Conjunto Kiezos aplaudido na cidade do Porto

Jomo Fortunato | Porto
18 de Julho, 2016

Fotografia: Cláudia Veiga

O projecto “Ressonância magnética”, extensão internacional da III Trienal de Luanda,  acolheu na Casa da Música do Porto os concertos do conjunto Kiezos e Banda Next, no dia 16 de Julho, numa programação que incluiua exibição da peça teatral, “Laços de Sangue”,

representada pelos actores Meirinho Mendes e Raúl Rosário e um debate cultural transmitido pela Rádio MFM.
A mostra representativa da cultura angolana, que decorreu de 18 de Junho a 17 de Julho  de 2016, levou à cidade do Porto o cantor e compositor Jorge Rosa, que interpretou clássicos de Sofia Rosa e Ilda Rosa, João Oliveira, pianista e autor do projecto “Kutonoka”, grupo Kituxe, que representou a música tradicional angolana, e o cantor Ndaka Yo Wiñi, a mais jovem presença no domínio da nova vaga do afro-jazz.
Depois de Niterói, Brasil, e São Tomé e Príncipe, coube a vez do Porto acolher artistas angolanos, cidade que vai albergar, brevemente,  a sede da Fundação Sindika Dokolo, instituição que  realiza a III Trienal de Luanda.
 Na verdade, pretende-se com este conjunto de projectos dar a conhecer e valorizar a cultura angolana, nas suas mais diferentes realizações e actualizações artísticas, ao mesmo nível que outras manifestações do mesmo padrão artístico internacional.
Segundo podemos ler no seu prospecto informativo: “A Fundação Sindika Dokolo tem desenvolvido nos últimos anos uma política cultural responsável e consciente, conceptualizando e produzindo instrumentos e mecanismos culturais, económicos e políticos,  visando o pleno  desenvolvimento da cultura angolana.
Nesta perspectiva, revela-se urgente criar um edifício cultural de feição multidisciplinar, para permitir a continuidade do movimento e das acções artísticas em Angola  e no mundo com a intenção  de desenvolver uma estratégia comoutras cidades e nações africanas, numa  rede de parcerias sólidascom instituições internacionais”.
Neste sentido, a extensão do projecto “Ressonância magnética” em Portugal, visa a concretização de um conjunto de acordos culturais celebrados entre a  Câmara Municipal do Porto e a Fundação Sindika Dokolo, no âmbito da III Trienal de Luanda, que vai levar àquela cidade diversos artistas angolanos, realçando sempre os padrões de qualidade nos domínios da música, teatro, artes plásticas, comunicação, conhecimento,  e conferências, fortalecendo, desta forma,  os laços culturais entre Angola e Portugal.

Espaços

Os eventos angolanos na Cidade do Porto decorreram na Casa da Música, Teatro Passos Manuel e Auditório Almeida Garrette.
 A Casa da Música, projectada pelo holandês Rem Koolhaas, tem uma programação artística anual, e muitos dos seus eventos decorrem na Sala Suggia, considerada o coração da Casa da Música, assim baptizada em homenagem à violoncelista portuense Guilhermina Suggia, expoente mundial do instrumento na primeira metade do século XX.
 O Teatro, aberto ao público no dia 26 de Novembro de 1971,  faz parte do Cinema Passos Manuel, e nasceucom o Coliseu do Porto onde se situava o Salão Jardim Passos Manuel, que chegou a servir como cinema, entre 1908 e 1938. Encerrou temporariamente em 2002 e abriu no dia 8 de Novembro de 2004, com um novo âmbito, serve o cinema, pontualmente, e mantém  as máquinas de projecção originais.
 Tornou-se um espaço multiusos onde decorrem cinema, teatro, dança e concertos de música.  Por sua vez o Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, onde foi exibida a peça “Laços de sangue”,  é um espaço de grande qualidade arquitetónica, com ligação ao jardim onde está inserido, e está dotado de um moderno equipamento de som, projecção e iluminação cénica.
 “Laços de sangue” foi dirigida por José Mena Abrantes, encenação, Rogério de Carvalho, desenho de luzes, Jorge Ribeiro, sonoplastia, Sebastião Delgado e guarda-roupa de Alex Kangala.

Banda

Criada em Julho de 2008,a Banda Nextfez a segunda parte do concerto de Carlitos Vieira Dias no dia 8 de Janeiro de 2016 no Palácio de Ferro, e  dividiu o palco com o conjunto os “Kiezos” na segunda parte do concerto da Casa da Música no Porto. Nuno Mingas, vocalista principal, definiu nos seguintes termos o primado estético do grupo: “ A nossa música é uma fusão e carrega consigo uma sustentação teórica, assente no  diálogo  e valorização dos clássicos da música angolana, com segmentos do rock e da generalidade dos sucessos da música ocidental”. Num concerto inédito,  pela sua estrutura e conceptualização estética, a Banda Next apresentou-se com  Nuno Mingas, vocal, arranjos e composição, Ivo Mingas, viola ritmo, João Carlos, baixo eléctrico, Brandão Drums, bateria, Cloves Esteves, guitarra solo, Dalú Roger, percussão, e Direcção artística de Fernando Alvim. A Banda Next funde canções referenciais da Música Popular Angolana, com segmentos de rock, e referências da soul musica norte americana, entre outros sucessos da música ocidental.

