Exposição e livro sobre Marcela Costa

Francisco Pedro |
5 de Março, 2015

Fotografia: Mota Ambrósio

“Marcela Costa Filha de Angola” é o título de um livro sobre a trajectória da artista plástica Marcela Costa que vai ser lançado no dia 10, no Instituto Camões - Centro Cultural Português, em Luanda, e junta-se à sua exposição individual “Retalhos de Angola”.

“São quase 40 anos de trabalho, por isso decidi publicar esses textos que reflectem a minha trajectória de forma resumida, para transmitir e encorajar a nova geração o trabalho árduo, o nome conquistado, e não atribuído, é ainda um impulso às mulheres”, informou a tecelã.
O livro biográfico junta fotos e dezenas de textos jornalísticos publicados em jornais e revistas, no país e no estrangeiro, seleccionados pela própria artista desde a década de 1980 até ao ano passado, mas não conseguiu juntar todas as matérias sobre a sua vida artística. “Perdi alguns textos”, lamentou.
Os textos na sua maioria foram escritos pelos jornalistas do Jornal de Angola Adérito Quizunda, Eugénia Silva, Luísa Rogério, Kumuenho da Rosa, entre outros, além de textos críticos elaborados por Xosé Lois Garcia, Adriano Mixinge, Simão Souindoula e Virgílio Coelho, de colegas de Marcela Costa, e jornalistas estrangeiros, como a sueca Gunilla Winberg.
A introdução é da argentina Diane Biet, que passou por Angola e participou em alguns projectos da galeria Celamar, de Marcela Costa.
O livro é edição da galeria Celamar, financiado pela própria artista, além dos apoios de instituições públicas e privadas.
Sobre a exposição “Retalhos de Angola”, com mais de 20 obras, alguns inéditos, mostra as suas habilidades no campo têxtil, entre pinturas e aplicações, a técnica mista que congrega todo o aprendizado em tecelagem. Marcela Costa é natural do Golungo Alto, província do Cuanza Norte. Depois de passar pela antiga escola do Barracão, em Luanda, fez o curso de Tecelagem Artística no ano de 1984, no Instituto Sueco ASDI, em Estocolmo, com Laly Salvador, Domingas Correia, Teresa Aço e Alzira Caldeira.

Projecto galeria Celamar

Marcela Costa é das poucas mulheres artistas que detém um espaço de raiz para trabalhar e promove, simultaneamente, a arte dos colegas nacionais como estrangeiros que queiram expor os seus trabalhos na galeria Celamar, na ilha de Luanda. “Não me posso considerar realizada, não obstante tenha conquistado e erguido uma galeria”.
Embora não se sinta ainda realizada no campo artístico. “Posso afirmar que sou feliz, porque ganhei o pão com a bela profissão que tenho, e consegui formar os meus filhos”, reconheceu a tecelã, ao pronunciar-se sobre a sua trajectória.
O valor que atribui à arte, além de ser um ofício, é que constitui também uma terapia, pois ao longo da sua carreira viveu inúmeras dificuldades em que a arte serviu como a solução espiritual das suas aflições.  Na sua opinião, o desenvolvimento económico, assim como o bem-estar social e a harmonia no seio das famílias, estão implícitos ao desenvolvimento artístico.

Perspectivas

Marcela Costa sente um alívio por notar que actualmente o Estado tem dado mais atenção às artes, não pela criação do Prémio Nacional de Cultura e Artes, mas também pelo diálogo que tem verificado entre as associações artísticas e o Executivo, através do Ministério da Cultura.  “É através da arte que as pessoas manifestam a sua essência, o que obrigou-me sempre a solicitar por parte do Executivo maior atenção aos criadores, porque a arte como reflexo da cultura está em primeiro plano para atrair turistas, dignificando a imagem do país”.
A defesa de trabalhos de fim de curso, nas escolas de arte, sob referenciais nacionais é, também, um dos aspectos positivos que se pode resumir ao longo dos 40 anos de independência, “mas faltam escolas e centros culturais noutras províncias, formadores, oficinas e galerias”. O desafio lançado por Marcela Costa aos gestores públicos prende-se com a compra de obras de arte de artistas angolanos para decorar gabinetes, corredores e salas de estar dos ministérios e empresas privadas. “Que não se limitem a comprar quadros nos estrangeiros para decorar os gabinetes, alegando que os quadros de artistas nacionais são caros. O contexto faz o preço, assim como o facto de Angola não produzir matéria-prima para artes plásticas”.
Há dois anos que vende poucas obras, facto que no seu entender se deve à falta de educação artística no seio dos angolanos. “Não há sensibilidade por parte das pessoas em visitar galerias, os que fazem-no são amigos, colegas ou familiares, apenas no dia da inauguração da exposição”, contou, em forma de balanço dos 40 anos de independência.
A tecelã deu exemplo do espaço, que embora seja multiusos, as pessoas frequentam-no para outras expressões, tais como música, teatro e dança, e dificilmente se mostram curiosas em visitar a exposição de artes plásticas.
O facto de existirem Institutos médios e superiores de Artes Plásticas no país, a artista considerou negativo o nível elementar sobre a educação artística.

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