Comboio em busca de novas paragens culturais

Manuel Albano | Cambambe
20 de Setembro, 2014

Fotografia: Paulino Damião

Os ponteiros do relógio da estação ferroviária do Bungo marcavam 8h44 quando, na cinzenta e fresca quinta-feira passada, o presidente do conselho de administração do Caminho-de-Ferro de Luanda (CFL), Celso Rosa, desejou boa viagem aos 75 artistas que partiam para o Dondo, no âmbito do II FENACULT.

A expectativa era visível no rosto de todos. Às 9h37, o comboio parou na estação de Viana, para outros elementos da caravana artística entrarem. Muitos estavam a fazer esta viagem pela primeira vez.
Até à chegada a Catete, às 10h24, artistas e dirigentes aproveitaram para trocar impressões sobre o quotidiano e a vida artística. A partir de Zenza do Itombe, a caravana começou a ser alvo da calorosa saudação dos habitantes das aldeias por onde passavam e que lhes desejavam boa sorte.
A pouco e pouco, as paisagens verdejantes deram lugar ao capim seco, devido às chuvas que tardam em chegar. Mas nem por isso diminuiu a alegria contagiante com que acenavam aos artistas as muitas crianças, jovens e adultos das aldeias por onde o Comboio Cultural passou.

Primeiro acto


Enquanto alguns aproveitaram para tirar uma soneca e retemperar energias, os mais despertos ficaram a ganhar mais saber com a vigília, que lhes permitiu escutar atentamente as histórias de vida contadas pelos mais velhos.
A primeira actuação foi do grupo de música e dança tradicional Tunga Nzola, de Cabinda, que deu um pequeno espectáculo à parte, durante a chegada à localidade de Cassualala. Depois, actuou mais 22 minutos no município de Cambambe, primeiro destino da caravana.
O grupo, que existe há seis anos, assumiu o comando e interpretou temas tradicionais da província de Angola mais a norte. Ao som do batuque e das violas tradicionais, os 21 elementos que compõem o grupo contagiaram toda a gente com o ritmo das músicas, cujos temas falam do quotidiano das suas regiões.
O músico Ésio, que participou pela segunda vez no Comboio Cultural, considera-o uma experiência única e inesquecível. “Estamos unidos por uma causa única, que é a promoção da cultura angolana”, disse.
Entusiasmado, explicou que um dos melhores momentos foi quando os músicos interpretarem temas sem a ajuda de aparelhos electrónicos. “É incrível ver cotas e jovens a cantar apenas com acompanhamento acústico, e a trocarem ideias sobre eventuais projectos”, destacou.
Ésio confessou que quer saber mais sobre as línguas africanas de Angola, como o quimbundo e o umbundo. “Quero cantar mais em dialectos nacionais, por isso, quero melhorar essa vertente. É também uma forma de preservar o meu legado cultural e artístico”, disse o filho do falecido Artur Adriano.
O músico está a trabalhar no seu segundo disco, “Tendências”, no qual vai fazer uma homenagem ao pai com a interpretação do tema “Belita”. “Tendências”, explicou, é a sua aposta na criatividade e na diversidade.

Exposição andarilha

 
Guilherme Kaniaki, curador e coordenador da exposição itinerante de artes plásticas do Comboio Cultural, disse que estão expostos, nas carruagens, 67 trabalhos de pintura, escultura, fotografia e artesanato.
O também artista plástico explicou que tem sido uma experiência positiva, por permitir divulgar as artes junto das comunidades. “Há pessoas que estão a pedir para o comboio ficar mais tempo nas paragens, em particular os estudantes, para terem mais contacto com os criadores”, adiantou.
Mais 1.200 pessoas já visitaram a exposição nos Comboios Culturais que partiram de Luanda. Em Ndalatando, o primeiro deles foi o que mais visitantes teve, num total de 700 pessoas.
Para o artista plástico Massamba Lema Massosa, do Uíge, que pinta há 22 anos, o Comboio está a ser uma experiência positiva, por permitir estar em contactos com os trabalhos de outros criadores. O artista tem 12 pinturas e três esculturas expostas.
Guilherme Kaniaki também tem dois quadros, pintados em acrílico, denominados “Os bons tempos do quimbo” e “A responsabilidade é de todos”. Os trabalhos do artista de Luanda retratam a vivência dos africanos, a educação, a família e a importância de se valorizar mais os costumes tradicionais, numa sociedade cada vez mais consumista e individualista.

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