Diversidade de temas em banda desenhada

João Dias |
23 de Agosto, 2015

Fotografia: Paulino Damião

A 12.ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada e Animação de Luanda abriu portas na sexta-feira no Centro Cultural Camões com os seus “mil e um tons” e temas expressos nas revistas de banda desenhada e na grande diversidade de intervenção artística. Com acesso livre, o Luanda Cartoon 2015 prolonga-se até ao dia 28 deste mês.

No interior do rés-do-chão do Instituto Camões as paredes e pilares vestiram-se de arte, destacando-se a figura da “Diva Mumuila sobre a Palanca Negra Gigante” e a expressão da beleza africana diluída no retrato colorido de uma mulher com as suas tranças longas, ambos do artista Sombra Under Graffi.
Logo à porta está uma mesa cheia de revistas de banda desenhada. No interior, apinhado de aficionados pela arte do cartoon, os tons revelam que os artistas angolanos e estrangeiros  elevam a sua veia criativa. O cartoon, a animação e a banda desenhada com uma pitada de humor patentes no festival demonstram isso. O espaço onde decorre o festival tornou-se exíguo para o grande número de jovens que quis ver a exposição no primeiro dia. Os jovens e amantes da arte acorreram ao espaço para se deleitarem com a exposição de artistas angolanos e de outras latitudes: Gabão, Portugal e República Democrática do Congo. A atmosfera convida à contemplação, mas sobretudo provoca inquietação, dada a plasticidade e beleza da arte apresentada.
“Estou muito surpreendida. Nunca soube que estes festivais congregavam toda esta arte bela. Fiquei com o sentimento de perda quando soube que o festival vai na sua 12.ª edição. É a primeira vez que venho ao festival. Já não perco as próximas edições”, prometeu a estudante Vanessa Amaral. 
Com a exposição “40/40”, dos angolanos Carnoth Júnior e Tché Gourgel, “Cota Boy” do também angolano Casimiro, e dos trabalhos do cartoonista português, Paulo Monteiro e Jerémie Nsingui, da República Democrática do Congo e ainda do cartoonista gabonês Pahé, o Luanda Cartoon incita à iniciação artística e convida à apreciação estética. Os cartoons viraram o tema de fundo de vários smartphones e o motivo para muitas “selfies”.

Olhar artístico

O fotografo Edson Chagas, conhecido pelas exposições fotográficas como “Tipo Passe”, “Luanda Cidade Enciclopédica”, entre outras, disse ter ficado com “muito boa impressão” sobre o que estava a ver no festival. “Não tinha a noção de quão grandioso está o festival e da quantidade de pessoas interessadas no cartoon e na banda desenhada. É gratificante que comece a existir em Luanda diversidade de eventos culturais. Vejo aqui pessoas de várias idades a ver diferentes perspectivas e temas na arte do cartoon”, sublinhou Chagas.
O escultor Etona, presente no primeiro dia, disse que o actual contexto em que o país se encontra deve constituir uma oportunidade para os jovens se expressarem do ponto de vista artístico.  “A sala está cheia de muita juventude. Que haja mais força entre eles para continuar a investigar a arte!”, disse, pedindo que os angolanos sejam cada vez mais “nós mesmos” e levem uma “mensagem coerente, forte e cheia de valores ao mundo”.
O criador Sombra Under Graffi, com obras expostas no festival, explora a plasticidade e encanto natural da mulher africana. Com sprays, as tintas com que se fazem os “graffities”, Under Graffi tem retratos soberbos da mulher angolana feitos na parede do Centro Cultural Camões. Os cabelos longos pintados a spray revelam quanto é soberba a beleza angolana sem recurso aos “make up” ou maquilhagem. “Este festival veio para influenciar os jovens a desenvolver a sua arte para que amanhã possam ganhar autonomia artística e expor as suas obras. O festival representa uma grande oportunidade”, notou Under Graffi.

"Cota Boy" e "Amor Infinito"

De Portugal veio o cartoonista Paulo Monteiro com o seu “O Amor Infinito que Tenho”, que reúne dez curtas bandas desenhadas sobre o amor nas suas múltiplas vertentes. Paulo Monteiro disse que o festival está a ser uma surpresa, dada a atmosfera e a proximidade entre os autores e público. “Há muitos anos que tinha vontade de vir a Luanda. Está a ser muito mais do que aquilo que estava à espera e, além de autor de banda desenhada, sou director do Festival de Banda Desenhada de Beja, em Portugal. Trago algumas novidades e levo muitas daqui e a perspectiva de, no futuro, podermos trabalhar juntos”, referiu.
O cartoonista lembrou o que se faz em Portugal e disse ser uma banda desenhada muito diversificada, havendo autores para todos os gostos, desde os Mangal ao estilo japonês até aos autores mais alternativos. “Publica-se um bocadinho de tudo. O único problema é que não se publica nas grandes editoras. Mas em Portugal estamos a atravessar do ponto de vista da criatividade um bom momento.”
O cartoonista angolano Casimiro tem em banda desenhada o “Cota Boy”. De forma tragicómica, expressa a vertente sociocultural do quotidiano do luandense. “O festival em si”, sublinha Casimiro, “é uma iniciativa louvável. O grande esforço do Instituto Camões é notável na divulgação dos nossos trabalhos. Estamos no  bom  caminho.”

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