Comboio apita ao ritmo da diversidade

Domingos Mucuta | Namibe
18 de Setembro, 2014

Fotografia: Domingos Mucuta | Namibe

O início da viagem do comboio do FENACULT entre o Lubango e o Namibe foi anunciado pelo maquinista Baptista Morais quando accionou o apito e pôs em marcha a locomotiva, que transportou os agentes culturais mobilizados para a excursão artística.

Todos estavam animados e inspirados para participar na maior manifestação cultural na composição dispensada pela direcção do Caminho-de-Ferro de Moçâmedes. O rumor da locomotiva misturava-se com os sons dos instrumentos, as vozes dos cantores e declamadores dos grupos da Huíla, Namibe, Cuando Cubango e Cuanza Sul.
Escritores, dançarinos, artesãos, declamadores, músicos, actores e humoristas, cada um à sua maneira, mostraram a diversidade cultural do país.
Baptista Morais era um homem feliz por fazer parte do ritmo. Maquinista há 17 anos, maneja a máquina com mestria e muita responsabilidade, pelo longo percurso de 246 quilómetros, passando pelas zonas acidentadas da Serra da Chela.
“Estou a gostar da viagem. Como maquinista, também estou a participar no FENACULT. O meu ritmo está a ser tocado com os pontos de força, freios independente e combinado e a buzina”, disse em jeito de brincadeira.
As curvas, contracurvas, descidas e subidas exigem cuidado redobrado, mas nada é novidade para o maquinista habituado aos desníveis e precipícios da serra, por onde o comboio serpenteia.
“Aqui é assim. Todo o cuidado é pouco. Muitos comboios já descarrilaram por perda de freio nesta zona. Mas agora a via está boa, a nossa máquina é nova e tem condições técnicas para nos levar em segurança até ao Namibe”, tranquiliza, enquanto trava e avisa da aproximação do túnel da serra.
O maquinista gosta deste troço porque da cabine tem o privilégio de contemplar, antes de todos, a continuidade da Fenda da Tundavala. Montes rochosos, deserto, rios e riachos de caudal permanente e intermitente, completam a paisagem que torna a viagem de seis horas menos cansativa.

Intercâmbio Cultural


O agrupamento musical Moxitos, do Cuanza Sul, chamou a atenção logo nos primeiros momentos da viagem. A delegação, integrada por 12 artistas e dirigentes da Cultura, a envergarem indumentárias tradicionais da região, foi a primeira a mostrar o que trazia na bagagem.
Os dançarinos, músicos e instrumentistas provenientes do bairro Sétima Velha, município de Amboim, sacaram do baú o ritmo tradicional cangondó, o que despertou os anfitriões da Huíla, que não quiseram ficar para trás.
O dançarino Armindo Manuel contou à nossa reportagem que o grupo Moxitos quer recuperar e promover a cangondó, dançada nas cerimónias de iniciação. O grupo apresentou também a kibuelela.
Armindo Manuel, de 50 anos, comandou o grupo durante a apresentação, auxiliado pelo músico e dançarino Zé Leão, de 58 anos, que iniciou a carreira em 1974. Na Bibala, a temperatura estava baixa para esta época do ano, mas não impediu uma recepção calorosa por parte da população, que afluiu à estação ferroviária para assistir à chegada do comboio cultural e presenciar o espectáculo.
O grupo de dança tradicional Ochali, da Quilemba Velha, deu as boas-vindas aos artistas transportados pela locomotiva. Todos foram arrastados para a pista da estação ferroviária para dançar.  Até os religiosos e os desconhecedores dos estilos Onienga, Etopola e Ekwenje foram obrigados a seguir a cadência.
Na Bibala, aconteceu o principal espectáculo do percurso do comboio do FENACULT. Artistas de todas as províncias foram convidados a apresentar-se aos espectadores, entre os quais a vice-governadora da Huíla para o Sector Político e Social, Maria João Chipalavela, o administrador do município e outros dirigentes provinciais da cultura. O grupo de dança Twapandula da Huíla, comandado pela professora Laura Rodrigues, um poeta do Cuando Cubango, que homenageou as mulheres, e os Moxitos do Cuanza Sul arrancaram aplausos pela apresentação animada, antes da partida para o Namibe.
O comboio do FENACULT regressou ao Lubango com o apito de missão cumprida, porque ultrapassou as expectativas da direcção provincial da Cultura no Namibe. A directora provincial, Euracelma Ambrósio, que acompanhou os artistas, afirmou que o objectivo do comboio cultural foi cumprido, dada a adesão, interacção, diversidade de artistas e a participação dos 209 agentes culturais durante toda a jornada.
A vice-governadora da Huíla para o Sector Político e Social, Maria João Chipalavela, sublinhou que o comboio do FENACULT mobilizou os artistas e as populações locais para a importância do resgate dos valores da tradição angolana. A vice-governadora do Namibe para o Sector Político e Social, Maria dos Anjos, considerou valiosa a participação dos jovens artistas, por garantir a preservação desses valores.

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