Em memória do cantor e compositor Mamukueno

Jomo Fortunato |
1 de Setembro, 2014

Fotografia: Jomo Fortunato |

A morte inesperada do Mamukueno é um claro sinal do fim de um ciclo geracional  de cantores e compositores referenciais do período colonial, sobretudo os que iniciaram as suas carreiras em meados dos anos quarenta, até a data do encerramento da FADIANG, Fábrica de Discos de Angola, com sede no Bié,  e da CDA, Companhia de Discos de Angola, em Luanda, no dealbar da independência de Angola.

O ciclo que vai do surgimento da rádio em Benguela, em 1931, com Álvaro Nunes de Carvalho, até aos primórdios da  formação da Música Popular Angolana, entendida como manifestação urbana, é dominado, essencialmente, pela música folclórica. De notar que o aparecimento da rádio em Angola, foi um passo muito importante para o desenvolvimento, difusão e promoção da música popular.  Só depois surgem os conjuntos,e, de forma individualizada, os grandes nomes de intérpretes, cantores e compositores, muitos dos quais, provenientes das turmas, tais como: Elias Diá Kimuezo, David Zé, Urbano de Castro, Carlos Lamartine, Artur Nunes, Paulo 9, Sofia Rosa, Paulino Pinheiro, Tonito, Manuel Faria, Carlos Burity, António Paulino, Tony Von, Xabanú, Santos Júnior, Calabeto, Óscar Neves, Luís Visconde, Boano da Silva, Dominguinhos, Artur Adriano, António Sobrinho, Dionísio Rocha, Pedrito, Laks Alberto, Jaburú, Avozinho, e Mamukueno, citamos apenas os nomes de cantores com obra produzida. No entanto, nem todos  gravaram discos, tais como Tonito, Xabanú e Luís Visconde.
Mamukueno é nome artístico de José Matias, cantor e compositor que iniciou a sua carreira musical, em 1965, a tocar dikanza, vulgo reco-reco, instrumento artesanal feito de bordão, nas turmas, que eram pequenas formações de jovens artistas, que se emancipavam dos grandes grupos de carnaval.
Filho de Matias Domingos e de Maria Miguel,  Mamukueno nasceu no dia 5 de Outubro de 1946, em Luanda, cidade onde iniciou a sua carreira musical. Em 1966, integrou o grupo teatral "Estrela Negra", como vocalista principal, com Paixão, também conhecido por El Óscar, Paquete e Arnaldo Van-Dúnem, vulgo Cascadura. Foi com o “Estrela negra” que Mamukueno  fez a sua primeira aparição pública nos palcos do Cine Ambriz, numa época em que cumpria o serviço militar obrigatório,  no exército colonial português.
De 1968 a 1970, fundou o conjunto “Mamukueno e o seus kubanzas”,  uma formação músical que teve a seguinte composição: Ressureição (tambores), Mário (guitarra), Jomar (dikanza), iniciando , a partir de  1970, a sua carreira a solo, inaugurada num espectáculo realizado no cinema São João . Mamukueno interrompeu a sua carreira musical, em 1972, para cumprir o serviço militar obrigatório, no exército colonial português, não se desligando totalmente da música. É assim que participou em espectáculos de pequena dimensão, essencialmente para militares, incluindo concertos nas festas da cidade, como as da Nossa Senhora do Monte, na Huíla, isto até 1974, ano em que abandonou o serviço militar. Ainda na época colonial, Mamukeuno era presença frequente no Ngola Cine, Kutonokas, Kussunguila e Boite Tamar.
Em 1974, fora da música, exerceu a profissão de pintor-auto na Manauto, um empresa angolana ligada ao ramo automóvel. Contudo, nunca deixou de compor, tendo participado em actividades culturais e de entretenimento, tais como o “Dia do Trabalhador” e nas festas da própria empresa.
Em 1979, abandonou a profissão de pintor-auto, e integrou os “Diamantes Negros”, uma formação da então Secretaria de Estado da Cultura de Angola. Com a extinção dos “Diamantes Negros”, Mamukueno fez parte do agrupamento “Semba Tropical”, com o qual realizou importantes digressões no exterior de Angola, incluindo Londres, onde, em 1983. No mesmo ano participou na gravação do primeiro LP do “Semba Tropical in London”, seguindo-se depois a sua integração no projecto musical “Canto Livre de Angola”, na República Federativa do Brasil, tendo realizado actuações nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Baía.
 
Distinções

Depois de uma pausa involuntária na sua carreira, em 1985, Mamukueno retornou aos palcos, em 1990, ano em que recebeu o Diploma de Mérito pelo Centro de Espiritualidade e Cultura Monsenhor Cónego Manuel das Neves. No dia 30 de Outubro de 2005,  Mamukueno foi homenageado pela Rádio Nacional de Angola, no âmbito do programa "Poeira no Quintal", tendo sido lançado, na ocasião, o CD “Memórias de Mamukueno”, uma compilação das principais canções do cantor. Com a reedição do CD “Ueza Kuguiambela” (vieram me dizer), em Junho de  2006,  Mamukueno recebeu, dois anos depois, uma Menção Honrosa, pela Rádio Escola, outorgado pela participação no Festival Som de Verão. Mamukueno fez a sua primeira digressão pelo exterior do país, em 1980, tendo como destino a  República de S. Tomé e Príncipe, seguindo-se depois Portugal, República Democrática Alemã, Rússia, Cuba e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Discografia

Mamukueno gravou o seu primeiro single, “Ueza ku nguiambela”, em 1971, pela Valentim de Carvalho, seguindo-se outras gravações, perfazendo um total de sete singles na época colonial. Na sequência, surgiram reedições de velhas canções: o CD “Memórias de Mamukueno” (2005), e a  regravação do CD “Ueza Kuguiambela” (vieram me dizer), aconteceu em Junho de  2006 . Em “Ueza Kuguiambela”, com dez faixas musicais, predomina o género semba, e teve as participações de Nanutu, Dodó Miranda, DJ Mania,  Calo Pascoal, Yeyé Júnior e Chalita. "Ueza Kungiambela", um clássico de Mamukueno, é uma canção que lamenta o desaparecimento  do seu pai, morto por assassinato, (Ueza Kungiambela, papá mugiba... vieram me dizer, que mataram o meu pai), são os primeiros versos desta canção). Em  2009 veio a público, o single promocional “Tambulenu” (recebam) com quatro faixas músicais. A reedição do “Tambulenu”, com doze músicas, teve a participação dos músicos Calô  Pascoal, Pedrito, Betinho Feijó, Joãozinho Morgado e Chalita. A versão house de “Tambulenu” dos DJ’s Jeff e Silyvi, teve um enorme sucesso, junto do público jovem. O CD “Nga Sakidila”, (muito obrigado, em kimbundo), último trabalho de Mamukueno, saiu a público em Dezembro de 2013. Durante a sua carreira na época colonial, Mamukueno gravou com os Jovens Prenda, Ndimba Ngola e Corvos.

Morte
 
A morte de Mamukueno, pelo menos para a classe artística e generalidade do público, aconteceu de forma inesperada. O cantor e compositor morreu no dia 23 de Agosto de 2014, vítima de doença, e os seus restos mortais foram sepultados no cemitério do Alto das Cruzes, em Luanda, no dia 27 de Agosto de 2014.

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