Presença da juventude no Festival de Cacuaco

Osvaldo Gonçalves |
12 de Janeiro, 2016

Fotografia: Nefuani Júnior

O II Festival de Teatro do Cacuaco está longe de ser uma organização perfeita. Faltam recursos para o glamour que teria um evento similar na Baixa de Luanda ou numa zona nobre da capital. Mas tem de sobra o ímpeto da juventude, desde o dia da abertura, que coincidiu com o da Cultura Nacional.

O festival tem como nota de toque a informalidade. Os expectadores tanto podem vir de fato e gravata, como de bermudas e chinelos de dedo. Casais chegam ao Centro Cultural Roseira, onde decorre o evento, acompanhados dos filhos, vão ao bar buscar bebidas, um pacote de batatas fritas ou um cachorro-quente, e sentam-se na plateia sem cobertura diante do palco para assistir ao espectáculo.
Um ou outro espectador  chega de carro próprio, a maioria vem a pé ou de kupapata. Pára à porta do recinto para pôr a conversa em dia e tirar uma \"selfie\" com os amigos para colocar nas redes sociais. Hesita e refila na hora de pagar o bilhete. São jovens da periferia de Cacuaco que vão ao teatro.
O mestre de cerimónia, sem rodeios, anuncia o início do espectáculo. Agradece aos patrocinadores, o Centro Roseira, e, nesse dia, a Careas Produções, que garante a electricidade. E também os apoios, entre os quais o do Jornal de Angola pela divulgação do evento. Diz que, como os grupos de teatro ainda se estão a preparar, vamos ter música na abertura. Sobe ao palco a Turma do Nada, um grupo de kuduro, que recebe os aplausos de uma plateia ainda por preenceher. A seguir, com a assistência já mais composta, actua Lineke, rapper do Cacuaco, que também é fotógrafo.  Willy, um poeta-declamador, abre a primeira actuação da noite com uma anedota e só depois põe os presentes a pensar com os versos do poema “Ruas Inocentes”, um texto meio de folhetim, mas cheio de verdades.

Retrato da sociedade

Está dado o mote para a primeira peça da noite, “A Matrícula”, pelo grupo Amazonas Teatro. O enredo passa-se dentro de um táxi, cujos passageiros são um retrato da sociedade angolana. Escrita por Gerson Vanguer, director e encenador do grupo, a peça começa com seis pensonagens no “candongueiro”, entre as quais o motorista, que bebe e tem aspirações a DJ, o cobrador, que sonha pegar no volante, enquanto solta a voz para angariar passageiros, uma kitandeira gorducha, um estudante universitário ou fazendo-se passar por tal, um estrangeiro, que no caso se identifica como “langa” (congolês) e o inevitável passageiro embriagado.Surgem depois a moça bonita, vulgo “esquindosa”, e o agente de trânsito.  O conjunto de personagens é um retrato de família da Luanda actual e os diálogos, carregados de humor, denotam os diferentes níveis de linguagem usados na cidade e a perspectiva de cada um.

Um monólogo

Após um intervalo preenchido pelo grupo de rap “Os de Berço”, é hora de actuação do grupo “Protesa”, do Cuanza Norte, que toma o palco com um único actor, Vítor Costa. O monólogo “O Boémio”, escrito por Azevedo Jonas “Bochecha” e dirigido por Eduardo Ornelas, é de vertente filosófica, com o personagem a quetionar-se sobre si mesmo, a sociedade, as razões do amor e Deus: “Pai, responde. Pai, me responde!” Vítor Costa, que faz aqui o primeiro monólogo da carreira, disse ao Jornal de Angola que, no início, há um frio na barriga, “até por ser a segunda actuação” da noite, após o sucesso do Amazonas. Mas, à medida que a peça corre, ganha coragem para encarar e interagir com o público.
Eduardo Ornelas, o encenador, diz que o Cuanza Norte tem agora espaços para o teatro, como a Casa da Juventude, mas faltam grupos. Só existem sete na província, todos amadores. O jovem teatrista reclama da falta de apoios. O grupo pagou a passagem do próprio bolso, mas diz que não podiam ficar de fora desta iniciativa do Grupo de Teatro Roseira (GTR). “Realizar festivais é complicado. Não há suporte financeiro. Gasta-se muito e não há retorno. É de louvar este esforço.”

Espírito de interajuda

O II Festival de Teatro de Cacuaco é campo de interajuda. Hélder Francisco foi para o Luena, capital do Moxico para estudar na Universidade José Eduardo dos Santos e ali criou o núcleo Filhos de África, virado para várias modalidades artísticas, incluindo o teatro.
Alguns dos grupos vindos das demais províncias estão alojados em casas de outros actores de Luanda. Josef Pensa, director artístico do GTR, e principal organizador do Festival, disse que o evento “só é possível porque a família do teatro está unida”.
O proprietário do Centro Recreativo e Cultural Roseira, José Simões, dividia a atenção entre o desenrolar das peças e os pormenores relativos à luz e ao som do espectáculo. Meia-volta se levantava a correr para superar uma anomalia, bem à maneira de um antigo oficial das FAPLA.
Reafirmou o apoio incondicional aos movimentos juvenis no município. “Gosto de cultura. Temos condições para isso: palco, equipamento sonoro, luzes. Contem sempre conosco. Agradeço ao Jornal de Angola por divulgar esta iniciativa da juventude. Vocês nem sabem o que isso vale para estes jovens.”

capa do dia

Get Adobe Flash player




ARTIGOS

MULTIMÉDIA