Criação artística e problematização dos cânones estéticos

Jomo Fortunato |
28 de Dezembro, 2015

Fotografia: Cláudia Veiga

Inquieto e superlativamente criativo, Januário Jano tem desenvolvido a sua expressividade artística pintando murais na rua, recortando jornais e revistas para criar “scrapbooks”, colagens feitas substancialmente com fotos e papéis, explorando diferentes formas criativas, numa perspectiva de reconstituição da memória, reutilizando materiais inusitados, e ícones passíveis de transfiguração artística.

Numa longa entrevista concedida no âmbito do projecto “Arte e história, arquivos culturais” da Fundação Sindika Dokolo, no Palácio de Ferro em Luanda, Januário Jano, também conhecido por Jano Macbeebbo, definiu, nestes termos, os contornos conceptuais da sua arte: “Logo no início, desenvolvi o hábito de explorar  várias formas de criar imagens, da arte de rua à arte convencional. Na verdade, sinto a necessidade de materializar ideias e, nesse sentido, de desenvolver o trabalho de pesquisa de forma qualitativa. Esse aprofundamento permite-me compreender melhor os cânones estéticos e culturais existentes, guiado pela minha prática e pelo meu papel enquanto artista. A necessidade de desafiar os limites da arte, explorando o passado e presente, usando a minha própria linguagem expressiva, permite-me melhorar, num constante aprofundamento, tendo como base o interesse que tenho em explorar o conhecimento em diferentes domínios”.
De facto, Januário Jano pretende construir a sua base de compreensão, explorando as várias dimensões da estética e da cultura, um trabalho que vem desenvolvendo há longos anos, no percurso da sua carreira. Na tessitura da sua obra pictórica, encontramos vários símbolos culturais, dos quais se destacam hieróglifos e sinais de grande relevância cultural, que se fundem com memórias de infância e expressões de desenhos animados, confluindo na criação do seuestilo mais expressivo, a que designa, os “Kwickspop”.

Imprensa

Numa nota de imprensa divulgada por ocasião da exposição de pintura e instalação artística “PrivateSpace”, que esteve patente ao público na Galeria Geraldes da Silva de 22 de Novembro a 11 de Dezembro de 2014, lemos o seguinte: “Januário Jano desenvolveu desde muito cedo o hábito de explorar várias maneiras de criar imagens, sendo que aos 14 anos pintou o seu primeiro mural com temas dos desenhos animados que mais gostava. Como artista, desenvolveu uma linha única de expressão artística que já tem sido recomendado em plataformas nacionais e internacionais, os “Kwickspop”, trabalhos feitos com base em desenhos animados.Gosto de desafiar as fronteiras da arte através da exploração do passado e do presente, utilizando a minha própria linguagem para me exprimir, os “Kwickspop”, isto permite-me avançar cada vez mais, edesenvolver, constantemente, o meu estilo pessoal”.

Formação


Artista plástico, designere consultor de marcas e fundador da “Coconote Stúdio”, impulsionador da comunicação visual e cultural, líder e anfitrião do evento TEDx Luanda, Januário Jano trabalhaem pintura, instalação, vídeo e fotografia, e concluiu uma pós-graduação, aprovada com distinção BA (Hons), em Estudos de Design, na ex-UniversidadeGuilhall, actual London MetropolitanUniversity, em 2005. O seu interesse pela estética e cultura, dentro de um contexto social, faz com que o seu trabalho se concentre actualmente em pesquisas e estudos, nestes dois domínios.Tem desenvolvido diferentes projectos, como o D&AD degree show, GuildhallUniversitySummer Show, RoyalCollegeofArts pela YCN, Projecto InsideOut Luanda,e  Semana do design gráfico.

