Cultura

Cultura pede mais pesquisa sobre o tráfico de escravos

Manuel Albano |

A vasta documentação espalhada pelos continentes sobre as questões de escravatura e tráfico de escravos nunca se esgotam e continua a inspirar historiadores com uma larga experiência no ramo a trazerem para a comunidade académica novos factos culturais, assumindo um compromisso com a História Universal.

“Laços Atlânticos: África e africanos durante a era do comércio transatlântico de escravos” já está à disposição dos leitores
Fotografia: Paulo Mulaza | Edições Novembro

Com a publicação da colectânea “Laços Atlânticos: África e africanos durante a era do comércio transatlântico de escravos”, numa parceria bem concebida entre o Museu Nacional da Escravatura e a Universidade de York (Toronto – Canadá), é prova que os investigadores continuam a desenvolver estudos aprofundados sobre a matéria.
Apresentado no final da tarde de sexta-feira na sala de conferências “Cordeiro da Mata”, da Biblioteca Nacional, em Luanda, o acto contou com a presença da secretária de Estado da Cultura, Maria da Piedade, em representação da ministra da Cultura Carolina Cerqueira.
O livro é um valioso subsídio para os homens comprometidos com o saber e apresenta dados relativos ao movimento forçado dos africanos através do Atlântico. “Laços Atlânticos: África e africanos durante a era do comércio transatlântico de escravos” traz novas e importantes descobertas a respeito do volume do comércio transatlântico de africanos escravizados.
A obra certamente vai permitir aos leitores, fundamentalmente à classe académica, “refazerem” ou no mínimo “repensarem” algumas estatísticas que ao longo do processo de ensino se vai apreendendo sobre estudos demográficos relativso à escravatura e ao tráfico de escravos. A obra apresenta uma visão muito completa sobre o assunto porque mostra com maior detalhe a origem, destino e quantidades dos africanos no seu movimento de dispersão pelo mundo atlântico. O livro pormenoriza como foram criados os laços que uniram os destinos individuais e colectivos das pessoas de certas partes de África, Europa, das Américas e ilhas atlânticas.

Comércio de escravos

Uma “tradição” corrente entre historiadores e académicos em matérias ligadas a História Universal é poder deixar um legado positivo às novas gerações, por forma a incentivá-las a dar continuidade ao processo complexo, mas apaixonante, da descoberta de novos dados históricos, sobre um tema inesgotável, como é o caso do tráfico de escravo.
No tema “Laços entre África e o mundo atlântico durante a era do comércio de africanos escravizados: Uma introdução” são apresentadas valiosas contribuições de académicos como Carlos Liberato, Mariana Cândido, Paul Lovejoy e Renée Soulodre La France. De acordo com o livro, o envio forçado e sistemático de mais de doze milhões de africanos para as Américas transformou profundamente as regiões que receberam a mão-de-obra escrava como as sociedades africanas directa ou indirectamente atingidas pelo comércio de escravos.
Os estudos demográficos sobre o comércio atlântico de africanos escravizados foram fortemente influenciados pela publicação em 1969 do livro de Philip Curtin “The Atlantic Slave Trade. A Census”, onde o autor procura mostrar que as estimativas existentes até então “eram uma herança das sínteses produzidas no século XIX e que os dados apresentados por centenas de novas monografias não tinham sido capazes de corrigi-las”.
Essa situação dava margem a que se pensasse que as dimensões quantitativas do comércio de escravos ou eram bem conhecidas ou não podiam ser conhecidas. Assim, as estimativas disponíveis apresentavam variações que iam de 15 a 25 milhões de escravos desembarcados nas Américas durante todo o período do tráfico atlântico.
Nessa condição, Philip Curtin, em sua própria síntese e apesar de considerar existirem ainda muitos “buracos”, nos dados, ele chegou a conclusão de “é muito pouco provável que o total verdadeiro de africanos desembarcados nas Américas ter sido menor que oito milhões ou maior que de dez milhões e meio de escravos.

Importância pedagógica

Para o historiador e director da Biblioteca Nacional de Angola João Pedro Lourenço, na apresentação do livro, realça que a obra foi pensada em 2008, depois de uma conversa com o professor José Curto da Universidade de York (Toronto – Canadá).
Embora reconheça que a abordagem do tema é inesgotável, ele está convicto de que os artigos são de máxima utilidade para a comunidade académica principalmente para aquela que está focada nas questões de escravatura e tráfico de escravos.
Para a historiadora e directora do Arquivo Nacional de Angola Alexandra Aparício, apesar de ser um tema já bastante consumido, continua a cativar o interesse dos historiadores, por surgirem periodicamente sobre o processo do comércio do tráfico de escravo e da escravatura.

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