Criação poética intensamente costurada no feminino

Jomo Fortunato|
27 de Abril, 2015

Fotografia: Eduardo Pedro

A sensibilidade da escrita de Chó do Guri, aflora rumos lexicais e marcas de  individualização temática, só possíveis no universo existencial da mulher.

Romeu nunca desempenharia o papel de Julieta, ou seja, cada desempenho no seu galho. A solidão, a miséria, o amor e a metaforização do inédito, estão presentes no conjunto de uma obra homóloga à vida, intensamente “costurada” no universo de criação feminina. 
Chó do Guri venceu o Prémio da CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, do  Instituto Marquês de Valle Flor com o livro, “Chiquito da Camuxiba”, um romance que narra o quotidiano das crianças que vivem do seu trabalho na Camuxiba, próximo do mar, que acabam por ajudar as despesas domésticas de várias  famílias. Chiquito é uma criança luandense  que, na praia da Camuxiba, município da Samba, orientava as donas de casa na compra do peixe, indicando as peixeiras que vendiam mais barato.
Filha de pai incógnito, e de Maria António Lino, Maria Fátima de Morais, Chó do Guri, nasceu no dia 24 de Janeiro de 1959, na Quibala, Província do Kwanza Sul. Quando contava apenas dois anos de idade,  veio para Luanda onde residiu com a mãe, no Bairro Operário, espaço referenciado, literariamente, numa das suas obras mais conhecidas.  Aos quatro anos de idade viveu internada nas madres da Igreja São Domingos, em Luanda, onde concluiu os estudos primários e secundários. Possui o curso médio em ciências biológicas, frequentou o curso de ciências farmacêuticas, na Faculdade de Farmácia da Universidade Clássica de Lisboa, tendo concluído o curso superior na área da acção social, da Universidade Aberta de Lisboa.

Publicações

Chó do Guri publicou o seu primeiro texto poético, no jornal mural da Associação de Estudantes Angolanos em Portugal, em 1988, e é autora dos seguintes títulos bibliográficos: “Vivências (poemas, 1996), traduzidos em francês e inglês, “Bairro operário”, a minha história (contos, 1998), Morfeu (poemas, 2000), “Chiquito da Camuxiba” (Romance, 2006),  “Na boca árida da kyanda” (Poemas, 2006), “A filha do alemão” (Romance, 2007), traduzido em alemão pelo Ghoethe Institut,  “Songuito e Katite” (conto infanto-juvenil, 2009), “A perversa” (2012), e  o “O cambulador” (2013). No romance “A perversa”, Chô do Guri  revisita o erotismo: “Com todo o seu domínio de matrona tornou-se perversa. Entregou-se ao amor pragmático e exuberante com a perícia de quem, algum dia, fora amada com tanto fervor como fizera com ele. Mónica desfrutou-o quanto pôde, determinando as posições para o acto. O prazer que lhe dava o sexo e a vontade”.

Poesia

O poema “Cântico sofrido”, do livro “Morfeu”, passou para a música com o Duo Canhoto, e está incluído no CD, “Lado esquerdo”: “Isto não é poema / É o meu grito de angústia/Na boca do povo em algazarra / É lamento na rua /  “é lambula, lambula, lambulééé...” /  como um cântico à desgarrada / I sto não é poema / É a dor do desconsolo / Ao aperto da miséria/ “menos preço, menos preço, menos/ preçoééé...” /  como um cântico à desgarrada/Isto não é poema / É vida? /  É morte? /  Então o que é / Se o meu poema ainda dorme/ Com a boca de fome / Como soneto da casa sem pão/Que faz do filho um ladrão / “agarra o ladrão, agarra o ladrão, agarro ladrãoééé...” /  como um cântico à desgarrada /  Isto não é poema/ É lamento / É o cântico sofrido de um discurso sem fim /  “é lambula, é lambula, é lambulééé...!  / menos preço, menos preço, menos preçoééé...!  /  agarra o ladrão, agarra o ladrão, agarra o ladrãoééé...!”
Densa de lirismo, a poesia de Chó do Guri explora até à exaustão, o amor e suas envolvências sentimentais: “Apalpo os teus olhos  /  na noite / mordo os meus lábios  /  silenciados pelo teu gesto/ vernacular  /  que me anuncia a escuridão / oh noite enlevada de breu / o lacónico piso da seda ocular / me entrega solene à Morfeu/ Ah! como é bela a noite entre tu e eu / nos cílios do céu, lemos no poema Morfeu.

 Depoimentos

Ricardo Manuel, poeta, figura histórica e simbólica da Livraria Lello, escreveu o seguinte sobre a escritora: “Chó do Guri nas suas vivências na vida não cala a mágoa de queixumes doloridos e, esbate em tons amargos as figuras empobrecidas dos meninos inquilinos da rua, das prostitutas, quantas vezes incompreendidas!, de almas que amam e são desamadas e dos homens desatentos aos conflitos que tanto apoquentam a humanidade”. Por sua vez António Fonseca,  referindo-se ao livro, “A Filha do Alemão”, disse ser uma história contada ao longo de mais de meio século “com uma grande carga emocional e intensidade dramática”.
Por ocasião do lançamento do livro “Na boca árida da kyanda”, o escritor e crítico literário Jorge Macedo, escreveu o seguinte: “Chó do Guri menciona os espaços da sua vida, interpelando o sofrimento de pessoas, porquanto ela não se conforma com o mal.  Com o seu talento, a escritora apresenta, nesta obra poética, a sua luta contra o mal e uma mensagem de esperança numa Angola cada vez melhor”.

Antologias

A poesia de Chó do Guri está incluídas nas antologias: “O amor tem asas de ouro”, “Antologia da poesia feminina angolana e todos os sonhos”, “Antologia da poesia moderna angolana”, editadas pela União dos Escritores angolanos”, “Contos inéditos de autores angolanos”, BESA, e em várias publicações e periódicos dispersos, quer em Angola, como no  estrangeiro,  tais como, “Revista camoniana”, Brasil, “Livro de micro-contos”, Portugal, poesia na brochura do VII Encontro Internacional de poetas da Universidade de Letras de Coimbra.

Congresso

Chó do Guri participou em Abril de 2005,  no II Congresso Internacional da Mulher, que aconteceu sob o signo,  "A vez e a voz da mulher", realizado na Universidade de Berkeley, no Estado da Califórnia, Estados Unidos da América. O certame teve como um dos seus principais objectivos, a concretização dos objectivos traçados pelas Organização das Nações Unidas no que concerne ao papel da mulher na sociedade globalizada, que, segundo Chó do Guri, “revela reconhecimento e valorização do trabalho realizado pelas artistas angolanas em prol do desenvolvimento e reconstrução do país”. Chó do Guri abordou no Congresso “o engajamento da mulher angolana na vida social, e na  luta pela melhoria das condições de vida das populações, particularizada, na classe feminina”.  À margem do congresso, a escritora falou, na Universidade de Los Angels, sobre a situação social da mulher angolana.

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