Drama social conquista Festival de Cannes


29 de Maio, 2016

Fotografia: Reuters

Contrariando a maior parte das previsões, o júri presidido por George Miller atribuiu a Palma de Ouro de Cannes ao filme “I, Daniel Blake”, um drama social realizado pelo britânico Ken Loach.

Com o prémio, o veterano realizador inglês Ken Loach entrou para o prestigioso clube dos vencedores repetentes do Festival de Cannes. O filme “I, Daniel Blake” permitiu-lhe obter a sua segunda Palma de Ouro, dez anos depois de ter arrebatado a mesma distinção com “Brisa de Mudança”.
O filme narra o drama de um carpinteiro, interpretado por Dave Johns, que devido aos seus problemas cardíacos tenta obter ajuda da assistência social, mas acaba numa desgastante teia burocrática.
Com a lógica política do seu cinema, sempre enraizada na frondosa tradição realista britânica, o vencedor agradeceu ao júri, presidido por George Miller, num discurso em que verberou os desequilíbrios provocados pelo “liberalismo”. Considerando que “o mundo chegou a um ponto perigoso” em que o cinema pode assumir uma posição moralmente “dissidente”, condensou a sua mensagem nestas palavras: “Outro mundo é possível e necessário.”
A história de Cannes ensina que as previsões dominantes dos jornalistas que acompanham o festival raras vezes são confirmadas pelo júri oficial. Neste ano, as discrepâncias foram maiores do que nunca. Desde logo alguns dos títulos apontados como candidatos mais fortes à Palma de Ouro ficaram fora dos prémios, como o filme alemão “Toni Erdmann”, de Maren Ade, ou a produção brasileira “Aquarius”, feita por Kleber Mendonça Filho.
O Grande Prémio, “segundo lugar” do festival, acabou por pertencer ao jovem canadiano Xavier Dolan, com “Juste la Fin du Monde”, adaptado da peça homónima de Jean-Luc Lagarce, sobre uma família em aguda crise de relações. Para Xavier Dolan, Cannes é uma montra essencial do seu trabalho, onde conseguiu esta distinção dois anos depois do seu filme “Mama”, lhe ter valido o prémio do júri.

Muitas crises

Os filmes de Loach e Dolan podem resumir uma “tendência” fundamental da selecção oficial de Cannes: muitos filmes deram a conhecer personagens que vivem e, sobretudo, sobrevivem através de profundas crises sociais e emocionais.
Este ano, escapando a quase todas as expectativas, o júri distinguiu nos prémios de interpretação a filipina Jaclyn Jose, em “Ma’ Rosa”, de Brillante Mendoza, e o iraniano Shahab Hosseini, em “Le Client”, de Asghar Farhadi. Este último conseguiu a proeza de ser o único filme distinguido duas vezes, já que o prémio de argumento foi para o próprio Asghar Farhadi.
“American Honey”, o primeiro filme da inglesa Andrea Arnold gravado nos EUA, recebeu o prémio do júri. Numa decisão francamente invulgar, porventura reveladora de significativas diferenças de avaliação entre os membros do júri, o prémio da realização foi atribuído ao romeno Christian Mungiu, por “Bacalaureat”, e ainda o francês Olivier Assayas, por “Personal Shopper”.
Entre os ausentes do palmarés ficam ainda os filmes de Jean-Pierre e Luc Dardenne, “La Fille Inconnue”, de Jim Jarmusch, “Paterson” e de Paul Verhoeven, “Elle”, este último, em particular, tinha aquela que foi, para muitos, a melhor actriz de Cannes: Isabelle Huppert. Outra distinção da cerimónia foi a atribuição da Palma de Ouro honorária ao actor Jean-Pierre Léaud, uma das figuras mais lendárias da história do moderno cinema francês.
A “festa” do cinema de Cannes é uma das mais prestigiadas e famosas  do mundo. Acontece anualmente, no mês de maio. Além da exibição de produções recentes, o festival inclui o célebre  “mercado do filme”.

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