Escritores são testemunhas do seu tempo


15 de Dezembro, 2014

Fotografia: Divulgação

“Testemunha e prisioneiro do seu tempo” foi assim que o novo Nobel da literatura, Patrick Modiano, definiu, em Estocolmo, a condição do escritor no discurso na cerimónia na qual lhe foi entregue o prémio da Academia Sueca.

“Um romancista está marcado de forma indelével pela sua data de nascimento e o seu tempo, ainda que não tenha participado de forma directa em acções políticas, ainda que dê a impressão de ser um solitário, entrincheirado no que chamam a sua torre de marfim”, afirmou o escritor.
A importância do passado histórico e do presente, Paris e a ocupação nazi de França são temas constantes da obra de Patrick Modiano, que se definiu como “uma criança da guerra, que deveu o seu nascimento à Paris da ocupação”.
Como um produto do século XX, filho de uma actriz flamenga e de um judeu de origem italiana, mas a olhar nostalgicamente para os narradores do século XIX, o Nobel declarou que “antes o tempo decorria de forma mais lenta do que hoje”.
“Era uma lentidão essencial ao trabalho da escrita, pois permitia concentrar energia e atenção”, referiu Patrick Modiano. 
“Pertenço a uma geração intermédia e tenho curiosidade de saber como as gerações que me sucedem, que nasceram com a Internet, telemóveis, e-mails e Twitter, se expressam através da literatura neste mundo em que estamos sempre ligados e as redes sociais comprometem uma parte da intimidade e do segredo que, até há pouco tempo, era o nosso valor mais acarinhado, porque dá profundidade às pessoas e é um grande tema literário”, sublinhou.
Patrick Modiano não parece ter vivido a contemporaneidade com qualquer pessimismo: “Estou convencido que os escritores do futuro podem assegurar a qualidade como faz cada geração desde Homero.” No seu discurso, o 15º Nobel francês da literatura delineou a linhagem a que acredita pertencer, assim como salientou o papel dos escritores, pintores e músicos, “que praticam uma arte superior à do romance”.
Patrick Modiano - uma escolha inesperada, pois não integrava sequer o “top ten” dos autores que as casas de apostas davam como candidatos mais prováveis ao prémio, entre os quais o queniano Ngugi wa Thiong’o, o japonês Haruki Murakami e a bielorrussa Svetlana Aleksijevitj, -  é considerado por alguns críticos o mais importante escritor francês vivo.
Nascido em Boulongne-Billancourt, arredores de Paris, em 1945, publicou o primeiro romance, “La Place de l’Étoile”, em 1968. Sem estudos universitários, disse mais tarde que se tornou escritor porque não podia fazer mais nada.
Dez anos após esse livro de estreia, que foi bem acolhido pela crítica e lhe valeu alguns prémios, recebeu o prestigiado Goncourt por “Rue des Boutiques Obscures” (1978).
Patrick Modiano recebeu em 1972 o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa com “Les Boulevards de Ceinture” e ao longo dos últimos anos tem sido galardoado, pelo conjunto da obra, com os mais importantes prémios literários franceses e europeus.
Patrick Modiano falou também da relação de um escritor com a palavra:
“Um escritor, ou pelo menos um novelista, tem muitas vezes relações difíceis com a palavra. Se recuperamos a distinção escolar entre escrita e oralidade, um romancista está sempre mais dotado para a escrita. Tem o hábito de guardar o silêncio e se quer entrar em determinado ambiente funde-se com a multidão.”
No discurso, que foi mais um auto-retrato do que uma tentativa de generalização, o autor tentou uma aproximação ao trabalho do romancista, a qual considerou uma “curiosa actividade solitária”.
“Atravessam-se momentos de desespero ao escrever as primeiras páginas de um romance. Enfrenta-se cada dia a impressão de ter seguido o caminho errado”, disse Patrick Modiano.

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