Criadores em defesa da dança tradicional

Elautério Silipuleni | Ondjiva, José Rufino | Luena e Alberto Coelho Cabinda
1 de Maio, 2016

Fotografia: António Soares | Cabinda

A defesa e valorização da identidade nacional é o objectivo da maioria dos grupos de dança do país, em especial os originários de províncias como o Cunene, onde a cultura é parte activa do quotidiano dos seus habitantes.

O registo dos grupos de dança ainda no anonimato em diversas comunidades do Cunene tem sido, nos últimos anos, uma das principais tarefas da direcção provincial da Cultura.
A chefe do departamento de artes e acção cultural da instituição revelou que existem 31 grupos de dança. Cristófina Kambwandi falou ao Jornal de Angola, a propósito do Dia Mundial da Dança, ontem celebrado, dos projectos da instituição, com destaque para as campanhas de sensibilização dos jovens para as artes.
Efundula, ondjando e ehama são as principais danças da região e as que mais têm chamado a atenção da direcção provincial, devido à sua riqueza étnica e cultural e por fazerem parte das tradições e rituais do Cunene.
“Os jovens aprendem, em especial os de determinadas comunidades onde ainda se sente a importância da tradição e da dança folclórica associada à divulgação dos hábitos e da tradição local. É uma arte com um forte caris histórico e cultural. Porém deixa de ser arte, caso não se respeitem os seus preceitos”, disse.
Os dançarinos, consagrados e jovens, têm respeitado, às vezes, a essência destas danças. “Mas é preciso não perder a identidade original. O trabalho de pesquisa e de formação dos grupos é fundamental”, disse.
 
Divulgação no Cunene
 
Para dar maior divulgação às danças tradicionais da região, a direcção provincial da Cultura no Cunene pretende examinar o historial dos grupos locais. Apesar de inúmeras dificuldades, afirmou, os grupos conseguem apresentar trabalhos de grande importância. “Ao ver o empenho destes criadores, apenas podemos reforçar o compromisso de manter o apoio e pedir mais ajuda dos empresários da província”, assinalou.
A data, disse, serve também para chamar a atenção da sociedade para a importância da dança e incentivar a criação de melhores políticas públicas voltadas para esta arte.

Preservação no Moxico

A aposta no protagonismo é a saída que a direcção da Cultura no Moxico encontrou para ajudar a preservar os 63 grupos de dança tradicional e 23 modernos existentes na província.
O chefe do departamento de arte e acção cultural informou que o sector tem feito de tudo para apoiar os grupos da região. Domingos Cayeye adiantou que os serviços têm feito um trabalho rigoroso para identificar os tipos de dança existentes na província, embora a falta de quadros competentes seja um problema.
O Governo do Moxico está a desenvolver formação de funcionários aptos a responder aos desafios do sector. “Estamos atentos às mudanças causadas pelas novas tecnologias. Hoje, a introdução de outros tipos de dança moderna tem influenciado o desaparecimento dos géneros mais antigos e ligados às tradições. A juventude não se interessa muito pela preservação destas danças.”
Entre as danças tradicionais do Moxico em vias de desaparecimento estão o macopo, mitingui e o tchombe. O Dia Mundial da Dança é celebrado a 29 de Abril e foi instituído em 1982 pelo Comité Internacional da Dança (CID) da UNESCO, em homenagem ao coreógrafo Jean-Georges Noverre, um dos grandes nomes mundiais desta arte.

Revitalização em Cabinda

Cabinda tem procurado, ao longo dos últimos anos, revitalizar as suas danças, que tornaram a província  uma referência. Hoje com 68 grupos de danças e 14 variantes de géneros de dança registados no sector da Cultura, a direcção provincial enfrenta o desafio de preservar as que estão em vias de desaparecer.
O mayeye, a maringa e o kintueni são um dos poucos géneros que ainda continuam no activo e a ser exibidos em cerimónias festivas, sobretudo no carnaval. Porém, danças como a nzoka, dibondo, matchatcha, tchikuite, matáfala e báine podem desaparecer por falta de praticantes.
Para o secretário provincial da Cultura é preciso uma acção mais forte na preservação destes géneros de dança, por serem parte do património cultural de Cabinda. Euclides da Lomba pediu mais empenho dos fazedores da arte e dos jovens para a preservação destes ritmos.
O projecto de preservação destas danças, disse, está mais centrado no resgate do báine, um estilo de dança praticada exclusivamente pela população da aldeia de Caiocaliado. “É preciso potencializar financeiramente e salvaguardar essa dança”, disse.

Dança Kintueni

O kintueni é a dança tradicional mais praticada em Cabinda, sendo uma referência nos municípios de Buco Zau e Belize. É um género que é visto regularmente no quotidiano das pessoas. A dança é usada em cerimónias festivas, como casamentos e aniversários, assim como em actos fúnebres (óbitos).
A dança e a música de kintueni tem uma ampla representatividade e consumo nos dois Congos e por isso a direcção provincial da Cultura pretende realizar um festival, com o intuito de apostar na internacionalização dessa dança e apoiar os seus fazedores.
Tunga Nzola, Dinamuene, Manguitukula, Sukissa, Rinosse, Bana Ndemana são os grupos que se destacam nessa variante de dança. Os instrumentos usados nesta arte variam das violas de caixa, de fabrico caseiro, aos chocalhos e bordão. As dançarinas vestem panos.
Outro estilo que a direcção da Cultura procura resgatar é o Nzoka, muito dançada no antigo reino do Makongo, sobretudo nas aldeias de Mbanda, Siadede, Caiocaliado, Ncana e Nzilazambi. Durante a dança, os homens descalços impunham uma espada e uma caçadeira, símbolos do poder, e ao som do zimpungi competiam com as mulheres. “Hoje essa dança quase desapareceu e está mais reservado a pequenos grupos de mais velhos.”

Os Bakama

A exibição dos Bakama é o expoente máximo na hierarquia das danças tradicionais de Cabinda. Os mascarados do Tchizo ou Ngoio só dançam em ocasiões especiais, como falecimento de uma grande figura tradicional da província ou visitas especiais, como do Presidente da República.
Cobertos de folhas de bananeiras e a face coberta por uma enorme máscara, os Bakama dançam rodopiando entre si mediante melodias, proveniente do som harmonioso de um batuque e dos zimpungi, que só eles sabem interpretar.
Os Bakama são tidos como uma sociedade secreta de carácter excepcional e um dos símbolos mais notáveis da cultura tradicional da província. Até ao momento, é quase impossível determinar com rigor e exactidão a origem dos Bakama.

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