Kiezos

Sem o contributo do lendário guitarrista Marito Arcanjo, o conjunto os Kiezos não teriam a magnitude artística e a importância histórica que os coloca, de forma inequívoca, no ponto mais alto da alma musical angolana de feição urbana. Marito Arcanjo recebeu do histórico Duia, figura carismática do conjunto os Gingas, as primeiras lições de guitarra na casa da sua irmã, Mana Didi Arcanjo.  Muito cedo, o jovem Marito revelou possuir uma extraordinária capacidade de assimilação, tendo demonstrado uma notável destreza no uso da guitarra, recriando os solos do Franco, o célebre guitarrista do Congo Democrático. Tudo começou no bairro Marçal, mais propriamente na zona do “Kapolo Boxi”, quando Domingos António Miguel da Silva, Kituxe, uma figura indissociavelmente ligada à fundação dos Kiezos, reuniu um grupo de quatro jovens entusiastas, com propensão natural para a música, e criou um grupo anónimo que animava as noites quentes do Bairro Marçal. 
Este grupo, que no início dos anos sessenta extraía sons de instrumentos artesanais, cedo foi crescendo e começou a tomar forma. Em 1963, Kituxe convida  Tininho e, logo depois, Aristófanes Rosa Coelho, Adolfo Coelho, dikanza e voz, jovem que assistia, com frequência, os ensaios do referido grupo. Na sequência, Adolfo Coelho solicita os préstimos de Anselmo de Sousa Arcanjo, Marito, uma figura que irá marcar, de forma definitiva, a história do conjunto “Os Kiezos”.
Marito Arcanjo, genial guitarrista com nome gravado na história da Música Popular Angolana, nasceu no dia 12 de Maio de 1948, em Luanda. Marito Arcanjo retornou aos palcos, depois de longa ausência, em Agosto de 2002 e no dia 9 de Maio de 2010, como figura de cartaz  do “Muzonguê da Tradição”, ciclo de espectáculos dominicais organizado no Centro Recreativo e Cultural Kilamba, em Luanda. A designação, Kiezos, surgiu em 1965 num ambiente de uma festa na B3, rua luandense do Bairro Nelito Soares, convívio onde os músicos que iriam formar mais tarde os “Kiezos”, não tinham sido convidados. O facto é que os intrusos animaram de tal forma a festa, que se levantou a poeira do quintal, consequência da frenética animação dos dançarinos, situação que provocou a associação do efeito provocado pelo pó à varrida de uma vassoura. “Iezo” é uma palavra, em língua kimbundu, que, traduzida para a língua portuguesa, é sinónimo de vassoura. O baptismo “Kiezos”, nome que perdura até aos nossos dias, é plural de “iezo”, ou seja, vassouras.  De 1964 a 1965 situa-se a data provável da primeira formação do grupo, entendido como constituição musical com alguma seriedade criativa e solidez artística.
Embora a marca do nome permaneça intemporal, o conjunto “Os Kiezos” foi sofrendo várias metamorfoses ao longo da sua existência. A nova geração, que se apresentou na Casa da Música do Porto, inclui os seguintes  instrumentistas: Manuel Claudino, voz, Mister Kim, voz, Hidelbrando Cunha, guitarra solo, Gegé faria, guitarra contra-solo, Zeca Tyrilene, guitarra ritmo, Dulce Trindade, baixo eléctrico, Tony Samba, teclas, João Diloba, bateria, e Habana Maior, tumbas.

Trienal

A Fundação Sindika Dokolo realizou no dia 12 de Dezembro de 2015, na Mediateca de Luanda, a conferência de abertura da III Trienal de Luanda, que arrancou no dia 1 de Novembro de 2015, e vai até 30 de Novembro de 2016, sob o signo “Da utopia à realidade”. Na ocasião, o patrono da fundação homónima, Sindika Dokolo, afirmou que “a Trienal de Luanda é muito mais do que um espaço de arte, tendo considerado um símbolo de liberdade, e espaço para alargar o espectro do diálogo cultural. Não queremos imitar ninguém, pretendemos uma Trienal única que valoriza a nossa história recente, representando uma festa não só em  Luanda, mas um concentrado cultural que gostaríamos de dividir com o maior  número de pessoas possíveis”. A programação de concertos da III Trienal, desde  Luanda a vários quadrantes do mundo, pretende enaltecer a qualidade artística dos cantores, compositores e instrumentistas angolanos, valorizando um segmento musical reflexivo e experimental, que, normalmente, está distante do grande sucesso comercial da música de consumo imediato”.

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