Dança surpreende no Camões

Francisco Pedro|
2 de Julho, 2014

Fotografia: Kostadin Luchansky

“Ana Clara, uma vez mais, surpreende-nos, com todo o seu enorme talento, sensibilidade artística, ousadia e criatividade”, afirmou Teresa Mateus, directora do Instituto Camões - Centro Cultural Português, em Luanda, no final do último espectáculo de “Solos para um Dó Maior”, pela Companhia de Dança Contemporânea de Angola (CDC),

realizado na sexta-feira no auditório Pepetela.
A mais recente proposta da coreógrafa Ana Clara Guerra Marques foi apresentada num primeiro ciclo que decorreu entre 23 e 27 de Junho. Emocionada com a proposta, Teresa Mateus disse que o “Camões rejubilou”, e que foi um sonho concretizado de forma sublime.
A cada dia, e a cada espectáculo “sempre reinventado”, o público teve o privilégio de viajar pelo mundo de magia da coreógrafa, sempre carregado de sentidos e significado, partilhando o seu olhar comprometido sobre o mundo. Por isso, “Os Solos para um Dó Maior vão deixar muita saudade no Camões”, realçou a directora.
A obra é interpretada por sete bailarinos, Adilson Valente, André Baptista, António Sande, Armando Mavo, Benjamin Curti, Samuel Curti e Zuni Curti, sob direcção artística de Ana Clara Guerra Marques. Sobre o processo de criação, a coreógrafa disse que “Solos para um Dó Maior” foi construído com base num conto da oralidade tchokwé sobre um caçador que vai caçar e provoca um desastre natural ao matar demasiados animais.
No conto, explica a coreógrafa, entram uma série de personagens, como o caçador (protagonista, símbolo da coragem e da bonança), a sua mulher (símbolo da fertilidade e elemento essencial para a reprodução de outras vidas), o seu cão (animal fiel que simboliza a cumplicidade),  a morte (a certeza do inevitável e temida por todos) e o espírito Samuangi (simbolizando um antepassado com poderes propiciatórios para a caça).
A coreografia, que tem criação colectiva dos integrantes da CDC, resume como moral da história o facto de não serem precisas tantas mortes para manter a vida. A história funde-se, também, com extractos da obra “A Cidade Cruel” do escritor camaronês Eza Boto (Mongo Betti). “A ideia dos solos foi sintetizar num mesmo corpo (de cada bailarino) uma quantidade de categorias antónimas que são, no fundo, a essência da própria existência e vida humana. O conceito de morte só existe porque existe o conceito de vida e vice-versa”, disse a directora artística, tendo acrescentado que a peça é, no fundo, um desafio à morte, numa constante luta pela vida.
Os figurinos de “Solos para um Dó Maior” foram produzidos por Nuno Guimarães e Elisabeth Santos, iluminação a cargo de Ivo Machado, música de Bach, Philip Glass, Dead can Dance, John Cage e Jan Kaczmarek.
Embora nunca tenha conquistado um prémio no país, tendo em conta a profissionalização e insistência da CDC, trata-se de uma companhia de destaque por ser pioneira, desde 1991, e por resistir com um trabalho de nível internacional que ultrapassa o sentido da recreação. Por isso, a CDC vai voltar, de 7 a 11 deste mês, ao auditório Pepetela, do Instituto Camões , com “Paisagens Propícias, que vai ser apresentado pela primeira vez no país, a partir das 19h00.

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