Cultura

Exposição “Reino angolar, ponto de partida” de Kwame Sousa

Jomo Fortunato

Julgamos oportuno esclarecer que os “angolares” constituem um grupo étnico distinto, constituído por sobreviventes do naufrágio de um navio negreiro, ocorrido ao sul da ilha de STP, São Tomé e Príncipe, com escravos provenientes de Angola em meados do século XVI.

Quadros do artista Kwame Sousa estão expostos em Luanda
Fotografia: Cedida

Enquanto comunidade linguística o “angolar”, também conhecido como “ngolá”,é uma língua crioula de base portuguesa falada na ponta sul da ilha , em torno da vila de São João dos Angolares.
A exposição, “Reino angolar, ponto de partida” de Kwame Sousa, celebra, do nosso ponto de vista, os “angolares” de SPT, a diáspora angolana, Angola, enquanto uma só nação, e, fundamentalmente, os angolanos, enquanto um só povo, com raízes de grande impacto e magnitude cultural, espalhadas pelo mundo inteiro.
Kwame Sousa, entende que “o momento de ser angolar nunca foi tão emergente. Julgo que é preciso ser angolar, ou seja, mais do que ser, temos que estar na condição de angolares”. E avisa que “documentos pictóricos como esta exposição podem, por vezes, não dizer nada mas a experiência do ser pode mudar a hora de estar.”
“Reino angolar, ponto de partida” de Kwame Sousa é uma proposta de cerca de trinta e cinco obras criadas durante cinco semanas deresidência artística no ELA - Espaço Luanda Arte, com a prestigiada curadoria de  Dominick Tanner. Artista multidisciplinar, explorando uma enorme gama de meios, técnicas e estilos, Kwame Sousa descobriu o gosto pela arte, através do desenho,  influenciado pelos colegas de escola no final do ensino pré-universitário. Em 2000, desenvolveu uma linguagem singular nas suas pinturas e foi um dos vencedores do “Projecto Experimentação 01”, e marcou a sua apresentação pública, com uma exposição na Galeria “Teia de arte” em STP.  Em 2001, integrou com o artista João Carlos Silva e outros, o grande projecto da  II Bienal de artede STP.  Ainda no mesmo ano, passou por um longo período de descoberta e amadurecimento, tendo convivido com diversos artistas do panorama internacional, passando por vários  “workshops”, facto que permitiu a ligação e  troca de experiências com diferentes linguagens artísticas. Em 2002, expôs no “Instituto Politécnico”, Porto, Portugal, e seguiram-se várias exposições individuais e colectivas em STP e noutros países.
No ano seguinte, começou o seu percurso académico em Portugal, tendo passado pela “EPAOE, Escola de Artes e Ofícios do Espectáculo” do Chapitô, e em seguida pela “ARCO, Escola de Arte Visuais”, onde estudou pintura e desenho.  Durante o percurso académico nunca abandonou a pintura, tendo participado em diversas exposições.  Kwame de Sousa pertence à terceira geração de artistas plásticos de STP, sendo considerado um dos artistas mais influentes no panorama internacional em representação de STP. A sua obra está presente em várias colecções no mundo das quais destacamos, a prestigiada Fundação Sindika Dokolo, Luanda.  Filho de Anatália dos Santos Vilhete de Sousa e de Manuel Bom Jesus de Sousa, Kwame Suely Vilhete de Sousa nasceuno Hospital Agostinho Neto, em STP, no dia 24 de Abril de 1980. 

Escola
Fundador da primeira escola de arte independente de STP em conjunto com a sua  “Fundação Mionga Vantxi”, Kwame de Sousa colabora, actualmente, com o projecto CACAU, Casa das Artes Criação Ambiente e Utopia, em STP, com a Galeria  “Zero PointArt”, galeria e espaço de arte contemporânea”, Cabo Verde, com a “Fundação Roça Mundo” em STP, e com o portal “BUALA”, portal de cultura contemporânea,  e realizou exposições  em diversas galerias espalhadas pelo mundo, tendo participado em várias edições da Bienalde SPT e Trienal de Luanda e no Festival de Cinema e Artes de Bamako.

Exposições
Kwame Sousa participou em inúmeras exposições colectivas e fez a primeira exposição individual, em 2003, como tema “Criação“, Galeria “Teia de Arte”, STP, seguindo-se  “Raízes de África “, Galeria “Teia de Arte”, STP, em 2004, “Raízes“, Galeria “Teia de Arte”, STP, 2005, “Traços“ Galeria “Teia de Arte”, STP, 2006, “Mulheres porquê?”, Galeria , STP, 2007, “Peace other face ofwar”, Galeria “Teia de Arte”, STP, 2008, “Pontas soltas“, Instituto Camões, STP, 2008, “I am a man”, Bienal de Fotografia, Vídeo e Pintura, STP, 2008, “Espaços”, Galeria Paletro, Portugal, 2009,  “Bold” Galeria, CACAU, STP, 2011,  “Mãe afrikana”, Centro Jorge de Guimarães, STP , 2011, “Identityof” Galeria “Zero Point Arte”, Cabo Verde, 2012, “Animal colour” Galeria “Arte Kaos”, Itália, 2013, ”Povos do sul” Galeria CACAU , STP , 2014, “Momentos animal”, Aliance Française, STP, 2014, “Animal colour 24oookg“ Galeria CACAU, STP, 2015,   “Fragmentos“, Instituto Camões, STP, 2015, e, em 2016, “Reino angolar“, Galeria CACAU, STP, “Um olhar sobre peixe seco”, Museu de Portimão, Portugal . Em 2017, Kwame Sousa participou na exposição, “Reino angolar utopia e territórios “ Galeria “Wozen”, Portugal, e “Reino angolar  povos do mar”, Galeria “In-Prove”, Áustria. Destacamos ainda a participação de Kwame Sousa , no âmbito do projecto “Reino angolar”,  na “Bienal del SUR”, Venezuela,  Galeria Droog, Holanda, Bienal de Arquitectura, Veneza, e no Festival de Cinema, Lisboa, com o vídeo “Mionga-House”, em 2014.

Depoimento de  João Silva
João Carlos Silva,promotor cultural e Director da CACAU, STP, fez a seguinte leitura da obra de Kwame Sousa: “Telegraficamente amador! Olhos e mentes motoras de todas as utopias, Kwame Sousa entra na teia de sonhos e mistérios, caminha lado a lado com os demais artistas, enfrenta cruzamentos de linhas, mas não descarrila. E agora aceita Anguéné, terra angolar, revisita seu território grávido de magia e imaginários férteis paridos nas camas dos ventos do sul. E entra no ‘óbó’, dançando congos. Reinterpreta escrevedores, Francisco Tenreiro, Alda do Espírito Santo, Almada Negreiros, São de Deus Lima e outros que também são de Deus.
Com os cavalos transportadores de outras dores, nos rostos dos carregadores de esperança. Cuidados com as cruzes ameaçadoras de outros tempos, no “budo-bachana” que não se vê, nem “angras” nem “lulas”, nem “pau-sangue”, nem mesmo quem votou na feitiçaria. Tudo isso são sete navalhas de pedra. Esculpidas e repartidas sob o olhar do capitão dos Angolares, guião, chefe, juiz e soldado, como diz Macedo. Nem é tarde, nem é cedo. É agora. Anguéné escreve: “ E puxando assim a alma do destino desse povo estranho, reis fantásticos e heróis lendários, feitiçarias, rituais, empolgamentos de amor e magias”. Assim Seja! Não basta ser. É preciso angolar!”.

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