Danças folclóricas exigem divulgação

Domingos Mucuta| Lubango
17 de Setembro, 2014

Fotografia: José Cola

As danças tradicionais angolanas precisam de uma maior divulgação para começarem a ser valorizadas e permitirem aos jovens terem mais conhecimentos sobre uma parte da cultura nacional, defendeu ontem, no Lubango, a especialista em dança folclórica Judith Sungo.

Uma das oradoras da mesa redonda sobre “Valorização das danças tradicionais”, inserida nas actividades do FENACULT, a especialista considerou fundamental incluir já o estudo de algumas destas danças no currículo escolar.
“É preciso criarmos mecanismos mais fortes e eficazes que permitam às crianças manterem contacto, mais cedo, com alguns ritmos típicos do folclore de cada região, para assegurar a continuidade destes estilos. A dança é uma das artes que sofre muitas influências nesta era da globalização. Portanto, a preservação daquelas de raízes é um compromisso de todos”, argumentou.
Judith Sungo informou ainda que 50 por cento dos 54 tipos de danças tradicionais que podem ser ensinadas nas escolas já foram estudadas pelos especialistas. “Este número resultou de um levantamento feito nas 18 províncias, das quais foram retiradas três tipos em cada uma, para serem analisadas e especificadas de forma a serem incluídas no sistema de ensino”, disse.
O assessor da Direcção Nacional da Acção Cultural, Domingos Nguizani, que também participou na mesa redonda, lamentou o facto da ocupação colonial e o conflito armado, associados à falta de técnicos especializados, terem sido os maiores entraves na protecção e valorização desta arte.
A falta de recursos materiais e financeiros para uma pesquisa mais profunda sobre a dança tradicional e as dificuldades em chegar aos locais mais recônditos também criam muitas dificuldades no estudo sistemático desta arte.
“Isso conduziu a que alguns conhecimentos se perdessem com muitos anciões, as verdadeiras bibliotecas das tradições e histórias culturais. Por isso é que todos são chamados a contribuir com pequenos gestos para o resgate dos valores culturas, especialmente as danças tradicionais”.
Domingos Nguizani, que também é o dirigente do Ballet Nacional de Angola, elogiou a Huíla por ter sido sempre, mesmo com dificuldades, um dos mercados emergentes em termos de dança. “Muito pensam que fazer dança tradicional é retroceder, mas estão enganados, porque esta arte é uma forma de valorizar a identidade de cada região”, salientou.

Valor social


O coreógrafo referiu que o valor da dança transcende o simples exercício físico do corpo, porque é uma arte com um forte pendor educativo.
“Algumas danças tradicionais, por exemplo, são usadas para preparar os adolescentes e jovens para os desafios da vida, tanto a nível individual como do grupo. A mukanda, das Lundas, e o efiko, na Huíla, são alguns rituais que usam a dança como meio de formação”, explicou.
“Nestas regiões, a dança é um veículo de mensagens sobre a vida na comunidade. Ela reflecte a vida quotidiana e ensina os jovens sobre a importância de certas actividades produtivas, como agricultura, pesca, caça, assim como a conservar os seus recursos naturais”, sublinhou. 
Domingos Nguizani defendeu ainda um maior investimento nesta arte, já que o país conta com mais de 15 licenciados em dança e mais de 30 técnicos médios nesta área. “O importante agora é criar um mercado capaz de dar espaço a estes jovens e permitir-lhes elevar a dança a outros patamares”, justificou.

Escolas de dança

A directora da Cultura, Marcelina Gomes, considerou urgente tomarem-se medidas mais fortes para dinamizar esta arte a nível local e para a recuperação dos seus criadores. “A dança tradicional precisa de uma maior aposta, porque corre o risco de desaparecer, devido à crescente aculturação e à saída de muitos jovens das zonas rurais para as cidades, onde, geralmente, acabam por se desligar de certos valores e adoptar conceitos, às vezes pouco relacionados com a cultura local”, disse.
A falta de recursos humanos qualificados na disciplina de dança é outro aspecto que precisa ser superado rapidamente. “A formação de novos dançarinos é um passo fundamental, que passa pela existência de conhecimentos mais profundos sobre as danças de cada região”, destacou a responsável pela Cultura.
Marcelina Gomes anunciou ainda que a entrada em funcionamento do Instituto Nacional de Artes, em Luanda, vai permitir dar outro alento a esta disciplina artística e formar novos e melhores dançarinos.
A directora da Cultura louvou também o surgimento de novos grupo de dança nas escolas da Huíla e incentivou outras a seguirem a mesma ideia.

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