Cultura

"Convocatória, Chicala forever" um tributo de Nelo Teixeira

Jomo Fortunato |

Num processo de reconstituição emotiva e intelectual da memória, Nelo Teixeira reutiliza e consagra em arte, um conjunto de objectos de proveniência inusitada, imagens inéditas e propostas gráficas surreais, de importância aparentemente secundária e residual, conferindo ao dispensável um estatuto de valorização artística, inequivocamente indispensável à compreensão da sua profunda e apaixonada visão do mundo.

Próxima exposição de artes plásticas de Nelo Teixiera é um tributo sentimental do artista por via da pintura à Chicala, bairro em fase de gradativa extinção
Fotografia: Edições Novembro

Em entrevista concedida ao jornalista, Norberto Pires, do portal “Bué fixe”, no dia 20 de Outubro de 2016, Nelo Teixeira respondeu o seguinte, a propósito de como terá surgido a sua afeição pela pintura: “O meu gosto pela pintura surgiu de uma linhagem familiar e do incentivo de muitos pintores. Na condição de carpinteiro fazia as bases das telas e os artistas viam que eu tinha talento para tal. No entanto, tive educação artística na família e na escola, em termos gerais, globais. Praticamente, sou um auto-didacta assumido. Estou na arte mas vim da carpintaria, como disse, e os meus mestres da pintura, fora de Angola, são o Vincent Van Gogh, Pablo Picasso, Leonardo da Vinci e Salvador Dali. Dos pintores angolanos, destaco os que, de forma incontornável, influenciaram a construção da minha obra, António Ole, Jorge Gumbe e Van”.
Nelo Teixeira vive e trabalha em Luanda, estudou pintura e escultura nos “Workshops” promovidos pela UNAP, União Nacional dos Artistas Plásticos. Formado em carpintaria, criou cenografias em diversos filmes, dos quais destacamos, “A cidade vazia”, da realizadora Maria João Ganga, “Herói”, Zezé Gamboa, “Ponto de Encontro, Hugo Vieira da Silva, e nas peças teatrais, “As bondosas”, José Mena Abrantes, e o “Preço do Fato”, com encenação de Adérito Rodrigues. Nelo Teixeira tem exposto regularmente, desde 2000, e teve participação na segunda edição do JAANGO, Jovens Artistas Angolanos, movimento de arte angolana contemporânea que engloba artistas dos mais variados domínios da arte, no Museu Nacional de História Natural de Luanda, em 2013. Neste ano fez parte da terceira edição da “Ponte Cultural Angola-Israel”, um intercâmbio cultural na cidade de Telavive, que consistiu num conservatório entitulado “Danalogue” em prol do trabalho e do diálogo comunitário, em memória da jovem voluntária Dana Maor, onde paticipou numa Exposição Colectiva. Ainda no mesmo ano participou nas exposições colectivas “Sobumba” e “Arte 100 Fronteiras”, ambas em Angola. Logo depois participou na componente “Reciclarte”, no projecto “Orgulho em ser angolano” e no leilão da “Bonham’s” de arte africana, Londres, Reino Unido.
Nelo Teixeira trabalha com materiais reciclados, dada a influência do tio. Desde a década de 1990, integra o grupo “Os nacionalistas”, sendo membro de pleno direito da UNAP, União Nacional dos Artistas Plásticos, desde 1996. Nelo Teixeira expõe regularmente desde 2000 em várias exposições colectivas na então Galeria Celamar, Humbiumbi, Elinga Teatro, “Soso” Arte Contemporânea, Associação 25 de Abril e BAI-arte. Em 2015 fez parte de exposição colectiva no  Pavilhão de Angola na 56ª Bienal de Veneza, Exposição Internacional de Arte, que teve lugar no Palazzo Pisani, em Campo Santo Stefano, com a exposição “Sobre as Formas de Viajar”, onde desenvolveu um trabalho em que a madeira foi a estrutura de base, incorporada no conceito, “object trouvé”. Em 2016 as suas obras estiveram expostas no stand do “ELA , Espaço Luanda Arte”, na nona Edição da Feira de Arte “FNB Joburg Art Fair”, na África do Sul. Ainda no mesmo ano fez uma exposição individual de nome “Kilapi” no “ELA” e outra no Banco Económico, denominada “Not Bok”.
Filho de Joaquim Martins Teixeira e de Suzana de Oliveira Carlos, Manuel de Oliveira Martins Teixeira, nasceu no Ambrizete, Província do Zaire, no dia 14 de Fevereiro de 1974.

