Cultura

Drama “Esquadrão Kamy” nos palcos de Cabo Verde

Manuel Albano

O espectáculo dramático “Esquadrão Kamy” foi o escolhido para representar o país na 25ª edição do Festival Internacional de Teatro do Mindelo (Mindelact), a decorrer de 7 a 16 de Novembro, em Cabo Verde.

Quotidiano de nacionalistas angolanas que participaram na luta de libertação é apresentado ao público no palco de Mindelo
Fotografia: DR

A peça, que estreou em Janeiro deste ano, na Casa das Artes, em Talatona, foi escolhida, em particular, pela direcção do Mindelact, pela originalidade da adaptação dramática e o impacto que teve após a estreia, assim como por ser uma representação do papel das mulheres na luta de libertação nacional, numa era de emancipação.
A organização do festival, que este ano celebra as “bodas de prata”, considerado um dos mais importantes a nível dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), espera com a peça conseguir passar à próxima geraçãouma mensagem altruísta e de superação.
“Esquadrão Kamy” vai ser exibida no palco 1 do Mindelact, onde são apresentados os espectáculos de maior importância e exigência técnica. Este ano, a organização vai também estabelecer uma “ponte” para a exibição das peças entre Mindelo e Praia, a capital de Cabo Verde.
O drama, que conta a história de nacionalistas angolanas que ajudaram na luta de libertação e da Independência Nacional, tem tido uma recepção positiva da crítica, já vista também pelo casal presidencial, João Lourenço e Ana Dias Lourenço.
A aceitação da peça, disse o encenador e director artístico do espectáculo, Flávio Ferrão, fez com que a direcção do Mindelact fizesse um convite directo, ao invés do habitual processo de candidatura, ao qual é submetida a maioria dos grupos.
O convite, informou ontem Flávio Ferrão ao Jornal de Angola, foi endereçado directamente pelo director do Mindelact, João Bravo, que já teve contacto com a peça e reconheceu ainda a importância do espectáculo.
Para Cabo Verde, adiantou, viajam nove elementos, dos quais cinco actrizes, o director artístico, dois técnicos e um fotógrafo. Porém, acrescentou, para poderem estar preparados financeiramente, vão realizar três espectáculos, de forma a assumirem algumas despesas, embora esperem por apoios do Ministério da Cultura.
Desta forma, explicou, a peça “Esquadrão Kamy” é exibida, novamente, ao público nos dias 6 e 7 de Setembro, na Casa de Artes, em Talatona, Luanda. O último espectáculo ainda não tem data nem local confirmados. “Mas já estamos a trabalhar para poder dignificar o país. Levamos o convite a sério e com bastante responsabilidade, pois queremos deixar uma boa impressão.”

A história
“Esquadrão Kamy” é uma peça sobre ao passado e a história da participação das nacionalistas Deolinda Rodrigues de Almeida, Irene Cohen, Lucrécia Paim, Engrácia dos Santos e Teresa Afonso na luta contra o colonialismo e a sua incorporação, como combatentes, no Esquadrão Kamy, uma coluna guerrilheira treinada em 1966.
O Esquadrão Kamy, como lembra Flávio Ferrão, era treinado por nacionalistas cubanos, cuja missão era levar reforços da fronteira do Congo até à I Região Político-Militar no interior de Angola. Porém, o acto não foi bem sucedido, elas foram presas nos arredores da pequena vila de Kamuna e posteriormente assassinadas, no dia 2 de Março de 1966. Este dia é consagrado como o Dia da Mulher Angolana.
O objectivo da peça, defende o encenador, é levar o público a entender, pelo teor dramático, o que aconteceu na odisseia de regresso ao Congo, depois da tentativa fracassada de entrar no interior de Angola. “Sabemos que Cabo Verde também tem heroínas e levar ao festival a história de mulheres que combateram na luta de libertação cria uma expectativa muito grande”, disse.
O espectáculo, reforçou, procura ainda criar uma reflexão em torno da valorização do esforço abnegado das valentes heroínas, que deram um grande contributo para o país ser livre, unido e independente. Resultante de uma produção da empresa Bucos, “Esquadrão Kamy” é interpretada por Sofia Felicidade Alberto Buco, Naed Branco, Lia Carina de Sousa Monteiro, Zoé Silva e Ailsa Renata Gota Conceição de Sousa.

Organização
Este ano, a programação do Festival Internacional de Teatro do Mindelo vai incluir diversos espaços, como o palco 1, a ser montado para espectáculos de maior porte e exigência técnica, ou o 2, para peças mais intimistas, o teatrolândia, destinado aos dramas infantis, e o teatro na praça, para encenações de rua de todas as idades.
Outra novidade deste ano é a realização do “Festival Off”, dedicado exclusivamente aos grupos e projectos de criadores cabo-verdianos.

Mérito
A direcção do Mindelact outorgou, ainda este ano, o Prémio de Mérito Teatral 2019, a Elisabeth Gonçalves “Bety”, em reconhecimento ao seu percurso, como actriz, figurinista, encenadora e aderecista. “Um verdadeiro ‘camaleão’ que se transforma em palco e nos bastidores”, refere a organização cabo-verdiana, num comunicado na sua página online.

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