irmão Alemão”, de 2014, é o seu mais recente romance publicado.
Considerado por alguns um “grande escritor”, que poderia vencer o Nobel se “escrevesse numa língua menos secreta do que o português”, Chico Buarque é autor de uma vasta obra literária, a saber: “Chapeuzinho amarelo”, “Budapeste”, “Tantas palavras”, “Leite derramado” e “O Irmão Alemão”. No ano passado, o prémio Camões foi atribuído ao cabo-verdiano Germano Almeida.

Um angolano entre os vencedores

O Prémio Camões de Literatura em Língua Portuguesa foi instituído por Portugal e pelo Brasil, em 1988, com o objectivo de distinguir um autor "cuja obra contribua para a projecção e reconhecimento do património literário e cultural da língua comum".
O galardão tem um valor de 100 mil euros e foi já atribuído ao angolano Artur Pestana “Pepetela” (1997), tendo, em 2006, Lundino Vieira recusado aquele que seria a segunda premiação para o país. Entretanto, a distinção foi, pela primeira vez, para o escritor luso Miguel Torga (1989).
Os outros portugueses galardoados foram Vergílio Ferreira (1992), José Saramago (1995), Eduardo Lourenço (1996), Sophia de Mello Breyner Andresen (1999), Eugénio de Andrade (2001), Maria Velho da Costa (2002), Agustina Bessa-Luís (2004), António Lobo Antunes (2007), Manuel António Pina (2011), Hélia Correia (2015) e Manuel Alegre (2017).
Para além de Chico Buarque, os outros 12 brasileiros distinguidos são João Cabral de Melo Neto (1990), Rachel de Queiroz (1993), Jorge Amado (1994), António Cândido (1998), Autran Dourado (2000), Rubem Fonseca (2003), Lygia Fagundes Telles (2005), João Ubaldo Ribeiro (2008), Ferreira Gullar (2010), Dalton Trevisan (2012), Alberto da Costa e Silva (2014) e Raduan Nassar (2016).
Ao todo, um angolano, dois cabo-verdianos, dois moçambicanos, 12 portugueses e 13 brasileiros receberam o Prémio Camões.

Feliz e honrado

Chico Buarque disse ter, com o Prémio Camões 2019, ficado "muito feliz e honra-do, por seguir os passos de Raduan Nassar", o seu compatriota distinguido com o prémio em 2016.
"Fiquei muito feliz e honrado de seguir os passos de Raduan Nassar", refere a curta declaração divulgada pela assessoria. Escritor, compositor e cantor, Francisco Buarque de Holanda nasceu em 19 de Junho de 1944, no Rio de Janeiro.
Estreou-se nas Letras com o romance "Estorvo", publicado em 1991, a que se seguiram obras como "Benjamim", "Tantas palavras" e "O Irmão Alemão", publicado em 2014. Em 2017, venceu em França o prémio Roger Caillois pelo conjunto da obra literária.

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