Exposições

Para além de ter participado em vários projectos e colaborações, ao longo da sua carreira,Januário Jano fez várias exposições em diferentes países, das quais destacamos as seguintes: “Project jaango”, Museu de História Natural, Siexpo, 2013, Luanda, “Noise”, Centro Cultural Português, Instituto Camões, Luanda, Curadora, Suzana Sousa, 2014, “PrivateSpace”, Galeria Geraldes da Silva, Porto, Portugal,2014, “África nowbydesignindaba”, Cidade do Cabo, África do Sul, 2015, “Thesubstanceofabstraction”, Curadora, Chiara Mortaroli, Galeria Agora, Nova Iorque, Estados Unidos da América, 2015, “Theotherart fair”,Londres, e Bristol, Inglaterra, 2015, “Pop orgy”, “Projecto seedsofmemory”, curadora, Suzana Sousa, Milão, Itália, 2015, e “Unorthodox”, curadores, JensHoffman&KellyTaxter, Museu Judaico, Nova Iorque, Estados Unidos da América, 2015.

Trienal

Januário Jano foi um dos convidados do projecto, “Arte e história, arquivos culturais” da III Trienal de Luanda que arrancou no dia 1 de Novembro de 2015, vai até 30 de Novembro de 2016. Sobre a criação dos murais para a III Trienal de Luanda, Januário Jano disse o seguinte: “Os murais que vou desenvolver para a III Trienal de Luanda, serão criados em torno do que normalmente faço com os “Kwickspop”. No entanto, poderá haver uma certa diferença em relação ao contexto de cada peça, ou seja, vou abordar, por exemplo, o tema “Da escravidão ao fim do apartheid”, um dos signos da Trienal, e um outro trabalho criado, exclusivamente,para o referido certame.
Importa referir que a III Trienal de Luanda está dividida em artes visuais, com exposições de arte clássica e contemporânea, comunicação que prevê a edição de jornais, revistas, catálogos, edições e reedições de títulos bibliográficos fundamentais para a compreensão da história literária e cultural angolana, programas de rádio e televisão, fóruns, que inclui um extenso ciclo de conferências, sessões de teatro, concertos, e programas de educação, que prevêem visitas de estudantes de diferentes níveis de ensino, nos espaços da III Trienal de Luanda.
O projecto “Arte e história, arquivos culturais” da III Trienal de Luanda, consiste na realização e produção de entrevistas em vídeo e áudio, de 60 minutos, 30 minutos e 15 minutos com o objectivo de constituir uma base de dados do pensamento contemporâneo angolano e africano. Estes arquivos servirão de base para os conteúdos dos projectos de comunicação da III Trienal de Luanda”.

Depoimento

Sobre a exposição colectiva de vídeo e instalação “Noise”,que teve a participação de artistas de Angola, Moçambique, Nigéria, Zimbabwe, incluindo Januário Jano, realizada em Maio de 2014,no Centro Cultural Português, em Luanda, a curadora Suzana Sousa fez o seguinte depoimento: “A exposição “Noise” aborda o ruído de fundo de uma cidade em convulsão. O barulho das ruas, das pessoas, da construção maciça, do tráfego e também o ruído da comunicação, no qual alguns incluem o ruído físico, exterior ao emissor e ao receptor, que torna difícil, ou impossível, ouvir e entender o que é dito. “Noise” trabalha sobre o desenfreado crescimento urbano em África, acentuado nos últimos 20 anos, que trouxe para a cidade novas influências, novos hábitos e novos “ruídos”.
“Essas mudanças trouxeram consigo novas formas de expressão artística e cultural. Esta mostra pretende ilustrar e suscitar a reflexão em torno deste fenómeno urbano, transportado para o espaço do Instituto Camões através de uma mostra de “street art”, de Januário Jano. “Noise” visa atrair e sensibilizar o público para novas formas de expressão artística em Angola e em África, protagonizadas por artistas que, normalmente, não vêem os seus trabalhos apresentados em salas de exposição tradicionais e têm aqui uma oportunidade para respectiva divulgação”

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