Chicala

Nelo Teixeira trabalha e reside, desde 1993, no Bairro da Chicala onde criou o atelier “Só Bumba”, que tem desenvolvido várias parcerias com movimentos artísticos e projectos solidários. Da sua família, herdou também a arte de criar máscaras e tem vindo a desempenhar um papel importante na comunidade artística de Luanda, onde ensina às gerações mais novas algumas das suas técnicas”. Sobre os materias com que trabalha, Nelo Teixeira disse o seguinte: “Trabalho muito com materiais reciclados e resíduos. Tento explorar quase tudo, metais, plásticos, alumínios, vidros, tintas, até porque Luanda é uma cidade muito rica em resíduos, aos quais associo toda a inspiração que alimenta a minha criação artística”.

Convocatória

A exposição “Convocatória, Chicala forever”, segundo as palavras de Nelo Teixeira, “Retrata a vivência e memória do passado de uma geração que viveu na Chicala que tinha os seus sonhos, porque vi este espaço a crescer e estou a assistir o seu desmoronamento, com a ida da sua população para o Zango. A verdade é que estas gerações, muitas das quais nasceram neste espaço foram transferidas para outros lugares e houve como que uma transmutação de desejos, paixões e projectos. A Chicala foi o bairro que me deu a energia para ser o artista que sou hoje, por esta razão a exposição “Convocatória, Chicala forever”, tem uma importância simbólica para mim”. De notar que, “Convocatória, Chicala forever”, foi concebida e desenvolvida por Nelo Teixeira em colaboração com o “ELA”, Espaço Luanda Arte, onde o artista se encontra em residência artística, desde Setembro de 2017.

Colecções

As obras de Nelo Teixeira pertencem a várias colecções nacionais e estrangeiras, das quais destacamos as mais importantes, Colecção Paulo Murias, colecção privada, António Seguro, Fundação Arte e Cultura, Nuno de Lima Pimentel Collection, Colecção do Fundo Soberano de Angola, Colecção Presidente Business Centre, colecção António Nascimento, todas em Luanda, e colecção Costa Lopes, Lisboa, Portugal.

Depoimento de Lino Damião sobre o companheiro de trabalho


Lino Damião
, artista plástico, conviveu com Nelo Teixeira, e fez o seguinte depoimento sobre o artista, enquanto companheiro: “Nelo Teixeira entrou para o universo da arte quando começou a observar as ferramentas do seu trabalho e tudo que o rodeava de maneira diferente, ou seja, tudo podia ser integrado no universo artístico e transfigurado em peças de arte. Sempre empenhado no desenvolvimento do seu trabalho, enquanto carpinteiro, Nelo Teixeira produzia as nossas molduras e sempre acompanhouos nossos eventos e exposições.
Foi a partir dessa experiência que ele começou a absorver as técnicas da pintura, os conceitos e formas de estar nas artes plásticas. Ele chegou a frequentar o meu atelier no edificio da UNAP, União Nacional dos Artistas Plásticos. Um tempo depois, e de forma surpreendente, Nelo Teixeira já esculpia grandes troncos e misturava óleos e acrílicos, pedaços de papéis, chapas, jornais entre outros resíduos. Há um aspecto muito importante da sua personalidade, sempre soube aceitar, com a humilde que lhe característica, as críticas dos seus amigos”. 

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