Dimensão histórica e patrimonial da kazucuta

Jomo Fortunato |
23 de Fevereiro, 2015

Fotografia: Kindala Manuel

A dimensão histórica e patrimonial dos grupos de Carnaval com mais de meio século de existência,  ultrapassa a subjectividade da simples adição aritmética, do nosso respeitado e prestigiado júri.

 O ritmo sincopado e a singularidade estética da coreografia da kazucuta do Kabocomeu,  podem ser entendidos como actos de rebeldia e subversão, na ausência de estratégias intelectuais de contestação ao regime colonial português.
O relegado décimo primeiro lugar do União Operário Kabocomeu, nos resultados da 37ª edição do Carnaval  de Luanda, pode significar a destruição de uma tipologia coreográfica única no mundo, a Kazucuta, oriunda do Sambizanga, um bairro emblemático que vale pelo seu simbolismo cultural, social,e, fundamentalmente, político. A verdade é que, ao Sambizanga, associamos, de forma automática, o processo de luta clandestina, desencadeado por valorosos nacionalistas angolanos.
Existem grupos que, do ponto de vista estrutural e estético, e existência ao longo do período colonial,  constituem a espinha dorsal da tradição do  Carnaval de Luanda, sem os quais o entrudo poderá estar a anunciar a sua descaracterização, ou, na mais pessimista das hipóteses, o seu fim trágico. 
Estão na condição de património do Carnaval de Luanda, grupos com mais de meio século de existência,  tais como: o União Kiela, o mais velho dos grupos, fundado em 1947, União Operário Kabocomeu, 1952,  o célebre União 54, 1954, e o União Mundo da Ilha, de 1968, grupos que, pelo seu prestígio ao longo da história, transformaram-se em  verdadeiras instituições culturais.
É curioso lembrar que, na época colonial, a Kazucuta era efusivamente aplaudida pelos populares, quando percorria as ruas do Sambizanga, passava pelo antigo Musseque Pedrosa, quilómetro sete, arredores do Bairro Marçal, no limite da rua dos Combatentes, percorria o Bairro Operário, subia o Marçal, passava pelo Rangel, mais propriamente a Rua da Brigada até ao bairro da Lixeira, Município do Sambizanga, local da sede do grupo.
Uma das características mais importantes do União Operário Kabocomeu, é a preservação da matriz da Kazukuta, há sessenta e dois anos, forma de dançar que resulta da sonoridade de  execução da corneta, “Mbungo”, em Kimbundu, instrumento de metal que acompanha o ritmo da percussão, e que orienta o compasso cadenciado da Kazucuta. Associam-se depois outros instrumentos, ou seja, o som da batida das latas, a dikanza de metal e o apito, estando probidos o uso de  instrumentos que, pela sua natureza, descaracterizam a matriz clássica da sonoridade da Kazucuta.

Adereços

Quanto a palavra, Kabocomeu, a versão mais comum, defendida pelos mais antigos membros do grupo, é  a que sustenta a tese de que o nome surgiu por um fenónmeno de  corruptela que fundiu, pelo processo de aglutinação, os verbos: “acabou” (cabou) e “comeu”, dando origem à palavra,  Kabocomeu.  Os bailarinos trajam-se de forma variada,  contudo é comum vestirem calças listadas, casacos pretos ornamentados com espelhos e outros sortilégios coloridos, muitas vezes representando a hierarquia do exército. Os dançarinos cobrem os rostos com máscaras de animais, principalmente de porco, enquanto que as mulheres vestem-se de panos estampados.  Complementam a indumentária o cinturão vermelho, botas, geralmente pretas, tendo as mãos cobertas por luvas brancas. O União Operário Kabocomeu exibe guarda-chuvas na mão esquerda, sua marca distintiva, surgindo também com bengalas  e martelos.

História

Grupo referencial da história do Carnaval de Luanda, e vencedor da primeira edição do Carnaval do pós-independência, em 1978, o União Operário Kabocomeu foi fundado no dia 2 de Janeiro de 1952, em Luanda, pelo bailarino Joaquim António, o carismático, “Desliza”, operário de construção civil que trabalhou nos armazéns da firma, “Diogo e Companhia”, na época colonial. As canções  “João Domingos Yó” e “Makudié”,  temas clássicos e representativos do Carnaval de Luanda, são da autoria do grande “Desliza”,  seu eterno e valorizado comandante.
No entanto, outros nomes marcaram a vida, a história e a magnitude da obra do União Operário Kabocomeu: Joaquim Júnior, vocalista principal, Eugénio Filipe, Vice-comandante, Adão Índio, José Manuel (dikanza), Zindoca, Antoninho, Antonica, Manuel Kilenge, Dafuba, Carlos Gouveia, Francisco Avelino, Aguenta Homem, Francisca Marcolino, Zita, Adão Alexandre e Santa Adelina, foliões que fizeram história no grupo.

 Júri

Julgamos que os grupos de carnaval, através dos seus representantes, devem participar de forma activa, apresentando propostas, para a constituição dos membros do júri, optando por um critério de selecção que engajaria, de forma compósita, profissionais da velha e da nova geração.  Depois de nomeado, por consenso, o júri deveria ser submetido a um seminário que incide sobre a história dos grupos, sua constituição e tipologia dos adereços a avaliar. Antes da divulgação dos resultados o júri deve criar um espaço de debate para aferir se, eventualmente, há necessidade de alterar as avaliações parciais, ao nível da dança, canção, corte,  painel,  comandante, alegoria, e falange de apoio, para evitar a desclassificação de grupos patrimonias da hisória do Carnaval. Pensamos que deve ser repensada, a descida de escalão de  grupos que grangearam prestígio ao longo da história do Carnaval,  e que possuem mais de meio século de existência.

Plano

Defendemos a realização de um “Plano nacional de reorganização do carnaval”,  visando a melhoria do estado actual da sua realização, para que se  instaurem mudanças estruturais na estética e na organização do Carnaval, a nível Nacional, num processo que engajaria: Governos provinciais, representantes dos grupos de Carnaval, blocos de animação, Comissão Preparatória do Carnaval, Associações Culturais e todos os intervenientes e interessados  na  realização do Carnaval. O plano, na sua essência, teria os seguintes objectivos: reorganizar a estrutura interna dos grupos, discutir formas de financiamento dos grupos, preparar o júri com seminários, criar e rentabilizar a sede dos grupos, transformar os grupos em associações, realizar eleições e potenciar o estatuto da Associação Provincial do Carnaval de Luanda (APROCAL), incentivar o surgimento de mais associações do carnaval nas Províncias, documentar, em vídeo, ou em outros suportes de registo digital, a história do carnaval, criar estratégias de transformar o Carnaval em verdadeiro produto turístico, definir a forma de apresentação e definir o número de foliões  das falanges de apoio, criar um prémio para os grupos que venham a permanecer mais tempo na rua.

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