Cultura

“Delinquência Juvenil” em representação no Camões

Jomo Fortunato

A evolução dos grupos de teatro, tal como a produção musical e dança, três disciplinas de impacto e fruição directa nos países africanos, merecem uma atenção especial no quadro das prioridades do sistema geral de ensino das artes e gestão cultural, nos países em vias de desenvolvimento.

Actores do Tata Yetu exibiram, quarta-feira, em Luanda, uma peça sobre delinquência juvenil
Fotografia: DR

O teatro em Angola tem conhecido uma dinâmica independente, muito dependente de vontades particulares, do trabalho das associações e do mérito dos colectivos de artes, que vão surgindo um pouco em diferentes localidades, sobretudo em Luanda.
Anderson de Sousa Mendes, dramaturgo do colectivo de arte “Tata Yetu” e encenador da peça, “Delinquência juvenil”, apresentada na passada quarta-feira, no Camões - Centro Cultural Português, falou da génese do seu trabalho, “Tivemos uma boa adesão do público, proveniente de várias localidades de Luanda que nos prestigiou com a presença. Quanto ao tema, julgamos que a delinquência juvenil tem como causas o abandono das famílias e, mais do que isso, o facto de não existirem estruturas vocacionadas para o suprimir. Todos sabemos que a delinquência juvenil não se combate unicamente com a reclusão. Tem de haver sensibilização das mentalidades, educação e criação de emprego.”
“A exibição foi boa, embora existam pessoas que, por miopia, ainda ignorem a realidade deste fenómeno. É bom que os jovens saibam que os mais velhos são a maior plataforma de agregação de valores da sociedade. Quando eles fazem mal, afecta significativamente os jovens que os têm como exemplo. A peça realça a perda de valores éticos e culturais. Termino, dizendo que, enquanto houver um pensamento crítico, que não se contenta com a aparência dos fenómenos históricos e se preocupa em desvendar a essência contraditória da realidade social, económica, política e cultural, estará em aberto a possibilidade da emancipação e transformação do mundo”, disse.
A jornalista, Marta Lança, num texto de suma importância publicado na plataforma digital, “Buala”, traça um quadro sobre o estado actual do teatro angolano, “Como em todos os sectores culturais, os festivais não fogem à regra do ciclo vicioso e dos monopólios dos territórios artísticos. As companhias que viajam com frequência são as que têm mais acesso às oportunidades ou se dinamizam mais. Por sua vez, se forem os mais vistos terão, naturalmente, mais convites e o ciclo repete-se. Mas tratam-se de iniciativas que aprofundam o conhecimento e a troca artística e cultural entre a comunidade teatral. Em Angola, o universo teatral mantém-se naquele estado de “potencialmente”, mas precisa de se agarrar a acções concretas que o façam sair da condição de advérbio para substantivo”.
De facto, há uma visível motivação que pode ser reaproveitada pelas instituições, públicas e privadas, que pode resultar em acções práticas, tal como a criação de um teatro nacional e uma melhor atenção na formação de actores e técnicos no domínio da dramaturgia, como aconselha mais adiante, em depoimento, o consagrado e experimentado actor, Meirinho Mendes.
A génese e importância cultural das artes cénicas reclamam um renascimento em todo o território nacional, pelo seu grande impacto pedagógico. O teatro acaba por reflectir o estado das sociedades e os modos do género dramático, tais como as performances individuais, tragédias, musicais, comédias e o teatro comunitário, que se apela urgente e itinerante, podem constituir um complemento ao sistema educativo, valorizando a arte na perspectiva inclusiva.

Sinopse
A peça “Delinquência Juvenil”, representada pelo colectivo de arte Tata Yetu, aborda a vida de um jovem que, por influência das más companhias, inicia um percurso desviante que o conduz à delinquência. Para grande desgosto dos pais e familiares, o jovem Filipe não aceita a gravidez de Sónia com quem tem uma relação amorosa. Este facto leva-a a pretender vingar-se do desprezo a que foi votada. O drama, enquadrada numa tipologia de teatro infanto-juvenil, tem como dramaturgo José Daniel e dramaturgista Anderson de Sousa Mendes. A encenação esteve a cargo de Pinto Gouveia, e a caracterização do “Renascer das estrelas”.

História
Segundo o documento digital que tivemos acesso, o colectivo de arte Tata Yetu, de inspiração teosófica, foi fundado na paróquia de São Francisco Xavier, em 2004, pelos catequistas Dimitrove Guimarães e Josué Neto, incentivados pelo Pároco Adelino Kangue Moma. Desde então, tem feito parcerias com outras associações culturais, com destaque para o Agrupamento 14 e o Movimento Lev’Arte. O colectivo de arte Tata Yetu foi o terceiro classificado na segunda edição do Concurso de Teatro Angola Independente, organizado pelo Grupo “Actos &Cenas” e tem participado em diversos Festivais de Teatro.

Ensino
Embora com alguma incipiência, existem compilações, ou, na melhor das hipóteses, textos representativos sobre a história do teatro angolano que podem ser introduzidos, enquanto cânone, no sistema geral de ensino, incluindo o universitário. A história do teatro angolano merece um estudo aprofundado nos meios académicos, para orgulho nacional, enquanto tema referencial da história de literatura angolana. As peças, a biografia dos actores e as obras sobre teatro, em várias abordagens, devem estar disponíveis nas bibliotecas dos estabelecimentos de ensino.

Depoimento
Meirinho Mendes, actor, produtor e director de actores, fez o seguinte depoimento sobre os factores que impedem o desenvolvimento do teatro em Angola: “Julgo que a proliferação de peças de teatro e o surgimento de inúmeros grupos de teatro é um sinal bastante positivo. No entanto, a ausência de uma formação sistematizada, falta de salas equipadas e a urgência na edificação de um Teatro Nacional, existentes em muitos países africanos, estão a impedir o desenvolvimento cabal do teatro angolano.”

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