Cultura

Criação literária em debate na Feira da Poesia Angolana

Jomo Fortunato

Sob o signo “Criar, criar amor… com os olhos secos”, verso do poeta Agostinho Neto, encerrou ontem a primeira edição da Feira da Poesia Angolana que decorreu de 21 a 25 do mês em curso, na Galeria de Exposições do Memorial Dr. António Agostinho Neto, no âmbito da sua programação cultural semestral.

Alice Beirão chefe do Departamento de Apoio à Investigação do Memorial Dr. António Agostinho Neto na abertura da feira
Fotografia: DR

A Feira da Poesia Angolana é um projecto literário que visa promover a poesia editada e os poetas angolanos, complementando o ciclo de promoção e aumento dos hábitos de leitura, no domínio da poesia e da generalidade dos géneros literários, e, consequentemente, do debate à volta das questões que se relacionam com a criação, edição, distribuição, promoção, recepção e reutilização da poesia na Música Popular Angolana. 
O projecto é uma oportunidade, ímpar, de convívio e de intercâmbio cultural, entre os poetas de todas as gerações, abrindo inúmeras oportunidades entre editores, produtores, livreiros e alfarrabistas nacionais. A sua realização está a cargo do Memorial Dr. António Agostinho Neto, com o apoio de instituições públicas e empresas privadas, interessadas na concretização do projecto. 
Apesar dos inegáveis avanços das novas tecnologias da esfera comunicacional, e ao contrário dos profetas que advogam o fim do livro, onde a escrita alfabética seria substituída por uma cultura de sinais, o livro, na sua generalidade,  ainda é a melhor ferramenta de trabalho, de acesso à cultura e o companheiro ideal em todos os momentos.
O Estado, a sociedade e as associações culturais, devem estar atentas ao crescente movimento editorial angolano, que, no passado, teve momentos gloriosos de edição, sobretudo depois da independência, e, no presente, vem dando sinais de qualidade concorrencial, e consequente afirmação internacional entre a juventude. 
A Feira da Poesia Angolana é um momento, entre vários outros, que complementa o sistema literário, dinamizando um processo que inclui a promoção e defesa dos direitos do autor, do editor, do importador, do livreiro, do distribuidor e pode motivar o exercício da crítica literária, uma prática que recai sobre um ente fundamental neste ciclo, a recepção, entenda-se o leitor.

Objectivos 

A Feira da Poesia Angolana tem como objectivo promover a circulação do livro poético, aproximar os poetas de várias gerações, facilitar o acesso e circulação, num só espaço, de títulos bibliográficos da poesia angolana, proporcionar à juventude angolana, principal público-alvo, e às comunidades estrangeiras residentes e visitantes em geral, o gosto e o conhecimento dos principais referentes culturais no domínio da poesia, reforçar o intercâmbio cultural e comercial entre editores, livreiros, no domínio da poesia, alargar e proporcionar o debate sobre a história e teorização do fenómeno poético, vender o livro poético a preços promocionais, promover, através de lançamentos e assinatura de autógrafos, a generalidade da produção poética angolana.

Debates
Depois da cerimónia da abertura na passada quarta-feira, que encerrou com um concerto de voz e violão do cantor e compositor, Romeu Miranda, o programa teve a sua sequência, quinta-feira, com a inauguração do palco livre, espaço em que os jovens demonstraram as suas habilidades, e teve início o ciclo de debates, com uma abordagem sobre,   “A dimensão intemporal da poesia de Agostinho Neto”, tema dissertado pelo poeta, Bendinho Freitas, tendo como moderador, Pombal Maria, e a sessão encerrou com um concerto de Nzambi Paulo. Seguiram-se os debates sobre “A representação da mulher em “O leito do silêncio” de Isabel Ferreira, tendo como oradora, Domingas Monte, moderação de Mónia Luhuma, sessão encerrada com um concerto  de Costa Maweze. O dia seguinte foi marcado pela dissertação do Tema, “Poesia angolana da nova geração”, tendo como orador, o professor, Hélder Simbad, moderado, por Mabanza Kambaka, e um concerto de Pascoal Mussungo. Ontem o debate abordou o tema, “Poetas do Movimento Lev’arte”, tendo orador, Kiocamba Kassua, moderado por Marco Ginguba, seguido de um recital de João Tala e Jesse Fernandes, que encerrou a parte musical.
 
Destaque
O destaque, no âmbito do ciclo de debates, vai para o tema “Dimensão intemporal da poesia de Agostinho Neto”, apresentado pelo poeta, Bendinho Freitas, que foi estruturado em quatro sub-temas,  “Conceito aplicável à arte no geral e na poesia em particular”, “Elementos de intemporalidade na poesia de Agostinho Neto”, “Corrente literária predominante na poesia de  Agostinho Neto como elemento de intemporalidade” e “Classificação temática da poesia de Agostinho  Neto”. Bendinho Freitas defendeu no decorrer da sua locução, que “A pontificação harmónica e sublime da poli-funcionalidade na poesia de Agostinho Neto, constituem os principais elementos que orientam a sua intemporalidade.
A inter-relação entre a faculdade e valor estético da sua poesia, função estética, e a função cognitiva e ideológica exercida pelos seus textos poéticos, ou seja, a forma de conhecimento da realidade objectiva e psicológica do espaço no qual estava inserido ou que retracta, e os sujeitos que nele intervêm, bem como o comprometimento com a defesa de ideais sociais, culturais e políticos vinculados à liberdade, num momento histórico daquele espaço, Angola e a África usurpada, constituem elementos de capital importância, para a sua dimensão intemporal (…), pelo que o poeta tornou-se um animador do sonho do seu povo (…)”

Escritora Maria Eugénia declama poema de Agostinho Neto

A declamação do poema “Criar”, do poeta Agostinho Neto, pela escritora Maria Eugénia Neto, abriu a Feira da Poesia Angolana, antes do discurso proferido por Alice Beirão, chefe do Departamento de Apoio à Investigação do Memorial Dr. António Agostinho Neto. 
Pela importância e simbolismo metafórico do poema, no âmbito dos Estudos Literários, publicamos um excerto,  Criar criar/ criar no espírito criar no músculo criar no nervo/ criar no homem criar na massa/ criar/ criar com os olhos secos/ Criar criar sobre a profanação da floresta/ sobre a fortaleza impudica do chicote criar sobre o perfume dos troncos serrados/ criar/ criar amor com olhos secos /Criar criar/ gargalhas sobre o escárnio da palmatória/ coragem nas pontas das botas dos roceiros/ força  no esfrangalhado das portas violentas/ firmeza no vermelho sangue da insegurança/criar/ criar com olhos secos.
A  escritora Maria Eugénia Neto nasceu em 1934, emTrás  dos Montes, Portugal, e cresceu em Lisboa.
Estudou desenho e línguas estrangeiras e participou nos coros do Conservatório Nacional Português. Em 1948, num círculo de intelectuais africanos, conheceu Agostinho Neto, poeta e primeiro Presidente de Angola, com quem casou, dez anos depois.
Durante a luta armada de libertação nacional, Maria Eugénia Neto contribuiu, intensamente, na divulgação de poemas em programas de rádio, com artigos e poemas em jornais no estrangeiro.
Foi directora do boletim da OMA, Organização da Mulher Angolana, que era traduzido em francês e inglês. Publicou, entre outros títulos, “... E nas florestas os bichos falaram”, contos, 1977, “Foi esperança e foi certeza”, poemas, Luanda, 1976, e  “O soar dos kissanges”, 2000.

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