Do Bairro Rangel aos grandes palcos

Jomo Fortunato |
14 de Março, 2016

Fotografia: Paulino Damião

Notabilizou-se pela interpretação de canções do Urbano de Castro, em reggae, género musical com o qual diz manter uma relação de inequívoca proximidade.

Cantor e compositor, Legalize mantém viva a memória da Música Popular Angolana da época colonial, revisitando a intemporalidade das obras de David Zé, Artur Nunes, Kinito, e Teta Lando, as suas principais referências musicais.
Legalize, nome atribuído por uma amiga do cantor no período de legalização dos angolanos em Portugal, recordou, visivelmente nostálgico, as memórias da sua infância, e os primeiros contactos com a música: “Sempre cantei, e julgo ter sido um impulso natural. Recordo-me que quando era criança os mais velhos gostavam de me ouvir cantar. No entanto, nunca pensei que seria um cantor sério. O profissionalismo surgiu depois em Portugal, quando me juntei a um grupo de angolanos, com propensão para a música. Nesta época, cantar era também uma forma esquecer os males, e matar as saudades de quem estava muito longe da sua terra”.
Do Bairro Rangel onde nasceu, em 1975, Legalize guardou as recordações de um ambiente que fervilhava de música, um contacto primário que veio a marcar o início de uma carreira que se concretizou, de forma profissional, muito mais tarde. Aos cinco anos de idade, Legalize deixou o bairro que o viu nascer, e foi viver no Mártires de Kifangondo. Frequentou a instrução primária, na Escola Bom saber, Santa Teresinha e depois concluiu a 5ª classe na Escola Ngola Kanini.
Filho de Manuel Neto e de Domingas Baltazar, António dos Santos Neto, Legalize, nasceu em Luanda no dia 7 de Setembro de 1975. As contingências do conflito armado em Angola, levaram-no a emigrar para Portugal, em 1991, onde viveu catorze anos, país onde fez de tudo para sobreviver: “Fui ajudante de pedreiro, estive nos navios, lavei pratos nos restaurantes e fiz de tudo um pouco para comer”, contou Legalize.
Em 2000, Legalize integrou a banda “Sembaregaae” fundada por Ney Corte Real, percussão e voz, Zé Mueleputo, viola solo, João Cabeleira, viola ritmo, Sérgio Bolota, bateria, Caly, viola baixo, e Mestre Capitão, percussão e voz. Com a saída de Ney Corte Real da banda “Sembaregaae”, a formação mudou de nome e passou a designar-se “Tropical roots”, banda com a qual Legalize conheceu várias localidades no interior de Portugal, incluindo as cidades do Porto e Algarve.
Em 2000 associou-se ao movimento “Fãkambareggae”, com o MC e trabalhou com os DJ’s Lopes Cortês, Príncipe Wadada e BadSpirit: “ Nesta altura estava muito presente a minha intenção de cantar. Sempre gostei das coisas da terra, e sou claramente influenciado por David Zé, Urbano de Castro, Artur Nunes e Sofia Rosa, no entanto o reggae, e as canções do Bob Marley, sempre me tocaram. Fui muito motivado pelo “Fãkambareggae”, um movimento rasta que existiu em Portugal nos meus tempos de exílio, que veio a descobrir muitos talentos”.
Em 2002, ainda em Portugal, Legalize apresentou-se em França e Espanha, com a “Banda Kussundolola”, de Janelo Costa. Legalize já dividiu o palco com o histórico conjunto Jovens do Prenda, o grupo, os Tueza, com Zeca Torres, voz e teclado, Calili, baixo, Elisa Barros, voz, Chiley, viola ritmo, na banda Mizangala DT, e na Banda Yetu, de Fiel Didi, voz, Luís Lau, voz, Zé Mueleputo, viola solo, França, viola ritmo, Matias, viola baixo, Hugo Macedo, teclas, Chalita, bateria, Graça e Chikilson, congas, e Lito Braga, nas teclas.

