Criação de um prémio de poesia em línguas nacionais

Jomo Fortunato |
28 de Julho, 2014

Fotografia: Francisco Pedro

A criação de um prémio de poesia em línguas nacionais, tomamos o adjectivo na acepção de pertencentes e originárias da nação angolana, e não no sentido da extensão do mapa linguístico e número de falantes, seria uma forma de valorizar a literatura oral, constituindo um motivo de evasão metafórica,

incentivo à produção de um corpus poético centrado filosofia dos costumes identitários e nos valores culturais da angolanidade.
Na hipótese mais optimista, a criação do prémio poderia contribuir para a consciencialização e respeito dos valores literários e culturais veiculados nas línguas angolanas, motivando os jovens poetas e escritores, em geral, a desenvolver e aprofundar as suas aptidões literárias, sobretudo a nível das línguas de raiz bantu, dentro de um espírito de competição saudável, motivando o prolongamento dos vários níveis de apreciação crítica e de pesquisa linguística.
Julgamos que a protecção do património cultural imaterial- que engloba os saberes, os modos de produção, as formas de expressão, as celebrações ritualísticas, as festas e danças populares, lendas, músicas, costumes e as tradições mais variadas- passa pela preparação dos instrumentos de apoio ao sistema de ensino das línguas nacionais, tendo como material didáctico de base, o texto literário.
As obras resultantes do prémio de poesia em línguas nacionais, se introduzidas no sistema de ensino, poderiam aumentar o número de falantes, com escolaridade e a sua reutilização na estrutura textual da Música Popular Angolana. Seria um processo, paulatino, que redundaria na introdução das referidas línguas na administração, concretizando a  funcionalidade comunicativa dos actos administrativos, com as populações rurais.

Media

A rádio e a televisão, pioneiras na introdução das línguas nacionais nas suas grelhas de programação, têm estado a diminuir o espetro das assimetrias, em matéria de informação geral das populações. Daí que a transmissão dos aspectos culturais mais representativos da angolanidade, devem constar nos  planos escolares, no âmbito da formação artística, sendo os textos literários, uma importante fonte e veículo de conhecimento.
A fixação e a estabilização das normas ortográficas das línguas côkwe, kikongo, kimbundu, Nyemba (gangela), Oshikwanyama e umbundo, e o estudo dos aspectos fonéticos, fonológicos, morfossintácticos, lexicais e semânticos, um trabalho desenvolvido pelo Instituto de Línguas Nacionais, veio contribuir para estabilidade ortográfica da escrita, um importante avanço, por muitos desconhecido, para o desenvolvimento da imprensa, em línguas nacionais.

 Edições

 O fomento da edição de obras literárias de autores angolanos, em línguas nacionais, vai assegurar a presença do livro angolano, endógeno, no mercado nacional e internacional, propiciando o desenvolvimento de uma estratégia de promoção da leitura, de acesso ao livro e à informação, fortalecendo o espólio da rede de bibliotecas, arquivos, centros de documentação, incluindo o mercado  livreiro.

 Ensino

 A desagregação das famílias nas comunidades rurais, com a guerra, redefiniu um novo quadro de falantes, com um pobre, ou quase nulo, conhecimento das línguas nacionais. O terceiro encontro sobre línguas nacionais, realizado na província do Huambo, em 2008, constituiu um momento para a inclusão das línguas nacionais no no sistema de ensino.  O evento, que contou com participações de especialistas angolanos e estrangeiros, pretendeu conhecer  o estado actual das línguas nacionais, e perseguiu os seguintes objectivos: incentivar os investigadores, estudiosos, artistas, criadores, principalmente músicos e intérpretes a reflectirem sobre o património linguístico angolano, contribuir para a implementação da dignidade, unidade e preservação dos valores da cultura nacional, bem como determinar as futuras acções a empreender na normalização de todas as línguas nacionais. Foram ainda abordados os seguintes temas: “Línguas nacionais e seus alfabetos”, “línguas nacionais como matéria de ensino” e “línguas nacionais transfronteiriças”.
A obrigatoriedade do ensino das línguas nacionais, a nível básico, médio e superior, foi uma orientação, de um conjunto de outras não menores, saída do já referido Encontro, incluindo a formação de formadores em línguas nacionais. Outro aspecto considerado crucial prendeu-se com a actualização e harmonização dos alfabetos e a tradução dos principais instrumentos jurídicos: Lei Constitucional, Lei dos Partidos Políticos, e Declaração dos Direitos Humanos, incluindo a recolha da tradição oral e a produção literária em línguas nacionais.
Na hipótese de se institucionalizar o prémio de poesia em línguas nacionais, caberá ao júri avaliar a literariedade, ou seja matéria artística que enforma o texto literário, conhecer a estrutura narrativa, a coerência textual, o maior ou menor recurso à oralidade, a correcção linguística, a construção sintáctica, a ortografia e os níveis de ficcionalidade.

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