Dança ganha força

Roque Silva|
28 de Agosto, 2014

Fotografia: Malocha Arquivo Especial

A dança, como todas as artes, vai ter um novo impulso durante o Festival Nacional de Cultura (FENACULT), embora para a coreógrafa Ana Clara Guerra Marques seja preciso mais do que isso para se alavancar esta expressão a nível nacional.

Com uma estreia em carteira para o próximo mês, a directora da Companhia de Dança Contemporânea de Angola (CDCA) falou ao Jornal de Angola sobre o actual estado deste estilo, que ainda está numa fase embrionária no país.

Jornal de Angola - Que papel vai ter o FENACULT na projecção da dança?

Ana Clara Guerra Marques -
O FENACULT não vai ajudar muito, porque não é esse o seu objectivo central. No entanto, vai permitir uma maior concentração de actividades artísticas e culturais, dando às pessoas a possibilidade de terem maior contacto com as artes. Infelizmente, no caso da dança apenas vão se realizados espectáculos da CDC Angola que apresenta, durante uma semana, a sua nova produção, “Mpemba nyi Mukundu”, a ser estreada, oficialmente, no dia 11 de Setembro.

JA - “Mpemba nyi Mukundu” é uma estreia?

ACGM -
Sim. O espectáculo vai ser apresentado o próximo mês e promete transportar à modernidade uma história adaptada da literatura oral cokwe, através de novas tecnologias.

JA - A dança passa pelo resgate do tradicional ou segue o caminho da inovação?

ACGM -
O contemporâneo permite-nos uma imensa possibilidade de opções. Podemos resgatar o tradicional, como eu faço com a Companhia de Dança Contemporânea de Angola, em espectáculos  como “Uma frase qualquer e… outras (frases)”, “Ogros… da Oratura e do fantástico”, “Paisagens propícias” e “Mpemba nyi Mukundu”. Mas, a inovação é, no entanto, um aspecto vital, porque o contemporâneo não repete, ou reproduz o material original, mas sim o revisita e o transporta para uma outra dimensão.

JA - Então é possível trazer o tradicional ao contemporâneo?

ACGM -
Sim. Isso é um desafio extraordinário. Poder criar algo original. Costumo dizer que é importante manter a tradição como referência de identidade cultural, mas a verdade é que são os trabalhos inovadores que promovem o desenvolvimento humano. E a dança contemporânea é isso, inova não apenas para fazer diferente, mas inova como resultado de investigações criativas e renovadoras.

JA - Quais as fontes de pesquisa ou enfoque que um coreógrafo deve ter em conta ao montar um espectáculo?

ACGM -
Qualquer coisa pode servir como inspiração: coisas boas, más, bonitas, feias, ou mesmo as mais simples e complexas. A inspiração e a criação não podem ser limitadas a receitas ou encomendas. O mais importante é a genialidade e a originalidade como se estrutura uma peça, bem como os conhecimentos que se possuem para o fazer. Na dança contemporânea as peças reflectem as inquietações do coreógrafo produto do meio social e cultural onde vive. O humor, o surreal, o insólito, a violência e o inesperado são características sempre presentes nos coreógrafos contemporâneos.

JA - O que é fazer dança contemporânea hoje?

ACGM -
É acompanhar a corrente mais actual da dança universal e estar em sintonia com os bailarinos e coreógrafos do mundo. É dançar as vivências e experiências da sociedade actual. Em Angola é um desafio, uma luta enorme, porque as pessoas estão convencidas que este género não nos pertence. É um engano enorme.

JA - Porque considera um engano?

ACGM -
Porque Angola tem o direito de aceder a todas as linguagens artísticas universais, uma vez que todos os países, incluindo os africanos, também o fazem.

JA - O que representa “comandar” uma companhia de dança no país?

ACGM -
Manter uma companhia de dança contemporânea em Angola é um sacrifício que vale a pena. É ser-se vanguardista e ao mesmo tempo estarmos à frente do nosso tempo, garantindo um lugar na história da dança universal. Enfim, é saber que um dia, mais tarde, quando atingirmos o desenvolvimento desejado, seremos reconhecidos.

JA - Já existem muitas companhias de dança contemporânea em Angola?

ACGM -
Ao contrário do que se pensa, Angola possui uma única companhia que faz dança contemporânea. Porquê? Porque este género não é recreativo. Nós temos muitos grupos que dançam, mas não são profissionais. A dança contemporânea só pode ser praticada ou desenvolvida por profissionais. É importante que isto fique esclarecido, pois de contrário estaremos a assumir a banalização da arte da dança.

JA - Como avalia, enquanto especialista, os novos grupos que surgem?

ACGM -
Na minha opinião é que esses grupos não fazem dança contemporânea. Acho até que eles não sabem o que é a dança contemporânea, pois se soubessem, não utilizariam essa designação para o que fazem.

JA - Que aspectos são relevantes quando se faz esta dança contemporânea?

ACGM -
É fundamental que as pessoas saibam o que é a dança teatral e se submetam a um ensino e treinamento técnicos. Sem isto, nada pode ser feito. Depois, as pessoas devem procurar superar-se culturalmente. A dança contemporânea exige muito empenho  do ponto de vista intelectual dos seus bailarinos.

JA - Então que conselho deixa aos jovens que querem enveredar por este estilo?

ACGM -
O conselho que dou é que respeitem quem desenvolve este género em Angola e no mundo. Sejam modestos e procurem aprender, em vídeos, por exemplo, mais para saberem identificar as diferenças e que, quando possível, assistam aos espectáculos, em vez de se porem a tecer comentários negativos sobre uma matéria que nem conhecem. Um artista que quer usar esta arte tem de ter o espírito aberto e generoso.

JA - Já temos um público educado para assistir espectáculos do género?

ACGM -
Sim. A experiência diz que o público aprecia sempre a qualidade. O problema é que os angolanos quase não têm acesso a espectáculos de qualidade. Normalmente, as pessoas só têm acesso a concertos musicais, muitos deles, de fraca qualidade. Porém, ao contrário do que se diz, a dança contemporânea não é elitista. Ela fala de coisas do dia-a-dia, que o público entende. Os espectáculos da CDC Angola, por exemplo, têm sempre casa cheia e as pessoas assistem em silêncio e com respeito.

JA - O que falta para melhorar?

ACGM -
O que seria desejável é começarmos a diversificar as ofertas artísticas. Ninguém tem o direito de, à partida, achar o que é bom ou mau. Há que oferecer e dar a conhecer, para as pessoas terem a possibilidade de escolher por elas próprias. Ninguém pode gostar ou não gostar de algo que desconhece.

JA - Quanto aos espaços de exibição. Como qualifica os existentes?

ACGM -
Precários ou nulos. Luanda não tem teatros que possam receber uma peça de dança, ou de teatro, ou de música, que sejam tecnicamente exigentes em termos de qualidade e necessidades técnicas, por exemplo. Nem todos os espectáculos se podem apresentar ao ar livre ou em cinemas ou no meio da rua. A arte só é arte quando há magia e esta é feita em espaços cénicos preparados para isso.

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