Escritor jamaicano conquista o Man Booker


18 de Outubro, 2015

Fotografia: Reuters

O escritor jamaicano Marlon James venceu o Man Booker Prize com o romance “A Brief History of Seven Killings”, sobre uma tentativa de assassinato do músico Bob Marley em 1976, noticiou ontem a agência Reuters.

Marlon James, de 44 anos, é o primeiro escritor da Jamaica a vencer o mais prestigiado prémio literário britânico para o melhor romance. “Isto é tão ridículo que vou acordar amanhã e não aconteceu”, afirmou Marlon James quando subiu ao palco, depois de ter sido anunciado vencedor, na cerimónia em Londres, dedicando o prémio ao falecido pai com quem, nos bares de Kingston, fazia “duelos” literários baseados em Shakespeare quando era adolescente.
O livro aborda, em 686 páginas, os conflitos políticos e a ascensão do tráfico de drogas na Jamaica e tem um capítulo escrito em crioulo jamaicano. Este é o terceiro romance do escritor que vive em Minneapolis, nos Estados Unidos. O primeiro, “John’s Crow’s Devil”, sobre a relação entre dois pregadores rivais na Jamaica dos anos 50 do século passado, quase ficou escondido para sempre num disco rígido de computador, depois de ter sido recusado 78 vezes pelas editoras abordadas por Marlon James. Acabaria por ser editado em 2005 e seria seguido, em 2009, por “The Book of Night Women”, romance sobre o flagelo da escravatura, narrado por uma personagem jamaicana nascida escrava numa plantação de açúcar do século XVIII.
Marlon James, radicado nos Estados Unidos, onde lecciona escrita criativa no Macalester College de Saint Paul, Minnesota, classificou “A Brief History Of Seven Killings” como um “romance de exílio”, explicando que, se vivesse neste momento na Jamaica, não o teria escrito. “Não queremos falar de história, nem da corrupção”, declarou o escritor ao jornal “The New York Times”. “Amo o meu país até à morte, mas também tenho memória de quanta da história foi paga com sangue”, justificou.
Casos sangrentos, destacou o “The New York Times”, é o que não falta ao livro polifónico em que convivem as mais diversas personagens (agentes da CIA e da polícia jamaicana, políticos, exilados cubanos, traficantes de droga, jornalistas, Bob Marley, identificado sempre e apenas como “O cantor”).  O momento decisivo que serve de ignição a toda a narrativa é a tentativa de assassinato de Bob Marley, em 1976, na sua própria casa e a poucos dias de um concerto pela paz, marcado para coincidir com as eleições que dividiam então o país em dois, gerando enorme violência interna (entre gangues rivais apoiantes de cada um dos partidos e com uma polícia endemicamente corrupta) e uma intensa actividade geopolítica.
A história desenrola-se até à década de 80, saltando da Jamaica para os Estados Unidos, onde traficantes jamaicanos desempenharem importante papel no tráfico de droga. “É um romance policial que se move para além do mundo do crime e nos leva a uma história recente de que sabemos muito pouco”, disse o presidente do júri, Michael Wood, após anunciar o vencedor.
O presidente do júri afirmou ainda que se tratava de “um livro extraordinário”. Citado pelo jornal britânico “The Guardian”, Michael Wood acrescentou que é um romance “muito excitante, violento e cheio de palavrões. Foi uma decisão unânime e o júri não teve nenhuma dificuldade em decidir”. O livro, acrescentou o “The Guardian”, tem muitos admiradores.

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