Preconceito

Actualmente há muitos artistas que cantam em línguas nacionais, e são muito bem recebidos pelo público, mas, segundo Legalize, nem sempre foi assim. “Quando comecei a cantar a recepção foi muito diferente da actual. Havia o preconceito de que cantar em inglês era sinónimo de modernidade. Julgo ter sido um dos primeiros, sobretudo dos jovens da minha geração, a interpretar canções referenciais da história da Música Popular Angolana. Hoje o panorama artístico mudou, e muitos enveredaram para a valorização do património musical, um comportamento que julgo muito positivo”.

Carnaval

O Carnaval, enquanto festa popular, tem despertado o interesse de Legalize que se revelou como compositor do Carnaval, em 2011, com a canção: “O trabalho dignifica o homem”, género semba, do grupo infantil União Cassules do Fogo Negro, do município da Maianga,  que tem como comandante Augusto Correia, grupo de Carnaval fundado no dia 01 de  Janeiro de 1996. Na edição 2014 do Carnaval de Luanda, Legalize foi convidado por António de Oliveira, um dos responsáveis da APROCAL, Associação Provincial do Carnaval de Luanda, a interpretar a canção “Dimba DyaNgola”, do grupo União Dimba DyaNgola. Na edição seguinte interpretou a canção “O kwanza agora é novo”, da autoria de José Luís Martins, “Xabanu”, integrante do referido grupo.

Discografia

Em 2003, Legalize gravou em Portugal o CD, “Deus vive”, que inclui as canções “Ndengue da banda”, “Dreadlock na city”, com participação especial de Prince Wadada, “Mbora bailar”, “Tambi”, “Genesis”, origens do mundo, “Reggae Negro”, “Mãe Angola”, “Reggae rasta”, “Angolamente dub”, e “Mbora dançar dub”. “Deus vive 2” foi regravado em Angola, em 2006, pelo INALD, Instituto Nacional do Livro e do Disco. Legalize gravou depois, em 2011,  o CD “Mulundu”, em 2011, que inclui os temas  “Rumba mulundo”, “Angola”, “Bilingeiro”, com participação especial de Calabeto, “Kalumbayo”, "Gajageira", “Luimbi”, “Planké”, “Arroz doce”, “Da blusa”,  e “Naomi” uma edição conjunta entre a BMax, LS produções, Kriativa e Chicote Produções, teve a participação de Joãozinho Morgado, tumbas, Carlitos Tchiemba, viola baixo, Chalita, bateria, Gabi Moi e Calabeto, vozes. Livongue, teclas, Boto Trindade, viola solo, Zé Mueleputo, viola solo, Kintino, viola ritmo, Mias Galheta, viola baixo, e Carlitos Tchiemba, viola baixo. O tema “Gajageira”, de Urbano de Castro, fez parte do projecto “Picante 2”, do DJ Dias Rodrigues.

Depoimento

O conceituado guitarrista, Zé Mueleputo, amigo e companheiro de Legalize durante o exílio em Portugal, e colega na Banda Yetu, de Fiel Didi, fez o seguinte depoimento sobre o cantor: “Fui a Portugal com Elias diá Kimuezo, em 1996, e fiquei por lá. Dois anos mais tarde conheci o Legalize que me convidou para gravar o seu CD “Deus Vive”, com canções em reggae, incluindo a interpretação de uma canções do Urbano de Castro.
Depois ele fez parte do “Tropical roots”, um grupo que integrava angolanos e portugueses, onde eu era solista e responsável do grupo. Com esta banda corremos Portugal e ele era vocalista.
 Legalize é um grande cantor e interpreta, como ninguém, Urbano de Castro, David Zé, Artur Nunes, e Teta Lando, ou seja, é único a interpretar canções do nosso passado musical. Depois do nosso encontro em Portugal, ele voltou para Angola, para participar num festival de reggae e nunca mais voltou.
Na sequência regresso também a Angola, em 2006 para montar a Banda Yetu, a convite do Fiel Didi. Como Director do grupo integrei o Legalize, e gravamos o CD “Rio Dande”, onde ele cantou a maior parte das músicas. Encontrámo-nos novamente no Projecto Picante, do Dias Rodrigues, onde ele interpretou "Gajageira”, tema em que participei como viola solo. Fui solista ainda no CD “Mulundu”, do Legalize, um cantor que muito admiro, e espero que tenha muitos êxitos na sua carreira.”

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