O lugar do artista através da dança

Adriano de Melo |
21 de Junho, 2016

Fotografia: Rui Tavares

Uma crítica sobre a actual situação do artista, que entre dificuldades e falta de apoios, procura expressar-se através da sua arte, às vezes em espaços pouco apropriados é a proposta que fui convidado a assistir, na sexta-feira, por Ana Clara Guerra Marques, no Camões.

No local está a decorrer a nova peça da Companhia de Dança Contemporânea de Angola, sobre a qual apenas posso fazer o mesmo que toda a plateia: aplaudir.
Apesar de não ser perito em matéria de dança contemporânea pude ver, em 50 minutos, o empenho de seis jovens bailarinos (António Sande, Samuel Curti, Benjamim Curti, André Baptista, Armando Mavo e Daniel Curti), que usaram o corpo como forma de exprimir as suas angústias, anseios e frustrações, enquanto artistas, ao mesmo tempo que expressavam a mensagem central do espectáculo, mostrar o drama actual em que vive mergulhada a humanidade.
A cada batida na madeira, ou movimento dos bailarinos, procurava entender, mesmo sentado nos últimos lugares de uma sala cheia, a mensagem da directora artística do espectáculo “Ceci n’est pas une Porte”, Ana Clara Guerra Marques.
Meio perdido, a questionar sobre o quão revoltante pode ser para um artista não conseguir expressar o seu talento, ou ver a qualidade do trabalho feito por si ser esquecido ou, pior, ignorado na dinâmica do quotidiano. Porém, também me surgiu a dúvida, se a falta de palcos não é um desafio para cada artista ser mais criativo, como o fez, na sexta-feira, no Camões - Centro Cultural Português, a Companhia de Dança Contemporânea de Angola.
Não sendo, esta falta de teatros e respectivos recursos e possibilidades técnicas, uma situação ideal, mas sob o lema da não desistência, a CDC Angola resolveu, uma vez mais, enfrentar este obstáculo e surpreender. A primeira impressão que tive, minutos antes quando assistia ao vídeo sobre o percurso da companhia, era que veria um espectáculo, onde a coreografia sincronizada, como vemos em filmes do género, seria a referência. Mas, depois dos primeiros 15 minutos, percebi que a dança contemporânea é completamente diferente de tudo, porque possui diversas possibilidades criativas e estéticas.
“Ceci n’est pas une Porte” foi, tal como a tradução em português do título sugere, “Isto não é uma Porta”, mais do que uma passagem, ou um lugar restrito do artista, era o convite para conhecer o universo sobre a condição humana criado por Ana Clara Guerra Marques e Nuno Guimarães, um convite que deve ser feito a qualquer um, amante ou simples curioso em ver um conceito de arte diferente das noites frias de Luanda.
O som do mar, logo no princípio do espectáculo, proporcionado pelo tema “At the mercy of the Waves”, de Clem Leek, ajudou a preparar o ambiente. O silêncio tomou a sala escura. Minutos depois começa a dança, com um ritmo, tradicional angolano, resultado de um trabalho de pesquisa de Victor Gama, com músicos do interior do Huambo.
Assim começou a minha “aventura” pelo desconhecido mundo da dança contemporânea. Para quem esperava só ver um espectáculo coreográfico, a selecção de músicas também ficou marcada em mim. Os temas ajudaram a elevar o protesto dos bailarinos para além dos limites geográficos do país. A selecção incluía “Vela 6911”, de Victor Gama, “Estuarine”, de Loscil, “Protest Remix Acknaten”, de Philip Glass e Jóhann Jóhannss, “Uakti Purus River”, de Philip Glass, “Prelúdio e Fuga n.º 12”, de Bach, “Camaleon Session”, da Free Sinematic Sessions, “Izamu Lives Japan”, de Jan Kaczmarek, e “The making the Grief Point”, de Loscil. Como a minha primeira vez alguns detalhes devem ter escapado, mas muitos ficaram retidos na memória, como os momentos em que cada bailarino tinha a oportunidade de mostrar, a parte, o seu nível técnico, ou a simbologia presente em cada um dos “momentos”. O que mais ficou claro para mim foi a mensagem da mentora do projecto: é preciso dar mais condições ao artista para trabalhar e é preciso mudar o mundo para uma vida melhor. No final pude sair com um sorriso.

