Cultura

Colectivos de teatro clamam por espaço

A abertura de mais salas de teatro, para os grupos poderem exibir-se com regularidade e dignidade, continua a ser das maiores lutas dos fazedores desta arte, disse, ontem, em Luanda, a encenadora do Amor a Arte, Mariza Júlio.

Actores têm dado o grande contributo para sensibilização da população angolana
Fotografia: Mota Ambrósio | Edições Novembro

Os grupos, adiantou a encenadora, têm inúmeras dificuldades para encontrar salas de exibições e, por isso, acabam por limitar a apresentação de peças aos espaços já conhecidos, como Liga Africana, Elinga Teatro ou o auditório do Horizonte Njinga Mbande.
Por isso, a encenadora sugere a criação de mais locais ou a reabilitação de espaços culturais nos municípios, de forma a aproximar mais o teatro das comunidades. “Às vezes as pessoas têm de percorrer longas distâncias para assistirem a um espectáculo. O melhor é haver uma parceria entre o Governo da Província de Luanda e a direcção da cultura para a construção de salas nos municípios, cuja renda poderia ser dividida por ambos”, destacou.
As iniciativas privadas, esclareceu, têm sido, algumas vezes, as melhores saídas para o surgimento de novas salas, porém os preços cobrados em muitos destes espaços levam os grupos a desistirem. “Os donos das salas ficam com 60 por cento dos lucros”, contou.
Mesmo com o surgimento de mais duas salas adequadas para a exibição de espectáculos de teatro, na capital, o Royal Plaza e a Casa das Artes, o número fica, ainda, muito aquém da expectativa, devido à quantidade de grupos existente. “Desde que o Teatro Avenida fechou para reabilitação, há 12 anos, não foram encontradas soluções para minimizar a carência de espaços”, lamentou.
Os grupos, explicou, são, geralmente, integrados por mais de 10 elementos e é muito difícil fazer a gestão destes apenas com o dinheiro dos espectáculos, devido aos preços cobrados pelos responsáveis de certas salas. A maioria, prosseguiu, tem de pagar as salas e a publicidade. “Esses encargos, quando somados aos outros, levam os actores a não conseguirem nenhum lucro das actuações e a terem outras profissões para sobreviver”, disse.

Qualidade
Em termos de desenvolvimento técnico, Mariza Júlio defendeu que a classe artística, em particualr a ligada ao teatro, está melhor, principalmente depois de o Governo ter aberto duas escolas de artes, um instituto médio e um superior, onde os fazedores de artes desenvolvem as aptidões teórico e prático.
No entanto, apelou aos governos provinciais e administrações municipais a criarem Centros Profissionais de Artes nas comunidades, para apoiar “aqueles actores há muitos anos no mercado, mas que nunca tiveram a oportunidade de frequentar uma escola de artes ou ter formação noutras áreas.
Desta forma, sustentou, estes actores podem aumentar conhecimentos e aprender a rentabilizar financeiramente os grupos a que estão ligados. “As obras exibidas são de boa qualidade, por este motivo os espectáculos têm boa adesão do público. Os grupos estrangeiros já reconhecem a qualidade das peças e muitas companhias nacionais são convidadas a actuar além-fronteira. Agora só falta maior aposta na formação de quadros”, pediu.
A encenadora enalteceu, ainda, o valor social que o teatro tem nas comunidades, em especial na mudança de consciência. “O Governo deveria explorar mais esta vertente e realizar campanhas de sensibilização das comunidades, com os grupos de teatro do país”, defende.
O Amor a Arte, criado em 2007, conta com 14 integrantes. Os ensaios do grupo são no espaço da Xando produções, na Samba. No repertório do colectivo despontam peças como “O resultado”, “Escrito nas Estrelas”, “Cuidado com a boca” e “Distancia não é barreira”.

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