O protesto


Um protesto sobre a falta de teatros em Angola é assim que a directora da Companhia de Dança Contemporânea de Angola definiu a peça “Ceci n’est pas une Porte”. Para Ana Clara Guerra Marques, a contestação surge numa época em que o país está em desenvolvimento, com tantos espaços novos, feitos em tão pouco tempo, e mesmo assim não estarem a ser incluídos neles um teatro, o local ideal para o artista mostrar o seu trabalho. “Vivemos uma situação surreal e insólita”, disse, acrescentando que o espectáculo faz um enfoque preciso a esta arte, o surrealismo. “É triste ser artista nestas condições. Mas no país e por este mundo fora existem muitas outras situações insólitas”, continuou. A demolição do Teatro Avenida e o facto de o Cine Nacional estar a “deteriorar-se” sob o olhar de todos, são aspectos negativos, que a chamaram atenção, assim como preocupam a maior parte dos artistas angolanos, em especial os de Luanda. A falta de soluções rápidas para se inverter este quadro é para Ana Clara Guerra Marques inaceitável.
O título da peça, disse, é baseada num dos quadros mais célebres do pintor belga René Magritte, “Ceci n’est pas une Pipe” (em português “Isto não é um Cachimbo”). Na pintura aparece realmente um cachimbo. Todos vêm um cachimbo, mas o criador afirma que não é. “Este é outro dos focos da peça. A segunda parte da sua mensagem, que tem a ver com a hipocrisia do ser humano e da característica de aparentar o que nem sempre é. E assim é a vida no mundo actual; as pessoas são hipócritas, vivem de aparências, são egoístas, más e egocêntricas.”
A peça, destacou, fala de prisões psicológicas e sociais, assim como das fobias. “São espaços que temos dentro de nós”. Em “Ceci n’est pas une Porte” os bailarinos não têm espaço para dançar e são obrigados a dançar dentro de uma construção de caixas, limitados, lutando pela sobrevivência. “A porta que apresentamos em palco tem outras funções e nunca é usada como porta. Ela não é uma porta”, descreve, é uma obra do artista angolano Mário Tendinha.
Para os coreógrafos, o surrealismo da mensagem é o mais importante, porque uma porta nem sempre é um lugar de passagem, ela também pode encerrar alguém num compartimento ou libertar alguém. A produção executiva da Temporada esteve sobre a responsabilidade de Jorge António, o produtor da CDC Angola.

A temporada


A estreia da peça “Ceci n’est pas une Porte” no Camões é parte do programa de actividades da Companhia de Dança Contemporânea de Angola para saudar o seu 25.º aniversário. A peça volta a ser exibida a partir de quinta-feira, 23, até domingo, 26, no Auditório Pepetela, do Camões - Centro Cultural Português, em Luanda. Os espectáculos, classificados para maiores de 12 anos, começam às 19h30, excepto no domingo, que é às 18h30. Os bilhetes são vendidos nos dias do espectáculo no Camões. Durante o espectáculo é expressamente proibido fotografar e filmar dentro da sala.

Notas sobre a companhia

Com uma história pioneira e única em Angola no campo da dança contemporânea, a companhia continua a apostar no seu propósito de provocar uma ruptura estética na cena da dança angolana, através de um percurso com diversas inovações e singularidades. Num contexto artístico que permanece frágil, conservador e fortemente cunhado pelas danças patrimoniais e recreativas urbanas e pela ausência de um movimento de criação de autor, no plano da dança, a companhia, que começou a marcar os primeiros passos com “A Propósito de Lweji”, em 1991, criou uma linha de trabalho que leva o público a confrontar-se com as suas próprias histórias, aspectos do seu quotidiano, das suas realidades sociais e da sua condição de cidadãos de universos que se cruzam.
Os lemas divulgar, surpreender, ensinar, provocar e contribuir para a educação estética do público, trazendo-o à apreciação das artes, perduram como os grandes objectivos desta companhia, que vê a internacionalização como forma de validação do seu trabalho. Para além das apresentações no país, a Companhia de Dança Contemporânea de Angola partilhou já os seus espectáculos com 15 países e 30 cidades, em África, América, Europa e Ásia, onde foi vivamente aplaudida pelo público.

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